Como garantir uma boa reforma a uma personagem lendária do cinema? A pergunta envolve alguma ironia, ma non troppo. Em boa verdade, pelo menos desde o primeiro e brilhante Batman (1989), de Tim Burton, sobretudo através da avalanche de títulos de produtoras enraizadas no domínio específico da BD (Marvel e DC Comics), as últimas décadas dos grandes estúdios dos EUA têm sido marcadas pela reforma, reformulação e, na melhor das hipóteses, reinvenção de personagens com uma longa vida (e morte!) em narrativas mais ou menos mitológicas. Volta a acontecer agora com Nosferatu, escrito e realizado por Robert Eggers..Eggers não esconde as suas legítimas ambições e faz questão em sublinhar as fontes de inspiração do seu trabalho. A saber: o argumento escrito por Henrik Galeen para o clássico Nosferatu (1922), de F. W. Murnau, e o romance Drácula (1897), de Bram Stoker, peça central na definição de toda a mitologia dos vampiros. Resta saber o que se faz, ou pode fazer, com tão prodigiosas referências..O filme é liminarmente transparente no seu fascínio pela obra-prima de Murnau. Na perspetiva de Eggers, há mesmo um valor emblemático na imitação do movimento da sombra da mão, com as unhas afiadas, do Conde Orlok/Nosferatu (Bill Skarsgard) sobre a figura indefesa da jovem assombrada, Ellen Hunter (Lily-Rose Depp)..Dir-se-ia que este novo Nosferatu, de tão insistente na afirmação da sua herança, acaba por menosprezar os próprios trunfos que tem para jogar. Até porque, apesar de tudo, o primeiro tempo de exposição do filme distingue-se por alguns sofisticados efeitos cénicos, a cargo da cenografia de Craig Lathrop e, sobretudo, dos tons densos e enigmáticos da direção de fotografia de Jarin Blascke — são ambos, aliás, colaboradores das anteriores longas-metragens de Eggers: A Bruxa (2015), O Farol (2019) e O Homem do Norte (2022)..A certa altura, tudo isso se complica (ou simplifica, de modo desastradamente caricatural) quando o filme parece deixar de acreditar nos seus recursos e criatividade: primeiro, introduzindo uma personagem, tradicional nestes contextos, de um professor/filósofo que, em diálogos de dramática banalidade, vem explicar o fenómeno vampiresco — e é, no mínimo, incómodo observar o talento de um ator como Willem Dafoe a ser desperdiçado em tão esquemática figura; depois, preparando um “grande final” típico de uma estética menor, dominante nestes tempos pouco cinéfilos, alicerçada na explosão circense de sangue nas imagens e ruído na banda sonora..Fisher & Coppola.Que poderia ser uma revisitação consistente de Nosferatu nos dias que correm? A pergunta é equívoca, já que os filmes são o que são, não aquilo que um qualquer espetador possa “imaginar”. Registe-se apenas que o filme de Eggers, além de não arriscar refletir sobre a possível “reformulação” estética de Murnau (tentada de forma, pelo menos, aplicada por Werner Herzog, com o seu Nosferatu de 1979), também se mostra indiferente a duas vias que vale a pena recordar: a tradição da Hammer Films britânica, nos anos 1950/60, ligada ao trabalho de um grande cineasta como Terence Fisher e centrada na pose inconfundível de Christopher Lee, ou esse objeto solitário e fascinante que é o Drácula de Bram Stoker (1992), de Francis Ford Coppola..Fica uma interrogação que, sendo cultural, não deixa de ser curiosamente comercial: será possível introduzir nos mercados de cinema algum revivalismo dos grandes clássicos do tempo do mudo? Há sinais dispersos, mas muito interessantes, do modo como os filmes “antigos” voltam a ter um público interessado na infinita pluralidade de mais de um século de imagens em movimento – lembremos os magníficos ciclos dedicados a Jacques Demy e David Lynch, atualmente disponíveis nas salas comerciais. Convenhamos que a herança de Murnau tem, ou pode ter, um lugar na dinâmica desse panorama — imaginemos o seu regresso com algum fervor romântico.