O ano da afirmação da Casa de Cinema Manoel de Oliveira

A Casa de Cinema de Manoel de Oliveira, em Serralves, apresentou as linhas fortes da sua programação. De Oliveira (fotógrafo) a Alexander Kluge, passando por Arthur Jafa, os nomes a encontrar no deslumbrante espaço de Siza Vieira.

Se é elitista ou não a programação de cinema da Casa de Cinema pouco importa. O elitismo num contexto de programação dentro de um museu como o da Fundação Serralves tem que se lhe diga. Recentemente, a Casa de Cinema Manoel de Oliveira anunciou publicamente as suas linhas mestras de programação até ao final do ano. Exposições, ciclos e sessões especiais com uma visão sempre em contexto com um espaço de procura e de experimentação, onde não falta a variação da memória e a presença constante do legado de Manoel de Oliveira.

António Preto, o homem forte desta casa assume um espetro largo e forte da programação: "é um programa ambicioso. Ambicioso para continuar a trabalhar este legado do Manoel de Oliveira em múltiplos e variados cruzamentos com outras filmografias do cinema contemporâneo". Um projeto iniciado o ano passado com a inauguração da Casa do Cinema em pleno dia de São João e em que se destacou o ciclo e a exposição em torno da obra de Eugène Green, cineasta que tem vindo a fazer uma obra de cinema não distante de uma certa tradição oliveiriana. Para já, foi a sedimentação de uma oferta cinéfila para o Porto de forma contínua e com uma curadoria atenta e rigorosa,

Em 2020 o cinema que esta casa vai trazer continua a reafirmar os pressupostos que Preto instituiu. São vários os momentos que vão permitir ao Porto ver cinema das mais varias proveniências e em contextos particulares. Pode não haver uma aposta em antestreias (a vocação escolhida não foi decididamente essa), mas a contemporaneidade está equidistante dos trabalhos da recuperação da memória, havendo também um número significativos de filmes novos (obras que nunca estrearam nos circuitos comerciais portugueses e que não são necessariamente desse circuito). A programação pode ser confundida com filiação de cinemateca mas procura antes outras paisagens.

Na lindíssima e pequena sala projetada por Siza Vieira, o primeiro dos nomes a ter honras de retrospetiva é Arthur Jafa, o norte-americano que venceu o prémio da Bienal de Veneza. Todo o cinema deste teórico, artista visual e cineasta vai estar presente. Trunfo que é também figura de destaque logo ao lado e em simultâneo, no Museu de Serralves. Esta operação Jafa fará com que o espaço das exposições temporárias seja ocupado já em fevereiro pelo próprio Jafa com a obra Love is the Message, Message is Death. "Paralelamente à exposição e à retrospetiva dos filmes de Jafa, vamos ter um grande ciclo de cinema chamado The Dark Mater of Black Cinema. Um ciclo com diferentes núcleos de programação, um dos quais a caracterizar o modo como a cultura afro-americana é constitutiva daquilo que é a cultura americana", informa António Preto.

O prato forte da programação das exposições será sem dúvida a recuperação de Manoel de Oliveira como fotógrafo. Uma exposição que permitirá conhecer alguns dos seus trabalhos inéditos de fotografia, em especial durante as décadas de 1930/40. Para Preto, trata-se de uma recolha importante para perceber o peso do enquadramento e da questão estática no cinema do mestre: "uma exposição que será também acompanhada por um ciclo de cinema centrado nas possibilidades de pensar a relação entre a fotografia e o cinema".

Outro dos momentos fortes do ano será a exposição e o ciclo (retrospetiva ampla) de Alexandre Kluge, pai do novo cinema alemão. "O Kluge é alguém que tem desenvolvido no seu trabalho vasto um olhar crítico sobre o fim das ideologias e a História recente da Europa. O trabalho que o desafiámos a fazer passará por responder à questão sobre o que poderá ser hoje o cinema político", diz com o orgulho o programador, não escondendo que Kluge terá carta branca para escolher filmes do seu gosto. Paralelamente a todos estes ciclos e exposições, estão previstas uma série de conferências e lançamentos de catálogos e livros em sintonia com a linha das exposições, estando ainda garantido um livro com escritos de Oliveira.

O Estetoscópio, ciclo de filmes que promove a reflexão entre o cinema e a política, tem igualmente guia de continuação com um tema que pretende interrogar o que se entende por ecologia social.

Para quem se queixa que não há nenhum cineasta português escolhido para exposições ou ciclos, António Preto é peremptório: "claro que no futuro isso vai acontecer, mas não colocamos as coisas de forma muita rígida no que toca a nacionalidades... Aliás, o que é cinema português? O que não é cinema português? É tão evidente que a obra do Oliveira teve e continua a ter uma enorme importância no cinema que é feito cá... Evidentemente, o cinema português está presente na programação regular. A Casa do Cinema Manoel de Oliveira tem um diálogo com o cinema português que integra o nosso diálogo com o cinema, ponto".

Da programação regular, os ciclos continuam também a ser um costume saudável na sala de cinema da Casa. Nos primeiros domingos de cada mês haverá Histórias do Cinema, onde está proposto um olhar cinéfilo da História e histórias do cinema, tendo os segundos domingos um núcleo chamado Planisfério, onde se dá a ver cinema menos mediático de pontos do mundo mais esquecidos ou distantes. Os restantes domingos terão filmes sob a égide dos seguintes pontos: A Crise da Ficção ou a Ficção da Crise e Inquietude. O primeiro aposta num debate com as propostas que visam inquirir o papel do cinema real e dos limites da ficção numa obra cinematográfica, enquanto o segundo tenta levar a Serralves obras que se inquietam quanto à forma e aos limites da própria maneira como a Sétima Arte se questiona em todos os modelos e possibilidades.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG