No labirinto do tempo

Numa singular comunhão com a natureza, Fevereiro retrata uma personagem em três momentos distintos da sua existência, da infância à velhice.

Ao descobrirmos o filme búlgaro Fevereiro, escrito e realizado por Kamen Kalev (n. 1975), talvez seja inevitável sentirmos que há nele um subtexto cultural, porventura político, que nos escapa. Mas a eventual estranheza não nos afasta das suas imagens e sons, antes nos vai enredando numa experiência sensorial tecida de evidência e mistério - sendo o mistério aquilo que, por vezes, nasce da mais cândida evidência.

Estamos, afinal, perante uma viagem pelo labirinto do tempo com claras componentes universais. Dividido em três partes - "Passado", "Serviço militar", "Fevereiro" -, o filme acompanha uma mesma personagem, Petar, na sua obstinada comunhão com o cenário rural em que nasceu. Descobrimo-lo, ainda criança, a ajudar o avô a tomar conta de um rebanho; encontramo-lo depois na condição de soldado, recusando a possibilidade de uma carreira militar com meios compensadores, afirmando-se como pastor que foi e será até o fim da vida; enfim, seguimo-lo, envelhecido, de regresso às tarefas do campo, numa vida solitária entrecortada pelos telefonemas da irmã que, com serena transparência, lhe anuncia que não vai viver muito mais tempo...

Dir-se-ia uma caminhada na direção de uma "purificação" metafísica. O certo é que tal descrição corre o risco de passar ao lado daquilo que me parece ser o elemento vital e fascinante da narrativa de Fevereiro. A saber: a presença de uma natureza que existe, não como quadro "pictórico" das ações da personagem central, antes como verdade eminentemente material em que toda uma existência se esgota e redime.

Pensei na energia telúrica do cinema de António Reis e Margarida Cordeiro, desde logo na referência modelar de Trás-os-Montes (1976). Claro que o "paralelismo" está longe de esgotar as singularidades do filme de Kalev, mas talvez nos ajude a penetrar na sua contida magia. Há mesmo em Fevereiro uma solidão criativa em tudo e por tudo cúmplice da deambulação do seu Petar - como se o cinema fosse essa arte, discreta e nobre, de lidar com a crueldade do tempo que passa.

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