Miguel Ângelo: "A música tornou o confinamento menos miserável"

O cantor regressou aos discos com Noite e Dia, um álbum composto durante o confinamento e que retrata os diferentes estados de espírito vividos por todos durante esse período.

Quando a pandemia surgiu, no início do ano passado, Miguel Ângelo estava a iniciar a digressão de NOVA (pop), o álbum que havia lançado pouco meses antes, no final de 2019 e iria então iniciar o habitual percurso nos palcos. Porém, a realidade, e tal como aconteceu como tantos outros artistas, atirou-o para "uma espécie de limbo".

Agora, passados quase dois anos, o músico e cantor está de regresso com o novo Noite e Dia, um trabalho composto por dois momentos distintos, representativos dos estados de espírito vividos durante os diferentes períodos de confinamento, quando estas músicas foram compostas. O lado Noite apresenta uma abordagem mais pessoal, eletrónica e experimental, criada apenas com "as ferramentas digitais acessíveis num computador portátil" e recurso à spoken word, que pretende ser como "uma banda sonora desses dias de solitária e de futuro incerto".

Já o lado Dia resulta dos primeiros ensaios coletivos com a banda, já em 2020, num lampejo de regresso à normalidade e portanto mais centrado nos "futuros palcos" e no género pop-rock que, desde os tempos dos Delfins, sempre caracterizou a carreira de Miguel Ângelo. O álbum, que contou com a participação de Rui Maia (também co-produtor), Pedro de Troia e Co$tanza, terá uma primeira apresentação ao vivo no dia 30 de Novembro, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

Podemos afirmar dizer que Noite e Dia é a sua de visão artística do confinamento, na qual estão espelhados os diferentes estados de alma que nos assolaram durante esse período?

Sim, é um pouco isso. Aliás tem havido alguns discos desse género a serem editados ultimamente, como os do Paul McCartney ou do Elton John, muito embora o meu objetivo inicial, quando comecei a compor os primeiros esboços, fosse bem mais prosaico. No fundo queria apenas arranjar algo para fazer e tornar tudo aquilo um bocadinho menos miserável e monótono. E de facto ajudou.

O álbum tem duas partes claramente distintas, uma mais pessoal e experimental e outra mais pop-rock, já com a participação da banda?

Sim, porque o próprio confinamento teve dois momentos. O primeiro teve um lado de novidade e de certa forma havia um horizonte de esperança que, depois, acabou por não se concretizar e tornou o segundo um pouco mais negro. Curiosamente eu mergulhei mais nessas trevas durante o primeiro e aproveitei para fazer uma quase ficção, numa vertente mais experimental e eletrónica, que mais tarde, quando comecei a trabalhar à distância com o Rui Maia, acabou por resultar no lado Noite. Já o lado Dia, só começa a tomar forma durante os primeiros ensaios com a banda.

O tal tão ansiado regresso à normalidade...

Sim, porque quando a pandemia começou eu tinha um disco acabado de sair, que ficou numa espécie de limbo, porque nunca foi tocado ao vivo e as canções não evoluíram. No fundo foi também com essa perceção de que as coisas não iam voltar tão depressa ao normal que comecei a fazer os tais temas mais a solo, mais eletrónicos, de modo a poder eventualmente apresentá-los ao vivo em auditórios mais pequenos, com as pessoas todas sentadas. Na altura ainda não pensava em fazer um disco, mas quando o lado Dia começou a surgir, achei que podia ser uma boa ideia lançar tudo num único álbum, com dois lados completamente diferentes um do outro, como o David Bowie fez em discos como o Heroes ou o Low. Na edição em vinil diz apenas Noite e Dia, em cada um dos lados.

Há aliás uma piscadela de olho a David Bowie no clipe do single Déjà Vu, no qual recorda alguns vídeos históricos da história da pop-rock, também com referências aos Beatles, aos Duran Duran, a Bob Dylan e até aos nossos Mão Morta.

Sim, foi um assumir disso mesmo, desse tempo dourado dos vídeos de música, que nos faziam ficar especados em frente à TV. A própria pop também não é mais que um constante assumir de influências e descobertas e foi isso que eu prentendi fazer nesse vídeo.

Vai ter o primeiro concerto de apresentação de Noite e Dia no dia 30 de novembro, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, num registo mais próximo do antigo normal, o que também representa um desafio para os temas mais intimistas, concorda?

Vai ser um desafio também porque não vamos tocar êxitos antigos, mas apenas o novo álbum. Vamos ter alguns momentos mais cénicos e teatrais, mas o mais interessante tem sido o modo como, nos ensaios, a banda se integrou nesses temas mais eletrónicos. Vou contar com todos os convidados que participaram no disco, o Rui Maia, o Pedro de Troia e o Co$tanza, e estou certo que vai ser um momento muito especial para todos, devido a esse regresso a uma certa normalidade. Tive alguns concertos com a Resistência este ano e num deles pudemos ter o público em pé, como antigamente, e foi muito emocionante.

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