Foi Marlene Dietrich quem escreveu, na sua autobiografia, que os lexicógrafos nunca foram bem-sucedidos na definição da palavra glamour. Ela, por sua vez, identifica aí os rostos e corpos que nos anos 1930, na paisagem do cinema americano, emprestaram sentido ao termo: "A grande glamour girl foi Mae West. Depois surgiu Carole Lombard. E a seguir, Dietrich; pelo menos de acordo com a opinião da Paramount. Claro, a MGM [Metro-Goldwyn-Mayer] também teve as suas raparigas glamorosas em Jean Harlow, Greta Garbo, Joan Crawford... Nesse tempo não havia sex symbols. A meu ver, essa ideia nasceu com Marilyn Monroe. O sexo na altura era tabu. "Temos de fazer tudo isso apenas e exclusivamente com os olhos", explicou-me um dia Mae West. Não havia uma cena em que nos despíssemos ou aparecêssemos seminuas, nada impróprio. Devo confessar que prefiro esse método.".As palavras de Dietrich fazem-nos recuar bem lá atrás para perceber como, em Hollywood, a imagem das atrizes do star system sempre se associou a uma certa efemeridade, já que o glamour não é eterno nos corpos. Mas são palavras que iluminam também a consciência de que o corpo feminino no grande ecrã simbolizava, por si só, um ideal de sedução sem muita pele à vista - embora Dietrich, curiosamente, seja das atrizes cujo enorme poder de sugestão se afigurou quase o exato equivalente da nudez física... Em 1938, o seu nome, ao lado de outros como as referidas estrelas Mae West, Garbo e Crawford, mas igualmente Katharine Hepburn, era apontado como "indesejável" e "veneno de bilheteira" num editorial pago da Independent Theatre Owners Association no The Hollywood Reporter. O artigo mencionava também atores mas as principais visadas eram atrizes, consideradas mera mercadoria dos estúdios. Marlene não tinha sequer 40 anos e pensou em desistir de tudo (aquela era a sua "sentença de morte"), mas acabou por ser demovida pelo produtor Joe Pasternak. Continuou até mais ou menos à década de 1960; sem fazer um único papel de avozinha em toda a carreira... O mesmo não se pode dizer de Garbo, que se afastou do cinema pouco depois desse infame editorial, e de Ninotchka (1939), terminando a carreira com 35 anos..A história da indústria cinematográfica americana está cheia de carreiras femininas atormentadas. E é uma história indissociável de padrões de beleza, juventude e perfeição (já não exatamente glamour) que ainda hoje assombram o seu imaginário. Mas aqui e ali vão surgindo filmes que levantam questões sobre esse mesmo imaginário, antes de mais, anglo-saxónico. É o que acontece com Boa Sorte, Leo Grande, o filme de Sophie Hyde estreado há poucas semanas nas nossas salas, uma coprodução Reino Unido/EUA que deu que falar por causa do seu último plano, onde a protagonista Emma Thompson aparece, num nu integral, a examinar-se ao espelho como quem abraça, por fim, as imperfeições da sua silhueta envelhecida. Ela interpreta aqui uma professora aposentada e viúva disposta a descobrir o admirável mundo do prazer com a ajuda de um jovem trabalhador do sexo, em encontros sucessivos num quarto de hotel..Na conferência de imprensa do Festival de Berlim, Thompson confessou a dificuldade daquele momento - estar despida em frente a um espelho sem fazer qualquer tipo de pose para parecer melhor -, mas sublinhou a importância de contrariar os requisitos que a sociedade impõe ao corpo da mulher: "Tudo ao nosso redor nos recorda do quão imperfeitas somos. Tudo está errado connosco e devemos apresentarmo-nos de determinada maneira." Requisitos que afetam sobretudo mulheres de uma certa faixa etária, já de si vulneráveis à redução das oportunidades de trabalho..Indo a dados concretos, de acordo com um estudo de 2019 do Actors Guild, citado num artigo do El País a propósito das declarações de Emma Thompson, as atrizes com idade superior a 40 anos representam apenas 25% dos papéis com diálogos. Uma evidente marginalização do envelhecimento feminino no interior da indústria que se reflete no tradicional papel da avó: aquele que Marlene Dietrich nunca aceitou, permitindo-lhe fixar a imagem do glamour..Quanto à nudez, o que o gesto de Thompson veio lembrar é que o corpo feminino maduro no ecrã não tem de ser um exclusivo do cinema arthouse europeu ou sequer um monstro - esse que deu origem ao hagsploitation, o subgénero do terror inaugurado por Que Teria Acontecido a Baby Jane (1962), de Robert Aldrich, com Bette Davis e Joan Crawford, e que continua em permanente reciclagem. Os casos de "desinibição" madura anteriores ao da atriz britânica não vão muito além de Diane Keaton na comédia Alguém Tem que Ceder (2003), onde se deixou apanhar despida aos 57 anos, Helen Mirren, aos 58, em Meninas de Calendário (2003) e Charlotte Rampling, aos 62, em No Limite da Ilusão (2008)..Para além da idade, a questão do corpo imperfeito (ou a desconstrução da ideia de corpo perfeito) é uma batalha que vem sendo travada nos detalhes. Por exemplo, no ano passado Kate Winslet foi notícia por ter recusado os retoques digitais que lhe poderiam ocultar os pneus da barriga numa cena de sexo de Mare of Easttown, e ainda outros para tapar as rugas dos seus olhos nos posters promocionais da série. Uma atitude em linha com a "libertação" de Jamie Lee Curtis no início deste ano, quando, ao apresentar nas redes sociais a sua personagem no filme Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo, afirmou que o que viam na foto não era uma prótese mas sim a sua própria barriga - estava cansada de a encolher desde os 11 anos... Também Selena Gomez tem sido uma das vozes do chamado body positivity, um movimento de autoaceitação que contraria o conceito de corpo ideal..O que nos leva a outro assunto muito na ordem do dia em Hollywood: a representação da obesidade. The Whale, o novo Darren Aronofsky apresentado no último Festival de Veneza (e com antestreia no LEFFEST, dia 16 de novembro), lançou esse debate. No filme, que adapta uma peça de Samuel D. Hunter, Brendan Fraser interpreta um homem gay a lidar com um quadro de obesidade mórbida enquanto tenta, nos dias que lhe restam, conquistar o afeto da filha adolescente. À parte de se tratar de um regresso de peso, em todos os sentidos, com o desaparecido ator de A Múmia a dar provas de uma entrega dramática digna de Óscar (claro que já se antecipa a nomeação), houve críticas à sua escolha para um papel tão específico, já que não se trata de um ator obeso..O tema é interessante porque não tem nada de simples. De facto, porquê esta obsessão de Hollywood em vestir os seus atores com fat suits (fatos de gordura) ou cobri-los de próteses quando existem pessoas obesas que poderiam interpretar o papel da sua vida? Veja-se Gabourey Sidibe em Precious (2009). Mas as coisas não são preto no branco. Aronofsky diz que começou por procurar mesmo um ator com obesidade severa para The Whale, mas percebeu que trabalhar com alguém cuja saúde está em risco não era uma responsabilidade que pudesse assumir. Para além disso, precisava do "ator certo". Uma ideia partilhada pelo comediante Bill Maher, que recentemente acalorou o debate ao defender que, para personagens de grande porte, o casting não deve ser influenciado por questões de raça, etnia, orientação sexual ou tamanho e sim focado no objetivo de encontrar "o melhor ator para o papel"..O caso de Brendan Fraser parece ficar assim arrumado. Mas há outros. Por exemplo: alguém reconheceu Colin Farrell debaixo das camadas de maquilhagem e próteses de Pinguim em The Batman? Confesso que só o genérico final me deu essa informação. Se um ator não tem nada de particular a oferecer a uma personagem, e ainda por cima se torna irreconhecível com o preenchimento facial, o que é que justifica a sua escolha? Não será o mesmo que Christian Bale em Vice, a "tornar-se" a imagem do ex-vice-presidente Dick Cheney ou Jim Carrey a fazer de Grinch....Antes de Brendan Fraser e The Whale, a própria Emma Thompson, agora tão elogiada por Boa Sorte, Leo Grande, gerou polémica nas redes sociais por causa de uma foto da próxima adaptação de Matilda (versão musical) em que aparece num suposto fato de gordura. Basta consultar o trailer e percebe-se que, tendo em conta o universo de fantasia do filme, o tipo de caracterização da personagem não é desadequado. O ponto sensível está em contrariar o discurso apressado da representatividade. Mais uma vez: um ator ou atriz é escolhido para um papel porque tem as medidas certas ou porque é a pessoa certa? Se não for possível conciliar ambos, o que vem primeiro?.Por outro lado, sabemos também que muitas vezes o sacrifício da transformação física é um caminho deliberado para o Óscar, independentemente do valor das interpretações. Mas isso é outra conversa....O corpo continuará a ser um mito em Hollywood, objeto de debates e movimentos, mas longe estão os tempos do glamour, palavra nada inocente. Voltando às páginas da autobiografia de Dietrich: "A palavra glamour significa algo indefinido, inacessível às mulheres normais - um paraíso irreal, desejável mas basicamente fora do alcance. Acho tudo isso muito estúpido. Claro, somos bonitas nas fotos e na vida real, mas nunca fomos tão extraordinárias como a imagem que de nós foi desenhada. Agarrámo-nos a essa imagem porque os estúdios exigiam que o fizéssemos. Nenhuma de nós o apreciou.".dnot@dn.pt