O esplendor de Sophia Loren aos 86 anos  

Em estreia esta sexta-feira na Netflix, Uma Vida à Sua Frente marca o grande regresso da lenda italiana Sophia Loren, filmada pelo filho Edoardo Ponti numa adaptação do romance homónimo de Romain Gary.

Quando foi a última vez que vimos Sophia Loren no ecrã? Já passou uma década desde que fez de mãe de um felliniano Daniel Day-Lewis em Nove (2009), e era um papel tão secundário que a memória do seu desempenho quase nos falha por entre o barulho das luzes do musical de Rob Marshall. Depois deste só foi dirigida pelo filho, Edoardo Ponti, na curta-metragem Voce umana (2014), uma adaptação da peça de Jean Cocteau que não chegou a passar pelas salas. Por isso, na prática, a longa ausência de Loren fez-se sentir como uma despedida não anunciada das lides do cinema, e sem quaisquer sinais mediáticos de retorno... até agora.

Mesmo não tendo honras de grande ecrã, Uma Vida à Sua Frente, de novo realizado por Ponti, que filma a mãe pela terceira vez (assinou também Entre Estranhos em 2002), é material narrativo que serve de veículo perfeito para o simbólico crepúsculo cinematográfico da estrela italiana. Trata-se de uma adaptação do romance de Romain Gary, escrito sob o pseudónimo Emile Ajar, que já fora levado ao cinema em 1977, por Moshé Mizrahi, com uma distinta interpretação de Simone Signoret no centro - alavanca para o Óscar vencido na categoria de melhor filme estrangeiro. Ao retomar a personagem de Madame Rosa, uma ex-prostituta sobrevivente de Auschwitz que fez da sua casa um refúgio para órfãos e filhos de mulheres com a mesma vida que ela levou, Sophia Loren, maravilhosa, não pretende comparar-se a Signoret. E nem o filme vai por aí.

Desde logo, da Paris dos anos 1970 passa-se para a atual Bari, cidade portuária do sul de Itália conhecida como um dos principais pontos de entrada de refugiados vindos de África e do Médio Oriente - uma inteligente mudança de cenário que dá a esta história de marginalização social um ingrediente importante, sem resvalar para a exploração "temática" da crise dos refugiados. Isto porque quem escreve tem tato. Juntamente com Ponti, temos o argumentista veterano Ugo Chiti (Gomorra) à frente dos detalhes que fazem respirar a autenticidade das personagens menos favorecidas, essas que circulam pelas esquinas do crime.

É daí que vem o pequeno Momo (excelente debutante Ibrahima Gueye), um senegalês órfão que ganha uns trocos a traficar droga. Um dia rouba a sacola de compras de Madame Rosa num mercado de rua e, obrigado a devolver e pedir desculpa, acaba à sua porta em estilo de encomenda: o médico do bairro quer deixá-lo aos cuidados dela, em vez de o confiar à Segurança Social. A viver num humilde apartamento com outros dois meninos sob a sua alçada, Rosa, octogenária de coração fraco mas pulso firme, não se mostra minimamente aberta à ideia de acolher um "arruaceiro", como lhe chama. Porém, já se sabe que o tempo tratará de amolecer o feitio de ambos. Enfim, não apenas o tempo.

A velha guardiã começa a ter episódios estranhos em que fica catatónica, seja num terraço à chuva seja na cave do prédio (onde se esconde, quando ainda não se sabe do quê), e as crianças, apesar de cultivarem teorias absurdas, percebem que o seu declínio físico não é bom prenúncio. Momo fica curioso com o número que vê tatuado no braço dela, e vai desenvolvendo um sentimento de proteção para com a dura benfeitora, como se no fundo houvesse uma sinfonia só deles, um secreto paralelo histórico.

Edoardo Ponti pode não ser um realizador exímio, mas neste caso passa o teste à vontade: bastava que fosse capaz de captar o sortilégio dos 86 anos da mãe. E é isso que acontece em Uma Vida à Sua Frente, um filme modesto, com um toque sentimental que por vezes roça o melodrama italiano à antiga, em parte porque Sophia Loren carrega ela própria o ADN da atriz (oscarizada) de Vittorio De Sica e de Um Dia Inesquecível (1977), de Ettore Scola. O seu rosto leonino, com os traços de feminilidade que a tornaram um ícone, é de um magnetismo tremendo, uma força terra-a-terra com os vestígios claros da sensualidade de outrora.

Há magia na franqueza deste corpo que, inclusive, se presta a dançar diante da câmara (entre cortes púdicos), para depois deixar-se levar por uma subtil melancolia. Loren liberta humor rabugento, altivez e trauma com uma naturalidade arrepiante, e talvez por isso a partilha da tela com o pequeno Momo seja uma forma de suavizar a sua presença. Entenda-se: se ela fosse o único centro da narrativa, provavelmente o seu legado tornar-se-ia um peso, abafando tudo e todos. Assim, Loren é como o motivo recorrente do velho tapete com um leão desenhado que o lojista muçulmano pede a Momo para remendar, enquanto comenta: "É belo, não é? Belo e cheio de história."

*** Bom

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