A 25ª edição do MONSTRA - Festival de Animação de Lisboa, contou este ano com duas pessoas na direção artística e programação: Fernando Galrito e Miguel Pires de Matos. Fernando Galrito, fundador do MONSTRA, não pretende "jubilar-se", mas mostra-se satisfeito por ter quem assegure a continuidade deste projeto nascido há 26 anos. "O que eu gostaria muito, e estamos a trabalhar para isso, é que haja uma equipa que garanta que, mesmo que eu saia, o festival continua com a mesma qualidade. Esse trabalho é que é fundamental, as coisas não ficarem ligadas a uma pessoa, mas ficarem ligadas a um coletivo", diz Fernando Galrito ao DN.Ambos apresentaram esta quarta-feira, 18 de fevereiro, o programa da MONSTRA deste ano, que decorre de 12 a 22 de março, sob o mote "Natureza e Sustentabilidade", e que tem como país convidado a Letónia. No total serão exibidos 491 filmes de animação, 46 deles portugueses, no Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Cinema City Alvalade. Serão quase 150 sessões de cinema ao longo e 11 dias.A MONSTRA (e a MONSTRINHA), é uma festa de animação que atrai cada vez mais público (73.205 pessoas no ano passado) nas várias vertentes da sua programação, desde a exibição de filmes, exposições, workshops e masterclasses, mas é preciso não esquecer que é uma competição com oito categorias, uma delas nova este ano: as das médias-metragens, filmes entre 15 e 33 minutos. E isso porque, explica Miguel Pires de Matos, "os autores começaram a fazer filmes mais longos". .Para esta edição foram submetidos 3569 filmes de 104 países, "que deram muito trabalho à nossa equipa de seleção", diz Fernando Galrito. Foram escolhidos para competição 219 de 48 países, 21 deles portugueses. Desta seleção, 122 são estreias nacionais e dez estreias mundiais.O número de inscrições no festival tem vindo a crescer de ano para ano, mas nesta edição de 2026, o salto foi maior. "Eu diria que há à volta de 300, 400 filmes a mais do que no ano passado. A Inteligência Artificial (IA) tem alguma coisa a ver com isso", diz Miguel Pires de Matos."A inscrição é livre. Existem muitas pessoas que vão ao computador, dão uma instrução e sai um filme. Claro que os filmes que saem dessa forma não são muito interessantes. Mas há autores que começam a fazer isso. Temos autores que nos mandam 20 filmes feitos em Inteligência Artificial. E nós depois temos que fazer a seleção", acrescenta.O crescente número de inscrições considera o programador, também se explica pelo facto de haver "mais gente a fazer animação. Há mais pessoas ligadas à animação. Há muitos profissionais. Há muitos países que começam a ter uma animação mais forte. Também há muitas coproduções, nomeadamente com a França. A França é o país mais forte em termos de produções e coproduções na Europa".Há três filmes em competição "onde se sente mais marcadamente" a IA, dois deles na categoria de filmes portugueses, revela Miguel Pires de Matos ao DN. A MONSTRA não tem regras quanto à utilização de IA mas, sublinha, "aquilo que nós queremos é que se sinta a marca do autor. Ou seja, o autor utiliza a Inteligência Artificial como uma ferramenta e não como uma forma preguiçosa de fazer filmes. No fundo, a Inteligência Artificial é uma ferramenta poderosíssima. Mas há de continuar a depender da mente humana. Isso é o mais importante".E aponta para o filme Machinarium de João Pedro Oliveira, uma estreia absoluta no festival. "O João Pedro Oliveira enviou-nos um filme e vê-se que é feito com Inteligência Artificial, mas vendo o percurso dele todo para trás, sente-se que é um filme do João Pedro Oliveira. Não é uma autoria da Inteligência Artificial, é uma autoria dele. Só que ele utilizou a inteligência artificial como uma ferramenta. Tal como no passado houve a transição entre desenho feito à mão e desenho feito em computador. O desenho feito em computador não veio substituir a criatividade do autor. A inteligência artificial é mais poderosa em termos daquilo que consegue fazer. Já há muitas discussões filosóficas sobre até onde é que ela pode ir. Mas a nossa ideia é olharmos sempre para os filmes e percebemos qual é a intervenção do criador". .A presença portuguesa neste festival tem vindo a aumentar de ano para ano. "Desde o ano 2000 que tem vindo um número gradualmente crescente. Neste momento temos uma presença muito forte de filmes portugueses. Em 2024, Portugal foi o país convidado do Festival de Annecy. Isso é a demonstração da vitalidade e da força da animação portuguesa. Não só em número, mas sobretudo em qualidade. Porque a área da animação é uma das mais premiadas no nosso país internacionalmente".Nesta 25ª edição da MONSTRA há nove obras selecionadas para a Competição Portuguesa Vasco Granja. Além do já mencionado Machinarium, concorrem A Última Meia de Carolina Batista, Argumentos a Favor do Amor, de Gabriel Abrantes, Corça, de Maria Lima, Lembra de Mim, de Bárbara Barreto, Caroline Soares e João Cadima, Sombras de Nós Próprios, de Pedro Serrazina, Amarelo Banana, Alexandre Sousa, Cão Sozinho, de Marta Reis Andrade e Porque hoje é Sábado, de Alice Eça Guimarães.Muitos destes títulos portugueses estão também na competição de curtas (entre dois e 15 minutos), a par de One Way Cycle, de Alicia Nuñez Puerto, uma coprodução entre Portugal e Espanha."Desde o princípio, a animação portuguesa tem estado sempre na nossa programação com uma afirmação forte. Eu costumo dizer, se tenho dúvida entre um filme internacional e um filme português, se eles estão ao mesmo nível, naturalmente pensamos no filme português", diz Fernando Galrito, que realça a qualidade da animação portuguesa que tem "um leque de fãs um pouco pelo mundo inteiro". E, olhando para o futuro, "mais uma vez este ano", sublinha o diretor artístico da MONSTRA, "vamos ter a apresentação dos projetos que vêm aí para o próximo ano e para os anos seguintes." .Na competição internacional de longas metragens estão sete filmes, entre eles a A Pequena Amélie ou a Personagem da Chuva, de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, um filme que está nomeado para Óscares deste ano na categoria de Melhor Filme de Animação. É sobre uma menina belga nascida no Japão e será uma estreia em Portugal. Nesta categoria há ainda Decorado, de Alberto Vázquez, uma coprodução entre Espanha e a produtora portuguesa Sardinha em Lata, sobre Arnold, um rato de meia-idade que está a passar por uma crise existencial; ChaO, do japonês Yasuhiro Aoki, vencedor do Prémio do Júri no Festival de Annecy de 2025; Marcel e Monsieur Pagnol, de Sylvain Chomet; A Morte Não Existe, de Félix Dufour-Laperrière; Uma História Sobre Fogo, da chinesa Li Wenyu; e Contos do Jardim Encantado, de David Súkup e Patrik Pašš.Na competição de médias-metragens, a organização destaca A Rapariga Que Chorou Pérolas, de Chris Lavis e Maciek Szczerbowski, nomeada para Melhor Curta de Animação para os Óscares 2026 e os filmes A Filha da Água e KOSMOGONI", duas coproduções portuguesas.Letónia em FlowEste ano o MONSTRA homenageia a Letónia com a exibição de 70 filmes, a exposição 60 Anos de Animação de Marionetas da Letónia - Estúdio Animācijas Brigāde, no Museu da Marioneta, masterclasses de Anete Melece e Edmunds Jansons e de Vladimir Leschiov, e retrospetivas de Gints Zilbalodis, Vladimir Leschiov e Signe Baumane. ."Conhecemos todos o Flow, que foi um caso de sucesso mundial, feito pelo Gints Zilbalodis, e vamos para além dele ter retrospetivas de Vladimir Leschiov, ou seja, é um grande encontro com a animação da Letónia", diz Fernando Galrito.Vladimir Leschiov foi convidado a desenhar o cartaz desta 25ª edição, que tem um bacalhau, ou melhor, uma "bacalhoa" voadora vestida com um traje tradicional da Letónia. "O bacalhau é o elemento que nos liga", diz Fernando Galrito. .Mas Letónia não foi o país escolhido este ano por causa do filme Flow- À Deriva, que ganhou o Óscar de Melhor Filme de Animação no ano passado. "Tem a ver com o centenário da animação da Letónia. É um país que tem vindo também a evoluir, mas tem o Vladimir Leshchiov, que é o autor que fez a ilustração da Monstra. É um dos grandes nomes da animação da Letónia e já é muito conhecido internacionalmente. Existem uma série de autores muito bons na Letónia. E vamos ter a oportunidade de ver isso durante a MONSTRA", diz Miguel Pires de Matos. .Quem não viu o filme Flow terá agora uma oportunidade no âmbito da MONSTRINHA, com dois fins de semana de programação a pensar nas famílias. Será exibido também o filme Arco, de Ugo Bienvenu, que este ano é também nomeado para o Óscar de melhor longa-metragem de animação. . Na cerimónia de abertura do festival, no dia 12 de março, no Cinema São Jorge, além de curtas-metragens da Letónia, vai ser exibida em estreia mundial do filme Virgem Fandango, de Marcy Page e música de Normand Roger (compositor canadiano de bandas sonoras que já ganhou seis Óscares), que tem a particularidade de a animação ser feita com 12 mil azulejos pintados. E celebra-se os 90 anos de O Pedro e o Lobo, uma história contada através da música, composta por Serge Prokofiev em 1936, com a projeção do filme realizado em 2006 por Suzie Templeton, acompanhado de música interpretada ao vivo pela Orquestra de Sopros da Academia de Música de Santa Cecília. .Vasco Granja e estúdio que criou a 'Ovelha Choné' em destaque no festival de animação MONSTRA