Salvo honrosas exceções, as séries e filmes biográficos que pululam nas plataformas de streaming obedecem a um pueril esquematismo narrativo. Tudo se passa como se as figuras retratadas - sobretudo quando desempenharam algum papel importante na história coletiva do seu tempo -, tivessem vivido uma vida sem incertezas, ambiguidades ou contradições, limitando-se a "ilustrar" um destino que, naturalmente (?), o espectador conhece por antecipação. Daí a curiosidade em relação a Golda, quanto mais não fosse porque o seu realizador, Guy Nattiv, é detentor de um Óscar pela curta-metragem Skin (2018), um prodigioso conto moral sobre os mecanismos (familiares) do racismo..Agora, Nattiv aborda uma personagem tão complexa e, em alguns aspetos, tão enigmática como Golda Meir (1898-1978). Enquanto chefe do governo de Israel - ela é mesmo a única mulher do seu país que já ocupou o cargo de primeiro-ministro -, teve como momento emblemático, e trágico, da sua carreira a Guerra de Yom Kippur, em 1973, que opôs o exército israelitas às forças armadas do Egito e da Síria - esse conflito é, precisamente, o fulcro do filme..Nattiv é um realizador israelita (nascido em Tel Aviv, em 1973) que vive e trabalha habitualmente nos EUA - Golda resultou de uma coprodução EUA/Reino Unido. Como ele próprio reconhece numa entrevista dada ao site Deadline há pouco mais de um mês (21 agosto), a primeira dificuldade na abordagem da personagem decorria do facto de, durante décadas, ela ter existido como uma figura maligna no imaginário de Israel..O facto de a Guerra de Yom Kippur ter provocado imensas baixas nas forças militares, sobretudo de soldados muito jovens, reduziu Golda Meir a uma imagem maniqueísta, quase descartável. Só a recente divulgação de documentos sobre as reuniões de governo realizadas nesse período permitiu reconhecer as convulsões do que aconteceu: "Compreendemos que ela não podia ser tratada como culpada. Era muito mais complicado do que isso. Ela confiou na incompetência dos seus comandantes que cometeram muitos erros e quase nos conduziram a uma destruição total.".Daí a importância das cenas do gabinete governamental e, em particular, a frieza política, ainda que temperada por alguma cumplicidade emocional, das conversas de Golda Meir com Henry Kissinger (interpretados, respetivamente por Helen Mirren e Liev Schreiber, ambos impecáveis). Nesta perspetiva, Golda é menos uma inventariação de factos históricos e mais um drama psicológico sobre o modo como um pequeno conjunto de decisores vai elaborando a sua visão desses factos - e, depois, claro, tomando decisões..Evitando a facilidade de transformar o seu filme numa narrativa "simbólica" sobre o presente (passaram-se 50 anos e a história do Médio Oriente é tudo menos linear), Nattiv não deixa de afirmar que vê em Golda Meir uma diferença fundamental em relação a "muitos líderes" do presente: para ele, fazem falta "pessoas humildes que se preocupem mais com o país do que consigo próprias.".dnot@dn.pt