Carlos Saboga (1936 - 2026)
Carlos Saboga (1936 - 2026)LEFFEST

Morreu Carlos Saboga, argumentista multifacetado, também realizador

Com uma carreira de seis décadas de cinema, Carlos Saboga foi sobretudo um argumentista, tendo-se estreado com O Lugar do Morto, de António-Pedro Vasconcelos — morreu em Paris aos 89 anos de idade.
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Morreu Carlos Saboga, personalidade marcante na história do cinema português das últimas seis décadas, em especial na área específica do argumento. A notícia foi confirmada pela Leopardo Filmes, do produtor Paulo Branco, com quem manteve uma longa colaboração profissional.

Nascido na Figueira da Foz, a 17 de dezembro de 1936, morreu na passada sexta-feira, em Paris — contava 89 anos. A sua partida para França, a salto, sem documentos, aconteceu em 1965, acompanhando uma equipa francesa que tinha vindo filmar a Portugal. Viveu também em Itália e na Argélia, acabando por se instalar definitivamente em Paris.

Quando participou como jurado no LEFFEST, uma nota biográfica apresentava-o como “seleccionado aqui e ali em diversos concursos e festivais de vária monta”, como tal “raramente recompensado” e “sem diplomas”. Era uma maneira irónica, mas assertiva, de definir o seu estatuto paradoxal: por um lado, uma figura relativamente ausente na exposição mediática do cinema português; por outro lado, um profissional da escrita que deixou as singularidades do seu estilo em momentos emblemáticos da história desse cinema.

Com uma actividade plural de assistente de realização, jornalista, crítico de cinema e tradutor, colaborou, em funções variadas, em títulos como La Jeune Morte, (1965) do francês Claude Faraldo, ou Il Sasso in Bocca (1969) do italiano Giuseppe Ferrara. A estreia na produção portuguesa deu-se como argumentista de O Lugar do Morto (1984), de António-Pedro Vasconcelos, cujo impacto público lhe conferiu uma dimensão mitológica partilhada por raros filmes da produção portuguesa.

Colaborou, entre outros, com Fernando Lopes (Matar Saudades, 1988), Jorge Paixão da Costa (Adeus Princesa, 1992), Leonel Vieira (Mustang, 2000) e em vários títulos de Mário Barroso (incluindo Um Amor de Perdição, 2008). Voltou a colaborar com António-Pedro Vasconcelos, nomeadamente no fresco histórico Aqui d’El-Rei! (1992), que também foi uma série de televisão. Entre as produções internacionais de Paulo Branco, o seu nome ficou ligado a Mistérios de Lisboa (2010) de Raul Ruiz, As Linhas de Wellington (2012) e O Caderno Negro (2018), ambos de Valeria Sarmiento.

Foi um realizador “tardio”, sobretudo tendo em conta que, como ele próprio referia, se tornou assistente de realização na expectativa de realizar os seus próprios filmes. A estreia na realização só aconteceria em 2012, com Photo, produção lusa-francesa cuja ambiência melodramática nasce do confronto de uma mulher com memórias da sua mãe ligadas a fotografias desconhecidas — no elenco, além de Simão Cayatte, Rui Morrisson e Ana Padrão, surgiam também a francesa Anna Mouglalis e a espanhola Marisa Paredes. Realizou ainda A uma Hora Incerta (2015), sobre a experiência de dois refugiados franceses, em Portugal, em 1942.

O derradeiro argumento de Carlos Saboga foi escrito para Memórias do Cárcere, também uma produção da Leopardo Filmes, baseada na obra homónima de Camilo Castelo Branco. Com Albano Jerónimo e Maria João Bastos nos papéis de Camilo e Ana Plácido, realizado por Sérgio Graciano, o filme tem estreia marcada para 24 de setembro de 2026.

Albano Jerónimo em Memórias do Cárcere (estreia marcada para setembro)
Albano Jerónimo em Memórias do Cárcere (estreia marcada para setembro)DR

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