"O cinema autoral (brasileiro) será de resistência"

Premiado no último festival de Cannes, na secção Un Certain Regard, A Vida Invisível, do brasileiro Karim Aïnouz, é um retrato de duas irmãs a viverem na memória uma da outra. O DN falou com uma das protagonistas, Carol Duarte.

Num tempo em que melodrama e romanesco são quase palavras em desuso, há qualquer coisa de refrescante num filme que as vai buscar aos confins de uma certa ideia de cinema. Poderíamos evocar Rainer Werner Fassbinder para entrar na floresta emocional de A Vida Invisível, mas basta dizer que se baseia no livro homónimo de Martha Batalha, com a história de duas jovens irmãs que são unha com carne, Guida e Eurídice, a viverem no Brasil dos anos 1950, sob a égide de pais portugueses conservadores, entre sonhos acalentados e experiências frustradas.

Se no início elas são inseparáveis, quando Guida (Julia Stockler), louca de paixão por um marinheiro, decide fugir com ele para a Grécia, o contacto entre as duas fica para sempre comprometido. Ela diz que volta em breve, mas é incerto. Entretanto, Eurídice (Carol Duarte) acaba por desistir do seu grande desejo de ir estudar piano para Viena, resignando-se a um casamento e vida doméstica indesejados, e o regresso de Guida - que acontece pouco depois - será uma página rasgada e ocultada na memória da família. Uma mentira que se converte numa permanente escrita de cartas que não chegam à destinatária. Ambas vão seguir as suas vidas no Brasil, desconhecendo que estão tão perto uma da outra.

Em entrevista ao DN, Carol Duarte, a atriz que interpreta Eurídice, a irmã pianista, conta que para preparar a sua personagem teve de inverter o processo comum: "O [realizador] Karim Aïnouz pediu para que não lêssemos o livro, mas eu já tinha lido, portanto foi um trabalho de distanciamento do romance..." Eurídice é alguém que usa a música como evasão, como forma de reencontrar o lugar imaginário de um tempo partilhado com a irmã: "[Ela] se comunica pela música, não é uma personagem que elucubra verbalmente sobre os seus sentimentos. Ela e a irmã foram criadas no silêncio das angústias e medos daquela casa no Rio de Janeiro; o piano é quando se liberta e joga ao mundo a sua alma." Por isso é tão virtuosa a cena em que Eurídice faz uma brilhante audição de piano enquanto viaja mentalmente para uma memória abstrata com a irmã - um dos apontamentos "estilísticos" de Aïnouz.

Interessado na crónica feminina desses anos 1950, o realizador brasileiro carrega na textura melodramática e nas cores para expor o contraste entre a dureza de uma realidade e a beleza perene dos sentimentos destas irmãs. Não por acaso, A Vida Invisível do título remete também para a vida das mulheres na sua complexidade social - daquele tempo para os dias de hoje, sem incorrer em discursos fáceis. As personagens femininas aqui, para além das protagonistas, existem num universo muito particular respeitado pela lente de Aïnouz. São heroínas das suas próprias vidas invisíveis, que se entreajudam num mundo dominado pelas leis masculinas. E aí Carol faz questão de sublinhar o papel nocivo dos homens desta história: "Guida e Eurídice foram amarradas num cenário bastante patriarcal que viola os sonhos e os corpos femininos. Na década de 50 era difícil ser mãe solteira ou ter o sonho de ser uma grande pianista."

Entre os homens deste filme deparamos com um inesperado Gregório Duvivier, que interpreta o marido de Eurídice, Antenor, "um homem médio, comum, funcionário público, que em linhas gerais não é violento nem absurdo, é normal", como o descreve Carol. Mas o "normal" é apontado segundo os padrões da sociedade daquele tempo, o que, segundo a atriz, "foi visivelmente difícil para ele [interpretar]", sendo "o avesso do Gregório."

Outra das ilustres convidadas do elenco é a atriz veterana Fernanda Montenegro, que veste a pele de uma velha Eurídice (ainda ligada à recordação da irmã). Tanto ela como Duvivier são figuras públicas que se têm batido contra o atual estado das coisas da cultura brasileira. E a eles se junta a voz de Carol Duarte: "Estamos vivendo um momento difícil, de regressão assustadora não só do pensamento crítico, mas do próprio pensamento. Quase como se o diálogo resultasse no nada absoluto... Bolsonaro não é um Presidente da República, é sim um sujeito que governa ao interesse da sua família e suas organizações, isso não é segredo para ninguém. O cinema autoral crítico do conservadorismo será de resistência, e teremos que achar formas de viabilização." Não sendo um drama de específica vocação política, A Vida Invisível, no seu sólido andamento romanesco, contém essa inequívoca resistência ao conservadorismo. Acrescenta Carol, referindo-se a uma cena do filme: "Espero que no meu futuro eu não lance fogo no piano e sim nas toxicidades da nossa sociedade."

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