O que é que nos atrai no Antigo Egito? A resposta a esta pergunta, se feita em relação aos dias de hoje, terá de passar pelo cinema. Por mais voltas que se dê, no imaginário do público persiste o próprio fascínio com que Hollywood olhou ao longo do tempo para essa cultura longínqua, carregada de iconografia. Ainda este ano chegará às salas uma nova aventura de Astérix & Obélix com Marion Cotillard como Cleópatra - a prova de que a imagem da mítica rainha está destinada a passar de atriz em atriz, qual transmissão de testemunho de beleza. Nesse universo paródico das personagens gaulesas, tivemos antes Monica Bellucci no papel da governante egípcia, mas na história do cinema é a Cleópatra de Elizabeth Taylor que vem imediatamente à memória (e ao motor de busca do Google) quando se pronuncia ou escreve o seu nome. Um rosto de linhas perfeitas, emoldurado pela franja e tranças negras, com as pálpebras bem carregadas de sombra azul, sobre os olhos cor de violeta..Esse Cleópatra (1963), de Joseph L. Mankiewicz, é um dos títulos que não poderia faltar à chamada do ciclo "Nas terras dos faraós", que a Cinemateca programa este mês em colaboração com a Gulbenkian, onde está patente a exposição "Faraós Superstars", até 6 de março. O filme em que Taylor enverga um vestido de tecido de ouro de 24 quilates será apresentado em cópia digital restaurada e com a duração original de pouco mais de quatro horas, nunca antes exibida na Cinemateca. Um clássico a rivalizar neste contexto com outro homónimo, a Cleópatra (1934) de Cecil B. DeMille, que João Bénard da Costa defendeu com unhas e dentes num brilhante texto, não só sobre o filme mas sobretudo acerca dos preconceitos em torno do cineasta do excesso: "Cleópatra foi e é quase um sinónimo de Hollywood, na aceção pejorativa daquele termo: dinheiro, mau gosto, superficialidade, sumptuosidade, incapacidade de entender a História e as suas Grandes Figuras. Uma "americanice", uma "palhaçada", etc., foram alguns dos "mimos" aplicados a este filme, como a outras obras análogas de DeMille.".E continua, provocando os detratores que acusam DeMille de fantasiar reconstituições históricas: "Acaso sabemos nós como foram, de facto, a Roma ou o Egito antigos? (...) Acaso podemos adivinhar a psicologia das personagens que viveram nesses tempos?" Estas interrogações de Bénard da Costa são elementares e podem aplicar-se a qualquer um dos filmes do presente ciclo, porque todos eles lidam com a reprodução de um mundo pouco conhecido nos detalhes mais realistas (foi Howard Hawks quem, a propósito do seu A Terra dos Faraós, se confessou incomodado por não fazer a menor ideia sobre o modo como falavam os faraós...). No caso desta Cleópatra dos anos 1930, representada por uma Claudette Colbert de sorriso irónico, quem tiver a ousadia de olhar para o filme com olhos de ver encontrará - e roubo novamente as palavras de João Bénard - "um dos mais assombrosos exemplos de construção cinematográfica e de sentido de narração que o cinema foi capaz de oferecer. Verá coisas que não sendo "simplesmente belas" não podem dar "aguarelas" mas um fresco portentoso, em que a imaginação não conhece limites, e a cada momento se ultrapassa.".Em suma, uma tela cheia, um território de espetacularidade desenfreada que também está à vista em Os Dez Mandamentos (1956), outro DeMille, outro épico histórico e bíblico no panteão dos clássicos do género, que o ciclo recupera na linha das produções mais conhecidas e definidoras do imaginário em questão..Os que referimos até agora são títulos familiares a qualquer espetador. Mas há outros tantos que se afiguram verdadeiras (re)descobertas. Entre as raridades vamos encontrar, por exemplo, a última longa-metragem muda que Ernst Lubitsch rodou na Alemanha, antes de se mudar para Hollywood (A Mulher do Faraó, 1922). Mas também um filme-ópera italiano protagonizado por Sophia Loren (Aida, de Clemente Fracassi), um épico shakespeariano polaco dos anos 1960 (O Faraó, de Jerzy Kawalerowicz) e uma obra-prima do cinema egípcio, igualmente do final da década de 60, que segue um clã do Alto Egito responsável pelo roubo de artefactos de tumbas faraónicas, depois vendidos no mercado negro (A Múmia, de Chadi Abdel Salam)..Ainda na categoria dos filmes raros, há dois que merecem particular destaque. O primeiro é O Egípcio (1954), de Michael Curtiz, uma obra praticamente esquecida, adaptada do best-seller de Mika Waltari, que conta a história de um órfão, Sihune, adotado por uma família humilde, que se torna médico e acaba envolvido nas intrigas de corte da 18ª dinastia egípcia, juntamente com o seu amigo Horemheb, ambos nomeados para o séquito do faraó depois de o salvarem do ataque de um leão... Com o aparato dos grandes peplums americanos (filmes ambientados na Antiguidade) que se faziam nos anos 1950, esta é uma daquelas produções inscritas na agilidade e eficácia de Curtiz, um realizador que soube mover-se entre os géneros, da aventura ao melodrama, sem perder a arte de uma "mise-en-scène prática" nessas transições. No final de O Egípcio é proferido um longo discurso, ao estilo de Moisés, que destrói a monumentalidade faraónica, exaltando a verdade humana que resiste à morte: "Um homem não pode ser julgado pela cor da sua pele, roupas, joias ou triunfos, mas apenas pelo seu coração.".A morte é, de resto, o princípio e fim do outro destaque do ciclo, o já mencionado A Terra dos Faraós (1955), de Howard Hawks, que surge no corpo da sua obra como uma produção atípica, embora contendo traços do seu cinema no plano das relações entre as personagens. Desde logo, foi a única vez que Hawks trabalhou em Cinemascope, um formato que não apreciava por aí além. Era para ser um filme sobre a construção de um aeroporto na China, ambientado na Segunda Guerra Mundial; acabou por se converter na construção de uma pirâmide no Egito. Aqui, o Faraó interpretado por Jack Hawkins ordena que seja erguido um monumento destinado a albergar o seu corpo após a morte, como forma de o manter protegido de ladrões, mas também garantir que a sua memória se manterá viva, através da imponência do túmulo na paisagem. A pirâmide é então concebida por um arquiteto, que, possuindo o segredo do interior da estrutura labiríntica, deverá ser encerrado lá dentro depois de terminada a construção. Com este motivo principal, a história desenvolve-se a partir da chegada daquela que se tornará a segunda mulher do soberano, Nellifer (Joan Collins), com pretensões de ascender ao trono. Um desenvolvimento que, em vez de aproximar A Terra dos Faraós das típicas intrigas palacianas (como a de O Egípcio), leva o filme para um desenlace tingido de sentido trágico, em que a morte assume a totalidade da narrativa..Nesse tema da morte, e mesmo da passagem do tempo que se faz sentir nas sequências corais que mostram os trabalhos de construção da pirâmide, com planos repletos de massa humana, "sangue e lágrimas", sente-se a marca do escritor William Faulkner, um dos argumentistas do filme. Mas o valor da amizade, que por momentos parece ofuscada pela sensualidade pérfida de Joan Collins, terá a última palavra - e isso é definitivamente Howard Hawks. Isso e as personagens femininas fortes, com diferentes expressões de força, como aquela rainha mãe que protege o filho de uma cobra atirando-se sobre ela... Pedro Costa escreveu todo um elogio solene sobre essa tremenda sequência..Composta por cerca de 250 obras oriundas de coleções europeias (e algumas do Museu Gulbenkian), desde documentos a peças históricas e de arte, a exposição "Faraós Superstars" dá uma perspetiva ampla sobre a influência cultural do Antigo Egito, incluindo a cultura pop, da música à publicidade, passando, claro, pelo cinema. É um outro núcleo narrativo que procura refletir sobre a natureza da popularidade destas personagens, o seu lugar na mitologia egípcia e a dimensão iconográfica que mexeu com a memória coletiva..Na nota à entrada da exposição, é o próprio fenómeno da memória que se coloca no centro da curiosidade: "Ao longo de cerca de três mil anos, o Egito foi governado por mais de 340 faraós. Assim, porque motivo não retemos na memória mais do que quatro ou cinco: Khufu, Nefertiti, Tutankhamon, Ramsés e Cleópatra?".Khufu, desde logo, é uma das personagens imaginadas pelo cinema. A saber, trata-se do soberano de A Terra dos Faraós, aquele que mandou construir uma pirâmide com 147 metros de altura (o monumento mais alto até ao tempo das catedrais da Idade Média), mas de quem não existem imagens para além de uma pequena estatueta de marfim. Já Ramsés aparece nos Dez Mandamentos, interpretado por Yul Brynner, enquanto Nefertiti é vista em O Egípcio, ao lado do faraó Akhenaton, sem qualquer referência ao filho... Tutankhamon. Esta omissão prende-se com o enredo fictício que põe no trono Horemheb, após a morte de Akhenaton (a existência de um herdeiro complicaria o cenário). Mas vale a pena também dar conta de um facto: Tutankhamon foi um faraó votado ao esquecimento. Os seus sucessores procuraram destruir e apropriar-se dos seus monumentos, a fim de não deixar vestígios do seu reinado. Ironia das ironias: foram os 100 anos da descoberta do túmulo de Tutankhamon, e os 200 anos da decifração dos hieróglifos, que motivaram esta exposição..dnot@dn.pt