Falecido no dia 11 de junho, em Londres (contava 88 anos), David Hockney simboliza, como poucos, uma pintura enraizada num fascinante paradoxo estético e filosófico. Assim, ao longo de mais de seis décadas de trabalho regular, a sua pintura nasceu de muitas e variadas formas de experimentação; ao mesmo tempo, semelhante vocação nunca o fez desistir de modos de figuração (pessoas, animais, paisagens, etc.) que nunca se “diluíram” em qualquer registo abstracto. Mais do que isso, os contrastes da sua obra são indissociáveis de um gosto, ágil e ousado, disponível para as mais variadas técnicas de trabalho. Certamente não por acaso, o seu labor pictórico foi-se cruzando com surpreendentes derivações, da fotografia até à criação de cenários teatrais.Na impossibilidade de “resumir” tudo isso através de um pequeno conjunto de referências, aqui ficam, de qualquer modo, sete dos seus trabalhos - são testemunhos de uma arte complexa e bem humorada. 1 – MR. AND MRS. CLARK AND PERCY (1971)Eis aquele que é, seguramente, um dos mais célebres quadros de Hockney. Rezam as crónicas que resultou de um laborioso e demorado trabalho (mais de um ano). O retrato do casal Ossie Clark/Celia Birtwell (ambos designers, ele de moda, ela de têxtil) possui uma imediata sedução realista que acaba por ser “contrariada” pela austeridade das cores e a frieza geométrica da composição..2 – PORTRAIT OF AN ARTIST – POOL WITH TWO FIGURES (1972)Este “retrato de um artista” com “duas figuras” (assim informa o título) nasceu, de facto, da proximidade de duas fotografias que Hockney descobriu perdidas no seu estúdio: um homem aparentemente pensativo e uma figura a nadar debaixo de água. O lugar-comum do “pintor de piscinas” nada nos diz sobre a pluralidade da sua obra, mas é verdade que, na década de 1970, piscinas não faltam..3 – CELIA, LOS ANGELES (1982)Em poucos meses, ao longo do ano de 1982, Hockney produziu cerca de 150 trabalhos resultantes da montagem de fotografias Polaroid. Na sua respiração cubista, assistimos a uma festiva fragmentação figurativa (que também marcou a sua pintura). A exposição desta série de imagens, ainda em 1982, em Nova Iorque, teve um título esclarecedor: “Desenhando com uma câmara”..4 – Stanley e Boodgie (1993-95)Na década de 1990, Stanley e Boodgie, os dois “daschund” de Hockney ocupam um lugar central na sua vida — e também na sua obra, através dos muitos desenhos e pinturas em que surgem entre 1993 e 1995 (editados num álbum de 2011). Como ele dizia, posavam sem drama, com grande disponibilidade, apenas pedindo “amor e comida (não necessariamente por esta ordem)”..5 – A CLOSER GRAND CANYON (1998)Porquê um Grand Canyon “mais próximo” (“closer”)? Porque Hockney fez este quadro (de uma série de paisagens) a partir de uma semana de visitas ao local, sentindo que, assim, se sentia “mais próximo” daquele prodígio natural. São, efectivamente, 60 pequenos quadros montados num rectângulo que faz lembrar a largura do CinemaScope — dimensões aproximadas: 2 x 7,5 metros.. 6 – AFRICAN VIOLET, MAYFLOWER HOTEL, NEW YORK (2002)Inspirado por uma exposição de aguarelas chinesas (em Nova Iorque, no Met), Hockney sente-se tentado a uma redescoberta de uma técnica “antiga”, inclusive no seu trajecto pessoal. O resultado permite-lhe reencontrar uma fluidez de formas e cores que correspondem ao que diz ter aprendido com a arte da China. Ou seja, uma fusão de “mãos, olhos e coração”.. 7 – UNTITLED Nº 7 / “THE YOSEMITE SUITE” (2012)Depois da descoberta do iPhone como instrumento de pintura, Hockney vai mais longe, adquirindo um iPad que o fascina pela “ligeireza” com que pode trabalhar cores e formas. Tudo isso acontece em paralelo com várias visitas ao Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia. Dito de outro modo: para ele, como sempre, a vanguarda tecnológica combina bem com a sedução das formas naturais.