Coppola: O cineasta de todos os apocalipses

A estreia do primeiro filme realizado por Francis Ford Coppola, <em>Dementia 13</em>, ocorreu há exatamente 60 anos. A sua trajetória criativa está pontuada por clássicos como a trilogia de <em>O Padrinho</em>, <em>Apocalypse Now</em> ou <em>Do Fundo do Coração</em> - atualmente trabalha na concretização de um velho projeto intitulado <em>Megalopolis</em>.
Publicado a
Atualizado a

Para várias gerações de espectadores, Francis Ford Coppola é, antes do mais, o cineasta que se revelou com os dois primeiros filmes da saga de O Padrinho (1972 e 1974), reafirmando o seu génio criativo poucos anos mais tarde com Apocalypse Now (1979). Vale a pena referir que todos eles figuram na lista dos 250 "melhores filmes de todos os tempos", resultante do inquérito internacional promovido, em 2022, pela revista britânica Sight and Sound: os dois capítulos de O Padrinho em 12.º e 104.º lugares, respetivamente; Apocalypse Now em 19.º

A agenda das efemérides justifica que recuemos um pouco no tempo, lembrando que a carreira cinematográfica de Coppola começara alguns anos antes: a sua primeira longa-metragem como realizador, Dementia 13, foi lançada no mercado americano no dia 25 de setembro de 1963 - faz hoje 60 anos. Embora já várias vezes exibido em ecrãs portugueses - nomeadamente no ciclo de homenagem ao respetivo produtor, Roger Corman, organizado pela Cinemateca em 2007 -, Dementia 13 nunca teve estreia comercial entre nós: a primeira exibição no nosso país ocorreu na RTP, em 1985.

O mínimo que se pode dizer do contexto em que surgiu Dementia 13 é que não tem qualquer equivalente nas atuais dinâmicas de Hollywood e, genericamente, da produção dos EUA. Em boa verdade, na altura não havia nada que se parecesse com as produções de Roger Corman - digamos que ele era a face "oculta" da vaga de transformações por que estava a passar o cinema americano e, mais exatamente, da nova geração de realizadores, que entraria para a história com o rótulo de "New Hollywood".

Assumindo-se como realizador/produtor, Corman começou por se distinguir no registo tradicional da "Série B": filmes de pequeno (pequeníssimo!) orçamento, que apostavam na rentabilização das regras de alguns géneros populares como o western, o filme de gangsters, a ficção científica ou o terror. São dele títulos de culto como A Vida de Um Gangster (1959), A Mulher-Vespa (1959) e A Queda da Casa Usher (1960), este uma das várias adaptações de Edgar Allan Poe que dirigiu.

Ao mesmo tempo, Corman teve a perceção clara de que existia um conjunto de novos talentos, alguns deles já a trabalhar no seu universo de produção, que podiam afirmar-se nas tarefas específicas de realização. Coppola, precisamente, era um colaborador na área do som. Na altura com 23 anos (nasceu a 7 de abril de 1939, em Detroit, Michigan), acompanhara Corman na Irlanda, na rodagem de The Young Racers, uma história de amor em ambiente de corridas de automóveis (o seu lançamento ocorreria também em 1963, no mês de janeiro).

Como sempre acontecia neste tipo de empreendimento, a rodagem foi muito rápida, a ponto de ter sobrado uma fatia do orçamento previsto. Para Corman, era uma hipótese de fazer mais um filme: uma história de terror envolvendo um casal e uma herança de muito dinheiro, que, segundo Coppola, deveria ter qualquer coisa de "gótico", um pouco à maneira de Psico, o clássico de Alfred Hitchcock lançado três anos antes... O certo é que Corman já tinha outro projeto em marcha, acabando por sugerir que Coppola desenvolvesse o argumento, ficando na Irlanda para realizar Dementia 13 - é caso para dizer: o resto é história.

Foi apenas a primeira de uma série de revelações que, de alguma maneira, ajudaram a definir as décadas seguintes do cinema made in USA. Afinal de contas, graças a Corman, estrearam-se na realização Peter Bogdanovich (Targets/Alvos, 1968), Jonathan Demme (Caged Heat/A Gaiola das Tormentas, 1974) e Ron Howard (Grand Theft Auto/O Massacre dos Bólides, 1977); na fase inicial das suas carreiras, também com chancela de Corman, trabalharam ainda Martin Scorsese (Boxcar Bertha/Uma Mulher da Rua, 1972), Monte Hellman (Cockfighter, 1974) e Joe Dante (Piranha, 1978).

Dir-se-ia que esta iniciação de Coppola nas tarefas de realização está também na origem da sua vontade de controle de todas as fases de fabricação de um filme, quer dizer, da sua carreira de produtor. De tal modo que, depois de O Padrinho, ele se assume também como responsável pela produção de muitos dos seus filmes. Primeiro com o mal conhecido O Vigilante (1974), admirável e perturbante retrato de um homem contratado para vigiar a intimidade de um casal, depois com O Padrinho - Parte II e Apocalypse Now.

O sucesso de Apocalypse Now - incluindo a Palma de Ouro de Cannes, também atribuída a O Vigilante - levou Coppola a abraçar o gigantesco e sofisticado projeto de Do Fundo do Coração (1981), em tudo e por tudo um filme "fora de moda": primeiro, pelo modo como apostava na utilização de novas técnicas de filmagem; depois, porque era uma aposta revivalista no género musical (com belíssimas canções de Tom Waits). O falhanço comercial na altura da estreia (hoje é tratado como objeto de culto) deixou o realizador com dívidas que teve de pagar ao longo de mais de duas décadas.

Logo depois de Do Fundo do Coração, em 1983, Coppola optou por realizar dois filmes de pequeno orçamento: Os Marginais e Rumble Fish/Juventude Inquieta (ambos baseados em romances de S. E. Hinton). São duas maravilhosas odisseias juvenis em que, dir-se-ia um pouco à maneira de Corman, ele revelou, ou potenciou, as qualidades de alguns jovens atores. No primeiro encontramos, por exemplo, C. Thomas Howell, Matt Dillon, Rob Lowe, Diane Lane e Tom Cruise; no segundo reaparecem Dillon e Lane, ao lado de Mickey Rourke, Vincent Spano e Nicolas Cage (sobrinho de Coppola).

Sempre interessado na experimentação de novas tecnologias, Coppola teria outro momento exemplar na sua filmografia quando, em 1992 (dois anos depois de ter concluído a trilogia de O Padrinho), com o seu Drácula de Bram Stoker, pôde tirar partido dos recursos digitais postos à sua disposição pela Columbia Pictures. Foi um grande sucesso, o que não impediu que, insolitamente, Coppola tenha entrado no século XXI como uma espécie de símbolo nostálgico da condição tradicional de autor "independente". Os seus títulos mais recentes - Uma Segunda Juventude (2007), Tetro (2009) e A Ilusão (2011) - são pequenas produções que, ainda e sempre em nome de um gosto experimental, exploram os limites tradicionais de géneros que vão do melodrama ao terror. A Ilusão (título original: Twixt) é mesmo uma desconcertante saga de vampiros que utiliza imagens em 3D... mas só em algumas sequências.

Atualmente, ao abraçar o seu velho projeto de Megalopolis, Coppola parece querer regressar a uma grandiosidade espetacular que, para todos os efeitos, sempre foi uma marca forte da sua filmografia. A aposta parece ser radical, quanto mais não seja porque, desta vez, superados os apocalipses financeiros, ele decidiu assumir 100% dos custos de produção.

dnot@dn.pt

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt