O ano em que Paul Schrader foi "cancelado"

Nem todos podem ser nomeados, mas à porta terão ficado Ben Affleck, Jared Leto, Jennifer Hudson e Lady Gaga. Para a História vai ficar a omissão a Paul Schrader e ao seu belíssimo The Card Counter - O Jogador, obra maior do cinema americano do ano passado.

Num ano em que se começa a perceber o súbito favoritismo de última da hora de um filme como CODA- No Ritmo do Coração, os imponderáveis acumulam-se nesta edição algo atípica. Até CODA, que mesmo que não ganhe a categoria de melhor filme e melhor argumento adaptado, tem uma ausência estranha na categoria de melhor atriz secundária, a fabulosa Marlee Matlin, talvez negligenciada por já ter vencido a categoria principal das atrizes por Filhos de um Deus Menor. Matlin é o coração e alma de um filme que reforça a importância dos festivais nesta coisa dos Óscares. Os prémios no Festival de Sundance sempre servem para um ano depois terem alguma ampliação na Academia, tal como o sucesso de Cannes de Drive my Car. Em oposição, Casa Gucci, que não apostou nos festivais é punido, mesmo se pensarmos que não era um filme com "estampa" de prestígio artístico. Aí os prejudicados foram Jared Leto e Lady Gaga, ausências notórias, talvez a pagarem a conta de um registo longe do naturalismo da moda - os detratores falam em representar como "bonecos".

O caso Schrader

Mancha negra nesta noite é não encontrarmos pistas de The Card Counter - O Jogador, de Paul Schrader, obra que foi aclamada pela crítica como um dos melhores do ano. Faz confusão como neste ressurgimento de Schrader a Academia o ignore de forma tão afrontosa, tal como o seu protagonista, Oscar Isaac, nesta altura uma das referências da interpretação em cinema de um ator clássico de Hollywood.

Há também muita virgem ofendida com a omissão de Jennifer Hudson como rainha Aretha em Respect, o biopic da grande rainha do soul. Talvez seja preciso não esquecer que o trabalho da cantora e atriz está sempre mais perto de uma prova de show de talentos, se bem que para o ano temos biografias de famosos como Elvis (por Austin Butler), Marylin Monroe (por Ana de Armas), Oppenheimer (por Cillian Murphy), Whitney Houston (por Naomi Ackie) ou Barry Gibb (o líder dos Bee Gees por Bradley Cooper). Alguns deles são antecipadamente "nomeáveis". Estranheza é ainda nas melhores secundárias a falta de coragem de nomear Caitriona Balfe, o raio de luz de Belfast. E já que mencionamos os secundários, muitos se interrogam como Ben Affleck ficou afastado pelo trabalho em The Tender Bar, o pequeno e insignificante filme de George Clooney para a Amazon. Provavelmente é necessário relembrar que o media hype não é tudo. Seguramente, será mais justo perguntar pelos esquecimentos de Ed Harris em A Filha Perdida, de Maggie Gyllenhaal, ou Bradley Cooper no cortado papel em Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson. Ruth Negga, sublime em Passing- Identidade, de Rebecca Hall, ficou surpreendentemente de fora - quase que se pergunta: será que a Academia teve medo de ter demasiadas atrizes de cor nomeadas?

O habitual preconceito com a ficção-científica ficou apaziguado pela nomeação para melhor filme para Dune-Duna, embora há quem se queixe de que o seu realizador, o canadiano Denis Villeneuve, tenha ficado de fora.

As minhas escolhas

FILME

West Side Story

REALIZAÇÃO

P.T Anderson (Licorice Pizza)

ATOR

Benedict Cumberbatch (O Poder do Cão)

ATRIZ

Olivia Colman (A Filha Perdida)

ATOR SECUNDÁRIO

Kodi Smith-McFee (O Poder do Cão)

ATRIZ SECUNDÁRIA

Jessie Buckley (A Filha Perdida)

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