Meia centena de museus e monumentos danificados em 20 concelhos do país. Rede de teatros também afetada
Danos nas coberturas, em pavimentos e instalações elétricas, inundações e derrocadas são as consequências mais recorrentes da tempestade Kristin em monumentos e museus de perto de 20 concelhos do país, revelou ontem, 4 de fevereiro, à agência Lusa fonte do Ministério da Cultura.
A "destruição total" da Charolinha da Mata dos Sete Montes, junto ao Convento de Cristo, em Tomar, e de complexos arqueológicos do Forte Novo, em Loulé, estão entre os casos mais severos dos 45 sinalizados em museus, monumentos, sítios ou igrejas nos concelhos de Aveiro, Coimbra, Condeixa-a-Nova, Estremoz, Figueira da Foz, Leiria, Lisboa, Loulé, Montalvão, Nisa, Penela, Pombal, Santa Comba Dão, Tomar, Torres Novas, Ansião, Alvaiázere e Ferreira do Zêzere.
Os dados estão incluídos no balanço do impacto do temporal que afetou o país, realizado pelo Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, com base em relatórios provisórios do Património Cultural – Instituto Público (PC-IP) e da empresa pública Museus e Monumentos de Portugal (MMP), que mantêm equipas no terreno para manterem atualizado o levantamento de danos provocados pela tempestade e pela precipitação que desde então se seguiu.
As obras de recuperação deverão exigir um investimento de cerca de 20 milhões de euros, segundo a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, em declarações feitas na terça-feira, durante uma visita a zonas afetadas da Região Centro.
De acordo com o relatório da MMP sobre o impacto da tempestade Kristin, monumentos como o Mosteiro da Batalha e o Mosteiro de Alcobaça, ambos Património Mundial da Humanidade, vão necessitar de obras de recuperação de coberturas, reparação e restauro de cantarias danificadas, verificação de instalações elétricas e inclusão de gerador de emergência, corte e remoção de árvores e limpeza geral.
Em Alcobaça é também necessário o restauro de um vitral. O mesmo acontece com o Convento de Cristo, em Tomar – outro monumento classificado como Património Mundial –, que terá de ser alvo da reparação e restauro de pináculos e gárgulas, assim de coberturas com substituição de telhas e verificação de rufos.
Com a mesma classificação patrimonial, o Palácio Nacional de Mafra necessita da reparação de coberturas, substituição de vãos cujas madeiras não resistiram ao mau tempo, reparação de redes de tubagens pluviais e de descarga e dos pavimentos em madeira.
O Museu Nacional de Conímbriga apresenta uma das mais extensas listas de intervenções necessárias, entre a remoção do telhado de fibrocimento (amianto), quebrado pela queda de uma árvore, a demolição da infraestrutura da Oficina de Mosaicos (cujo conteúdo será removido e preservado em tenda industrial) e sua construção; a reparação da cobertura da Casa dos Repuxos, de contentores de ruínas e o restauro de coberturas de zonas escavadas que ficaram inundadas, além da reparação de exteriores, do piso de estacionamento e do corte de árvores.
O Museu Nacional Machado Castro, em Coimbra, necessita de revisão e fixação mecânica de todas as chapas da forra do imóvel, substituição de vidros partidos de claraboias, a par da reparação de coberturas. O Museu de Cerâmica - Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, também precisa de coberturas, do abate, corte e limpeza de árvores caídas e do seu transporte.
Quanto ao relatório provisório de danos da tempestade Kristin, realizado pelo Património Cultural, inclui, em Coimbra, a Sé Nova, com danos nas coberturas, a Sé Velha, no lanternim e nas coberturas, assim como a Igreja de São Bartolomeu, a Igreja de Santa Justa, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, o Jardim Botânico e o Museu da Ciência, da Universidade, além do Colégio das Artes, que apresenta “inundações profundas”.
Em Pombal, a Igreja Nova de Vermoil sofreu “danos severos”, a Igreja Velha de Vermoil, “danos críticos”, a sede da Sociedade Filarmónica Vermoilense, “danos graves”, e também ficaram danificadas as igrejas da Guia e de Santo Amaro.
Em Tomar, a Charolinha da Mata dos Sete Montes exige reconstrução total. Na terça-feira, a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, revelou que partes do monumento caíram à água sendo necessária a drenagem para recuperação das peças, estimando-se um ano de obras e um investimento de pelo menos 750 mil euros. No concelho foram ainda afetadas as igrejas de Além da Ribeira, Alviobeira e de Casais.
O Forte Novo, em Loulé, teve destruição de complexos arqueológicos, enquanto a Igreja Paroquial de Óvoa, em Santa Comba Dão, sofreu “danos estruturais severos”, indica ainda o relatório provisório do Património Cultural.
Entre o património afetado encontram-se ainda a Igreja da Misericórdia de Aveiro, a Igreja Paroquial do Sebal Grande e as vilas romanas do Rabaçal e de São Simão, em Condeixa-a-Nova; as Muralhas do Castelo de Estremoz, onde se verificou a derrocada de pano de muralha; o Castelo de São Jorge, em Lisboa, pela queda de árvores; a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios de Montalvão, a Igreja de Nossa Senhora da Graça de Nisa, o Convento de Santo António e a Igreja de São Miguel, em Penela, assim como a Igreja Matriz de Assentiz, em Torres Novas. Ficaram também danificadas igrejas de Ansião, Alvaiázere e Ferreira do Zêzere.
Na Figueira da Foz, estão sinalizados o Paço de Maiorca, a Casa do Paço, a Igreja Paroquial de Brenha, o Mosteiro de Seiça e a Capela da Leirosa, na Marinha das Ondas.
Em Leiria, além do Castelo, onde houve derrocada de panos e destruição de elementos pétreos, estão também sinalizados o Solar dos Viscondes e as igrejas de Azoia, Barosa, São Francisco, de Pousos e do Santuário de Nossa Senhora da Encarnação.
Em termos de acesso público, na esfera da MMP, devido aos efeitos do mau tempo, continuam encerrados o Mosteiro da Batalha, o Convento de Cristo e o Museu de Conímbriga, além do Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, porque se situa dentro do Parque D. Carlos I, que a autarquia encerrou ao público.
No âmbito do Património Cultural, todos os equipamentos afetos estão abertos, à exceção do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha que já se encontrava encerrado por causa das obras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), indicou fonte oficial.
Teatros e cineteatros foram afetados
Pelo menos 12 equipamentos da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP), em particular da região centro, foram afetados pelo mau tempo da última semana, segundo o Ministério da Cultura.
Num balanço sobre o impacto do temporal nos espaços culturais da RTCP, o Ministério da Cultura dá conta de danos e programação suspensa no Teatro José Lúcio da Silva e no Teatro Miguel Franco, ambos em Leiria, e no Teatro Stephens, na Marinha Grande, também naquele distrito.
Nos teatros de Leiria, foram identificadas infiltrações e danos estruturais em vidros, ar condicionado, enquanto no teatro da Marinha Grande há vidros partidos, infiltrações e “parte da cobertura da caixa de palco está inutilizada”.
Ainda na região centro, há informações de entrada de água e infiltrações no Teatro Académico Gil Vicente (Coimbra), assim como no Teatro Cine de Gouveia (Guarda), em funcionamento, que apresenta infiltrações na entrada e no palco, com "Serviços Municipais a tomar as devidas diligências".
No Cine-Teatro de Estarreja (Aveiro), registaram-se danos no gerador e também em espaços como palco, corredores e cobertura.
Na região norte, o Centro Cultural de Paredes de Coura (Viana do Castelo) está a funcionar, embora tenha “infiltrações e questões estruturais”.
Na península de Setúbal, o Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada), tem infiltrações e também se registam “questões estruturais”, mas o equipamento está em funcionamento. O Teatro Luísa Todi não tem energia elétrica e pondera-se o cancelamento de atividades.
No Alentejo, o Teatro Garcia de Resende (Évora) teve telhas levantadas e “infiltrações no subpalco” e no Centro de Artes e Espetáculos de Portalegre ocorreram “infiltrações estruturais”.
Há ainda os casos da Casa da Cultura de Ílhavo (Aveiro), onde foram afetados os painéis de comunicação, e do Teatro Lethes (Faro) que integra a RTCP e que, não tendo sido afetado por este temporal, está encerrado desde novembro por infiltrações no palco.
A RTCP foi criada em 2019 para combater assimetrias regionais no acesso à cultura e conta atualmente com 103 equipamentos culturais.

