Morreu Sir Patrick Stewart, o vulto de Shakespeare que conquistou as estrelas
Sir Patrick Stewart, uma das presenças mais magnéticas e imponentes da representação contemporânea, morreu na quarta-feira, 28 de outubro, na sua residência em Los Angeles, aos 86 anos.
A confirmação foi avançada no dia seguinte pela família e pelos seus representantes, indicando que o ator britânico sucumbiu a complicações associadas à doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy, contra as quais batalhava de forma reservada nos últimos anos.
Para milhões de pessoas em todo o planeta, o seu nome confunde-se de forma indelével com o do Capitão Jean-Luc Picard, mas o encontro com a ficção científica esteve longe de ser amor à primeira vista.
Quando Gene Roddenberry o escolheu para encabeçar o elenco de "Star Trek: The Next Generation", em 1987, Stewart não conhecia a série original, a que tinha o capitão Kirk e o Mr. Spock como personagens principais, e ignorava por completo o peso do género. Encarou o convite com profundo ceticismo. Amigos próximos dos palcos londrinos, entre os quais Sir Ian McKellen (que anos mais tarde viria a cruzar-se com Stewart na saga dos X-Men, como Magneto), chegaram mesmo a desaconselhar formalmente a assinatura de um contrato de longa duração, temendo o desperdício de uma promissora carreira teatral.
Foi o agente do ator quem acabou por convencê-lo com um argumento pragmático: a produção norte-americana dificilmente sobreviveria à primeira temporada, o que lhe permitiria ganhar algum dinheiro, apanhar sol na Califórnia e regressar rapidamente a Inglaterra...
Convencido de que o projeto seria um fracasso e sem compreender a dimensão do fenómeno em que se estava a meter, Stewart manteve as malas por desfazer durante as primeiras semanas de filmagens em Los Angeles. No estúdio, a sua postura inicial foi marcada pela severidade austera da Royal Shakespeare Company — chegando a repreender os colegas de elenco com a célebre frase "não estamos aqui para nos divertirmos" quando as gravações descambavam em gargalhadas.
Contudo, à medida que a cumplicidade com os outros atores cresceu e os guiões ganharam fôlego, Stewart compreendeu o alcance filosófico, humanista e ético do universo idealizado por Roddenberry. O que nascera como uma aventura descartável transformou-se numa devoção absoluta: o que "não passaria de um ano" resultou em sete temporadas, 178 episódios e quatro filmes para cinema.
O ator abraçou Picard de forma apaixonada e visceral, moldando uma autoridade moral que redefiniu o estatuto da ficção científica na televisão e à qual regressou, já octogenário e em tom de despedida reflexiva, em "Star Trek: Picard" (2020–2023).
A travessia por Arrakis às ordens de David Lynch
A ponte da Enterprise não foi, no entanto, a única incursão de relevo do ator pelos meandros da ficção científica.
Anos antes de vestir a farda da Frota Estelar, Stewart já havia deixado a sua marca num dos universos mais densos e mitificados da literatura do género ao interpretar Gurney Halleck na ambiciosa e divisiva adaptação cinematográfica de "Duna" (1984), realizada por David Lynch.
Na pele do mestre de armas guerreiro e trovador da Casa Atreides — empunhando tanto o baliset como as armas nas areias de Arrakis —, o britânico emprestou uma nobreza bélica e uma sobriedade cénica que se tornaram pontos altos do filme de culto, antecipando a gravidade com que mais tarde dominaria o espaço sideral.
A forja clássica e a fidelidade a Shakespeare
Essa solidez dramática que acabou por pontuar as suas viagens galácticas vinha de uma formação cénica impiedosa.
Nascido em Mirfield, West Yorkshire, em 1940, Stewart ingressou na conceituada Bristol Old Vic Theatre School antes de se fixar, em 1966, na Royal Shakespeare Company, onde permaneceu como membro associado durante décadas.
Sob a direção de mestres como Peter Brook, participou na histórica encenação de Sonho de uma Noite de Verão, em 1970, conquistando mais tarde dois prestigiados prémios Laurence Olivier: em 1994, com a adaptação a solo de A Christmas Carol, de Dickens, na qual encarnou mais de quarenta personagens; e em 2009, pelo papel de Claudius num aclamado Hamlet, ao lado de David Tennant.
Do mentor dos mutantes ao crepúsculo de Logan
A versatilidade do seu talento já se revelara na televisão britânica nos anos 70, em marcos como Eu, Cláudio (1976) e nas adaptações dos romances de espionagem de John le Carré, A Toupeira e A Vingança de Smiley.
No cinema, depois de incursões de culto como o clássico medieval Excalibur (1981), de John Boorman, encontrou na viragem do milénio outro pilar indelével da sua carreira ao interpretar o Professor Charles Xavier no franchise X-Men (2000), papel que desempenhou com profunda humanidade e gravidade.
Este foi outro dos papéis mais marcantes da sua carreira (além de Picard), especialmente memorável no comovente crepúsculo em Logan (2017), de James Mangold.
Armado cavaleiro pela Rainha Isabel II em 2010 pelos seus serviços às artes dramáticas, Sir Patrick Stewart aliou sempre a excelência artística a um compromisso cívico ativo, dando a voz a campanhas contra a violência doméstica e em defesa da saúde mental.
Sir Patrick Stewart deixa a sua mulher, a cantora e compositora Sunny Ozell, com quem era casado desde 2013, e dois filhos do seu primeiro casamento com Sheila Falconer: Sophie e o também ator Daniel Stewart, que nos anos 90 chegou a partilhar com o pai a ponte de Star Trek."
Desaparece nesta ponta final de 2026 um dos raros vultos capazes de provar que a cadência dos palcos nos grandes textos clássicos e as viagens para além das estrelas partilham, em última análise, a mesma interrogação sobre a condição humana.

