Faltam poucas semanas para que Liza Minnelli celebre o seu 80º aniversário - filha de dois monstros sagrados de Hollywood, Judy Garland e Vincente Minnelli, nasceu em Los Angeles no dia 12 de março de 1946. Dir-se-ia que o documentário realizado por Bruce David Klein, Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História, concluído em 2024 e agora lançado nas salas portuguesas (mais tarde estará disponível na plataforma Zero em Comportamento), corresponde a uma espécie de autorretrato de alguém que quis acertar contas com as memórias de uma vida marcada por muitas atribulações, embora sempre vivida sob os holofotes da fama e do sucesso.Em boa verdade, tudo terá acontecido de modo menos premeditado. Como Klein explica numa entrevista disponível no dossier de imprensa do filme, tanto ele como o seu produtor, Alex Goldstein, não sabiam muito bem como abordar alguém que admiravam, mas que, para todos os efeitos, se tinha afastado da cena artística. Uma breve aparição, na sua própria personagem, em O Sexo e a Cidade 2 (2010), era, afinal, o sinal de uma carreira cinematográfica que estava fechada, encontrando apenas algumas “derivações” no espaço televisivo, nomeadamente na série Arrested Development (2003-2013). Também no domínio musical, o último álbum de Liza, Confessions, surgira em 2010, e parecia corresponder a um balanço muito pessoal, sobretudo de temas de autores (Sammy Chan, Irving Berlin, Jerome Kern, etc.) que tinham pontuado toda o seu trabalho como cantora. .O documentário acabou por ser organizado a partir de um acontecimento inesperado, aliás revelado a Klein e Goldstein por elementos da equipa de Liza. Num processo de investigação dos seus próprios arquivos, ela tinha deparado com um volume inesperado (25 horas) de imagens filmadas durante a sua épica digressão europeia na década de 1970. Eram, em grande parte, registos totalmente inéditos dos bastidores, mas não exatamente com a lógica de um making of à maneira do cinema. Dos tempos de ensaio até momentos anódinos, mais ou menos intimistas (conversas em limusinas, Liza a lavar o cabelo, etc.), podiam ser, como foram, a base para uma aproximação original de uma figura popularizada e mitificada pela personagem de Sally Bowles no filme Cabaret, realizado em 1972 por Bob Fosse.Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História possui a estrutura tradicional deste tipo de abordagens documentais. Tudo começa com uma entrevista pessoal cuja montagem vai acolhendo muitos depoimentos de pessoas ligadas ao seu trajeto de vida (pessoal e profissional). Isto sem esquecer uma quantidade imensa, por vezes fascinante, de documentos de arquivo - por exemplo, as presenças em palco com Charles Aznavour - que, com frequência, conservam as marcas de uma genuína privacidade. . O que torna o filme de Klein menos convencional, também menos previsível, é o facto de não estar concebido como uma espécie de resumo da sua filmografia e discografia. Estamos perante a saga de alguém que, dos momentos mais difíceis de relação com a mãe até à superação da sua dependência de álcool e drogas, se reconhece como uma mulher que, por assim dizer, se descobriu coagida a inventar a sua própria personagem - sem deixar de ser fiel à sua verdade mais íntima.“Fábrica de sonhos”Com saborosa ironia, Klein abre o documentário, não exatamente com a entrevista, mas aproveitando os momentos que precederam o seu primeiro registo. Assim, vemos Liza a dar instruções, bem dispostas mas veementes, sobre a colocação das câmaras que a vão filmar, a incidência da luz sobre o seu rosto e até a reconhecer que o seu nariz ainda necessita de um retoque de maquilhagem... Será, por certo, uma atitude herdada da mãe, uma das mais lendárias stars da idade de ouro de Hollywood, mas convém não esquecer que o pai, Vincente Minnelli, foi um mestre desse período, com uma filmografia em que podemos encontrar clássicos absolutos como Não Há como a Nossa Casa (1944), com Judy Garland, Um Americano em Paris (1951) ou Deus Sabe Quanto Amei (1958). Como Liza proclama para os elementos da equipa de filmagens de Klein que se afadigam à sua volta: “Posso ser filha da minha mãe, mas tenho muito do meu pai.” . Daí que o labirinto biográfico de Liza surja pontuado por duas componentes fundamentais. Uma ligada ao esplendor da “fábrica de sonhos”: desde criança, viveu no mundo da indústria do entertainment e, como ela própria reconhece, até porque se considera uma boa observadora, isso funcionou como uma fundamental escola de vida; a outra decorrente da morte da mãe em 1969, contava 47 anos, devido a uma overdose de barbitúricos. Esta herança inevitavelmente trágica gerou uma tensão incontornável entre ser apenas a herdeira passiva da mãe ou tentar encontrar a sua própria voz (tanto em termos técnicos como no plano simbólico).Ken sinaliza as etapas do crescimento e afirmação de Liza dividindo o documentário em capítulos com títulos sugestivos, retirados de frases da sua entrevistada ou daqueles que prestam o seu testemunho. Por exemplo, o capítulo de abertura chama-se “Não te dês com pessoas de quem não gostes”; mais à frente, teremos “Dá importância ao que consideras que é bom... O que não gostares, muda-o”. Entre os depoimentos, fará sentido destacar as palavras do cantor e pianista Michael Feinstein, antes do mais por causa da sua colaboração musical, e de Mia Farrow, seguramente uma das amigas mais próximas de Liza. .A performance “oscarizada” de Liza em Cabaret, evocando os tempos finais da República de Weimar e os primeiros sinais da ameaça nazi, num registo marcado pela herança do musical, surge com natural destaque. É uma interpretação que possui esse misto de exuberância espetacular e intensidade dramática que caracteriza a sua trajetória artística e também, num certo sentido, como alguém sugere, os altos e baixos da sua vida privada. Há ainda um segmento importante dedicado a New York, New York (1977) o filme de Martin Scorsese em que contracena com Robert De Niro, afinal um objeto cujas singularidades - entre o musical e a evocação histórica do final da Segunda Guerra Mundial - nem sempre terão sido devidamente reconhecidas. . Minnelli & MinnelliDe fora, ou quase, ficam referências importantes do seu trabalho em cinema antes de Cabaret. Aí poderíamos encontrar, por exemplo, o delicado intimismo de Charlie Bubbles - Um Homem e a sua História (1968) em que contracena com Albert Finney, também realizador, ou os contrastes emocionais de The Sterile Cuckoo (1969), de Alan J. Pakula. Já depois de Cabaret, encontramos A Matter of Time/Nina (1976), realização final do próprio Vincente Minnelli que, mesmo através das suas óbvias limitações, possui qualquer coisa de conversa privada entre pai e filha.. As imagens especialmente exuberantes de Liza em palco ou em diversos programas de televisão acabam por nos ajudar a perceber que, em vários momentos da sua evolução, as canções foram mais decisivas do que o trabalho em cinema. Aliás, talvez se possa considerar que a sua notável composição em Cabaret integra esse desencanto cruel, embora eminentemente criativo, de alguém que, mesmo através das glórias acumuladas, tem vivido sempre a sua arte como um interminável desafio identitário. E somos levados a recordar alguns versos emblemáticos cantados por Sally Bowles: “De que vale ficares sozinho no teu quarto / Vem ouvir a música / A vida é um cabaret, meu velho amigo.” Soa muito bem, mas não devemos acreditar em tudo o que os filmes nos dizem.