Miles Davis: ser ou não ser cool, eis a questão

O documentário "Miles Davis: Birth of the Cool" convida-nos a percorrer a biografia de um dos génios do jazz e da música do século XX. Infelizmente, a gestão dos depoimentos e materiais de arquivo nem sempre é muito feliz.

Contar a história de Miles Davis (1926-1991) em menos de duas horas? Digamos que é quase o mesmo que tentar encenar uma aventura de Indiana Jones no interior de uma cabine telefónica... O filme Miles Davis: Birth of the Cool, de Stanley Nelson (disponível na Netflix), tenta resolver o problema da maneira mais académica ou, pelo menos, mais sóbria: cumprindo as tarefas tradicionais de um documentário biográfico em que o coro de testemunhos se vai cruzando com muitos documentos (filmes e fotos) das mais variadas origens.

E é um facto que aqui podemos encontrar depoimentos de muitas personalidades fascinantes, desde Francis Taylor, mulher e musa que figura na célebre capa do álbum Someday My Prince Will Come (1961), até Herbie Hancock, Wayne Shorter ou Ron Carter, apenas alguns dos músicos que trabalharam com Miles, com ele, e através dele, definindo a sua identidade artística.

Isto sem esquecer que, de facto, a realização teve à sua disposição uma imensa coleção de materiais de arquivo, desde fotos das sessões de gravação em estúdio até extratos de concertos, nomeadamente da fase final de Miles, de saúde muito frágil, mas continuando a produzir sons fantásticos.

Claro que há vários momentos em que as convulsões da vida de Miles, em particular as memórias de dependência de drogas, nos chegam através de tocantes emoções - nesse aspeto, a solução de dar a ouvir as suas palavras através da voz do ator Carl Lumbly acaba por funcionar como uma esclarecedora "narração". E há também luminosas observações de vários músicos em torno dos riscos experimentais de Miles, sobretudo quando, nos anos 70, desafiando convenções e preconceitos, mergulhou nos labirintos do funk e das eletrónicas. O problema maior de toda esta acumulação decorre do critério da sua própria organização... e, em última instância, da bizarra secundarização dos sons musicais.

Não deixa de ser desconcertante que um filme enraizado numa profunda reverência pelo génio de Miles acabe por tratar a sua obra como uma "música de fundo", raras vezes deixando escutar a riqueza e complexidade dos seus fraseados. Aliás, reproduzindo um típico vício de alguma informação televisiva, essa "aceleração" nem sequer respeita a densidade dos depoimentos recolhidos, quase sempre apresentando-os através de fragmentos de breves segundos que desvirtuam as suas próprias linhas de argumentação.

Até pela abundância dos documentos recolhidos, fica a sensação de que se perdeu uma oportunidade de fazer algo mais do que um "resumo acelerado" da vida de uma figura monumental do jazz e, mais do que isso, de um dos maiores músicos do século XX. Num certo sentido, os equívocos começam no próprio título Miles Davis: Birth of the Cool. Por uma razão histórica muito transparente: o álbum Birth of the Cool (1957) é, por certo, um momento fulcral na evolução do som do trompete de Miles, mas está longe de poder resumir a pluralidade interna da sua obra... E, já agora, os seus modos de ser "cool"...

Um dos momentos de exceção, em que experimentamos o genuíno poder de revelação que o cinema pode envolver, possui uma dimensão saborosamente cinéfila: nele se evoca (e escuta) o modo como Miles improvisou a banda sonora do filme Fim de Semana no Ascensor (1958), de Louis Malle. Como? Seguindo "apenas" a caminhada solitária de Jeanne Moreau pelas ruas de Paris...

* * Com interesse

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