Nos últimos dias de janeiro de 1574, um septuagenário era encontrado morto em Alenquer. Sobre a morte pendiam as suspeitas de assassinato. Meses antes, o homem que contemplara o mundo a partir da sua "torre de papel", sucumbira às agonias da Inquisição. A partir do relato do quebra-cabeças da morte de Damião de Góis, o escritor e professor norte-americano Edward Wilson-Lee, traça uma retrospetiva da vida do humanista e cronista português. Fá-lo a par da vida aventurosa e turbulenta do poeta Luís Vaz de Camões. No livro A Torre dos Segredos - Os Mundos Paralelos de Camões e Damião de Góis (Bertrand Editora), Wilson-Lee apresenta duas figuras da nossa história perante os desafios de um novo mundo, o do século XVI..Damião de Góis, admirador da cultura etíope, colecionador de arte, historiador e compositor, viveu uma vida plena antes de se encerrar na Torre do Tombo, arquivo nacional. Contemporânea de Damião de Góis, corre no livro do docente de literatura medieval e renascentista em Cambridge, a história de Luís de Camões, autor do épico relato do encontro com a Índia. As histórias destes dois homens refletem as maravilhas que aguardavam os europeus na sua chegada à Índia e à China, os desafios que essas realidades traziam às antigas crenças europeias..A partir do mundo quinhentista, Edward Wilson-Lee reflete sobre o momento presente da globalização: "É de alguma forma estranho que cinco séculos depois do tráfego entre a Europa e o mundo ter começado a sério, as culturas de África, da Ásia e do Novo Mundo continuarem a ser em grande medida desconhecidas da maior parte dos europeus", lemos n"A Torre dos Segredos..Nascido nos Estados Unidos, criado desde tenra idade no Quénia, no seio de uma família de cineastas e conservacionistas da vida-selvagem, Edward Wilson-Lee fez o seu percurso escolar na Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. O autor tem, entre outros títulos publicados, The Catalogue of Shipwrecked Books: Young Columbus and the Quest for a Universal Library (2018) e Shakespeare in Swahililand (2016), livros não editados em Portugal..Nasceu nos Estados Unidos, viveu na Suíça, Inglaterra, Quénia, México. O que o fez interessar-se por duas figuras portuguesas do século XVI? Fascinam-me os encontros entre diferentes culturas do século XVI, o que implica começar por Portugal. Os portugueses estiveram presentes em muitos desses encontros com povos de outras geografias. Os escritos portugueses são os melhores registos desses encontros e das experiências que daí resultaram. Tendo crescido no Quénia, desde muito jovem que conhecia a obra de Camões. A obra do poeta português forneceu-me o caminho perfeito para reunir duas dimensões centrais à minha vida e que, eventualmente, podem parecer muito distantes: a literatura do início da Idade Moderna europeia, realidade que pesquiso e ensino, e as culturas do Oceano Índico..Em que contexto se cruzou com a história de Damião de Góis, uma figura mundialmente menos conhecida do que a de Luís de Camões, a quem o próprio naturalista Alexander von Humboldt elogiou no século XIX? Além de escrever sobre Luís de Camões, quis escrever sobre o arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa. Foi o primeiro repositório de informação verdadeiramente global. Imagino o que significava tentar organizar, naquela Torre dos Registos, toda a informação que chegava sobre o mundo. Assim que comecei a pesquisar sobre a Torre do Tombo, deparei-me com um dos seus arquivistas mais importantes, Damião de Góis. Fiquei imediatamente fascinado pela figura, pois Damião não era apenas central na forma como os portugueses entendiam o mundo numa perspetiva mais ampla. Damião de Góis recebia e organizava informações de todo o mundo e transformava esses documentos nas suas crónicas. Era uma figura extraordinária por si só: um dos primeiros europeus a interessar-se pelas culturas da Etiópia e do norte da Escandinávia, um talentoso compositor musical e um importante colecionador de obras de arte. Teria na sua coleção As Tentações de Santo Antão, pintura de Hieronymous Bosch. Foi amigo de Erasmo de Roterdão e conhecido de Martinho Lutero. Damião foi o único tradutor das Escrituras para o português na grande era da tradução vernacular da Bíblia. Junte a tudo isto o mistério que envolve a sua morte, para que se torne óbvio que estamos perante a personalidade perfeita para uma dupla biografia, a par da de Camões..A versão em língua inglesa do seu livro tem o título Uma História da Água, o que é uma alusão óbvia ao conteúdo da obra. À luz do seu livro, a água tem vários significados? Sim, o título em inglês pretende ser uma espécie de enigma poético. A água surge ao longo de todo o livro. Água que "transporta" os portugueses nas suas viagens marítimas, quase "engole" Camões e o seu épico Os Lusíadas, lar dos Tritões que tanto obcecavam o cronista. Acresce que Damião de Góis interessou-se pelas qualidades musicais dos rios. Mas, claro, o título é uma brincadeira; é claro que seria impossível escrever uma história da água, porque este elemento é o mesmo em todos os lugares e em todos os tempos. O título chama, contudo, a nossa atenção para o facto de que as histórias das culturas humanas são igualmente dependentes de divisões geográficas e cronológicas arbitrárias, e que a história da humanidade realmente flui mais do que costumamos admitir..Quando nos situa Damião de Góis como o principal guardião do arquivo real português, diz-nos que dali ele contempla "a plenitude caótica do mundo". Que mundo era este no século XVI? Os horizontes da Europa do século XVI estavam a expandir-se mais rápido do que qualquer um poderia acompanhar: não só as naus regressavam anualmente da Índia e do Novo Mundo, trazendo com elas relatos de novas culturas e costumes, como também das populações desses territórios. A tecnologia da imprensa também começava a produzir, em muitos casos com a ajuda de Damião, relatos detalhados da vida dos etíopes, dos sami, dos russos e dos chineses, dos tupinambás do Brasil e dos povos de Moçambique. Tudo isso representou um imenso desafio para a forma como a Europa pensava o mundo, antes muito mais binário, dividido entre a cristandade e o inimigo islâmico. Os europeus tinham sentimentos e reações contraditórios à imagem muito mais variada do mundo que o século XVI apresentava..A Torre dos Segredos relata-nos como dois homens viajados, Damião de Góis e Luís Vaz de Camões, reagem a esse novo mundo do século XVI. Escolheu-os por representarem duas visões diferente desse mesmo mundo? Sim, de facto. Camões viajou para a África, Índia, China e talvez até mesmo ao Japão, os seus escritos centram-se na criação de um retrato do heroísmo europeu, com pouca disponibilidade e interesse por outros povos. Damião, por outro lado, enriqueceu as suas crónicas dos reis portugueses com relatos sobre a vida no Gujarate, na Pérsia, na Etiópia e nos Açores. Era um homem com uma mente aberta, incomum para a sua época. Nem Camões nem Damião estavam sozinhos nas suas reações, mas eles encapsulam duas respostas muito diferentes a um mundo mais amplo, quer nos seus escritos, quer nas suas vidas..No seu site refere-se a Damião de Góis como "um apaixonado por Tritões e pela cultura etíope, um colecionador de arte incomum, um historiador e especialista em "música aquática"". De Camões diz: "um rufião, vagabundo e fanfarrão, perseguido em todo o mundo, de Moçambique ao Japão". Se olharmos para estas citações, Camões não configuraria um perfil capaz de o tornar o nosso poeta nacional... Camões foi um soldado da fortuna de diferentes modos: reconheceu que os europeus, em geral, e Portugal em particular, estavam desorientados com o novo mundo com que se deparavam; inseguros sobre o seu papel no seio desse mundo e como processar a história à luz de toda a nova informação. Luís de Camões ofereceu uma narrativa extremamente atraente de heroísmo e destino. Não só os portugueses, como toda a Europa, amaram-no por isso, ainda que só depois da sua morte. Camões foi um poeta extraordinariamente talentoso e muitos dos seus escritos estão entre os melhores desta grande era da literatura; mas também foi alguém sem sorte, a precisar de fazer fortuna com a sua pena, ao falhar em fazê-lo com a sua espada..Falemos de globalização. Na sua perspetiva, no mundo de hoje precisamos de ser um pouco mais Damião de Góis? Julgo que sim. Como Damião de Góis, vivemos uma era de globalização crescente. Compramos produtos em todas as latitudes, voamos ao redor do mundo e podemos falar com pessoas a milhares de quilómetros com um toque num botão. Mas, como a história mostra, as interligações globais não levam de forma alguma à compreensão global. Precisamos desesperadamente de cooperação global para lidar com muitos dos problemas prementes nos nossos dias, das alterações climáticas, às pandemias e à evasão fiscal. A forma de começarmos este caminho é sermos mais como Damião: abertos ao que o mundo tem a oferecer, curiosos face às soluções encontradas pelos outros para responderem aos desafios. Quanto mais entendemos outras culturas, menos provável é que desconfiemos delas e as vejamos como a oposição..Publicar um livro sobre Luís de Camões e Damião de Góis em Portugal, país onde nasceram estas figuras, tem um impacto diferente de o fazer noutros países. Tem recebido opiniões e críticas de portugueses? Até agora todos foram muito gentis. É claro que li muitos historiadores portugueses ao escrever o livro e fui aconselhado por outros, e o facto de ser um grande lusófilo espero que ajude. Mas também espero que o que consegui oferecer neste livro tenha sido uma visão cosmopolita do Portugal do século XVI. Damião era uma figura com redes pan-europeias, em muitos aspetos era bastante resistente ao nacionalismo..Ao olharmos para o Damião de Góis do seu livro fazemos uma analogia com outra figura de um seu livro anterior: The Catalogue of Shipwrecked Books (sem edição em Portugal) relata-nos a história de Fernando Colombo, filho de Cristóvão Colombo. Este homem também procurou uma biblioteca universal. Podemos fazer esta comparação? Sim, tem razão. Uma das razões pelas quais quis trabalhar no "arquivo global" prende-se ao facto de ser uma continuação natural do meu trabalho na "biblioteca universal". Damião e Fernando Colombo têm muitas coisas em comum: ambos tinham um apetite imenso por coligir informações sobre o mundo, e ambos tinham a incrível habilidade de estar presentes em muitos dos acontecimentos mais importantes da sua época. As suas vidas não apenas unem a história desse período, a história de como nos tornámos modernos, mas também sobre pessoas que procuravam entender mudanças revolucionárias, como a imprensa, no caso de Fernando Colombo, e a globalização no caso de Damião de Góis..Os seus livros trazem-nos histórias inesperadas. Em Shakespeare in Swahililand relata-nos a influência do poeta inglês dos séculos XVI/XVII no continente africano. Quer revelar-nos como se deu esta influência? Realmente é uma história fascinante. Podemos recuar nesta história ainda à vida de Shakespeare, quando uma peça sua foi, supostamente, encenada a bordo de um navio na costa da África Oriental na rota das especiarias para a Índia, explorada pelos portugueses. Mas a história começa, realmente, com os exploradores da era vitoriana. Todos levavam cópias das obras de Shakespeare nas suas expedições ao interior africano. Deixaram-nos fascinantes registos sobre a leitura de Shakespeare neste novo ambiente. Consideravam que carregavam Shakespeare como uma "arca" da cultura no Continente Negro. A história torna-se ainda mais interessante quando Shakespeare começa a ser absorvido e reelaborado pelos leitores africanos. O material shakespeariano está entre os primeiros trabalhos impressos em suaíli. Em breve, houve uma próspera apresentação de peças de Shakespeare na África Oriental. As obras do poeta e dramaturgo inglês desempenharam um importante papel nos movimentos revolucionários contra os governos coloniais e estiveram no centro do debate pós-colonial sobre o universalismo de histórias que, realmente, "falam" com todas as pessoas, em todos os lugares e abordam valores idênticos..A Torre dos Segredos Edward Wilson-Lee Bertrand Editora 372 páginas.dnot@dn.pt