Diogo Presuntinho impõe o ritmo  aos alunos da sétima classe de formação do Patú Samba.
Diogo Presuntinho impõe o ritmo aos alunos da sétima classe de formação do Patú Samba. Foto: Reinaldo Rodrigues

#LisboaEscuta. Marvila tem Samba

Na primeira reportagem do #LisboaEscuta descobrimos em Marvila uma comunidade crescente em torno da maior roda de samba da Europa: o Patú Samba.
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A azáfama no salão do Clube Oriental de Lisboa antevê a pequena revolução que vai transformar a velha sala no coração de Marvila. Pandeiros, tamborins e reco-recos vão saindo de uma pequena sala, enquanto meia dúzia de voluntários dispõe cadeiras em círculo. Poucos minutos depois, começam a chegar os alunos da sétima formação do Patú Samba. Nesta que é a maior roda de samba da Europa, o português funde-se com outras línguas, como o inglês ou o francês, surgindo uma espécie de mistura fonética que acolhe os que vão chegando. Abraços e sorrisos marcam o tom da noite e os muitos reencontros compensam o frio que até há pouco reinava no espaço.

No centro desta tempestade de instrumentos, cadeiras e pessoas está Diogo Oliveira, um músico brasileiro que vive em Lisboa há dois anos e meio. Embora seja um percussionista reconhecido na cena musical, por aqui ninguém o conhece por este nome; aqui é o Diogo Presuntinho, uma alcunha que ganhou quando era jovem praticante de capoeira e que acabou por ficar colada a este mineiro de 43 anos. Estamos numa oficina de formação de roda de samba, uma ideia que Diogo trouxe do Brasil e implementou após perceber que, apesar de Lisboa albergar a maior comunidade brasileira na Europa, não havia nenhuma oferta do género.

O samba de roda é uma forma de encontro comunitário em torno da música. Tem origem na tradição africana e terá nascido numa região do estado da Bahia. Esta forma de reunião musical foi o primeiro género musical brasileiro a ser distinguido como Património Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2005. Em Lisboa, o Patú Samba começou com vinte alunos, quase todos eles brasileiros, que procuravam matar saudades de casa. Hoje em dia, é bastante diferente, como nos esclarece Diogo, muitos dos alunos são atualmente pessoas vindas “fora da bolha” dos amigos ou só porque iam a passar aqui à porta e queriam experimentar esta música que também tem um pouco de português, como faz questão de nos explicar: “O samba tem as suas raízes e, onde quer que esteja, vai-se adaptando, mas sem perder a sua essência”. Para este mestre do samba, esta música “tem uma influência portuguesa, através do cavaquinho, mas é essencialmente de raiz africana, dos terreiros de candomblé, e acabamos por a absorver à nossa maneira”. O mestre explica que existem alguns músicos portugueses que já tocam samba de forma profissional e que conseguem um som de samba muito bom, e que esta mistura pode estar a criar algo maior que absorve um pouco da vivência da cidade.

Inês Eisele, lisboeta, fascinada pela percussão.
Inês Eisele, lisboeta, fascinada pela percussão. Foto: Reinaldo Rodrigues

Dos quase 150 músicos que compõem a roda, além da maioria de imigrantes brasileiros a residir em Lisboa, existem pessoas de 19 nacionalidades distintas, incluindo escoceses, eslovacos, franceses e, claro, portugueses, como a Inês Eisele. Esta lisboeta, fascinada pela percussão, experimentou primeiro o cajón flamenco, um instrumento de percussão em forma de caixa de madeira, mas acabou por se encantar pela roda de samba. A diferença, para Inês, é o “sentimento de pertença e o acolhimento”. Em pouco tempo, sentimos que somos uma família e que fazemos parte da família Patú, esta sensação, a forma como somos acolhidos e recebidos, é especial”. Lisanne Lanon, belga a residir em Lisboa há mais de quatro anos, descobriu o samba quando chegou à capital portuguesa: “Estava a passear no Cais do Sodré e ouvi uma roda de samba a tocar e apaixonei-me. Para mim, Lisboa é samba também e isso é giro”.

Melina Lopes música formada no Patú Samba.
Melina Lopes música formada no Patú Samba.Foto: Reinaldo Rodrigues

Para Melina Lopes, que reside em Lisboa desde outubro passado, foi a primeira aula em que participou. Apesar de considerar que a música é uma forma de “se conectar a uma certa energia brasileira”, acha positiva a presença de pessoas de nacionalidades distintas. Fã de reggae, natural de Belém do Pará e filha de mãe portuguesa, entende a roda de samba como uma “forma de comunicação universal” que facilita a interação entre todos, independentemente de saberem bem português ou não.

Lisane Lannon, apaixonada por Lisboa  e pelo Samba.
Lisane Lannon, apaixonada por Lisboa e pelo Samba. Foto: Reinaldo Rodrigues

Assistir a uma aula de Roda de Samba com Diogo Presuntinho é uma experiência imersiva intensa, na qual o músico, durante duas horas, toca e explica - em português e num inglês bem-disposto -, a fim de incutir nos cinquenta alunos presentes uma sensação de ritmo uníssono. Ao mesmo tempo, faz uma introdução ao instrumento que cada um deles escolheu. De facto, no final desta segunda aula, este conjunto de percussão de principiantes consegue produzir ritmos e interpretar uma canção, com a ajuda da voz de Camila Rondon (companheira de Diogo), do cavaquinho e voz de Higor Sartori, que acrescentam densidade à melodia. Para quem assiste de fora, o espanto é visível no rosto destes recém-músicos. “Esta é uma segunda aula, mas é um local de terapia. As pessoas chegam aqui, pessoas que nunca tocaram nada na vida, e ensinamo-las a tocar um instrumento e a conviver”, explica Diogo.

O Carnaval  da Fábrica  de Braço de Prata foi pequeno para acolher tantos espetadores.
O Carnaval da Fábrica de Braço de Prata foi pequeno para acolher tantos espetadores. Foto: Reinaldo Rodrigues

Na terça-feira de Carnaval, assistimos à apresentação da sexta classe que se formou há cerca de um mês. Muitos dos novos músicos que conhecemos estavam a assistir no espaço da tenda na Fábrica de Braço de Prata, a escassos metros do local de ensaio em Marvila. Durante mais de três horas, sob a batuta de Presuntinho, foram desfilando canções, muitas delas clássicos do samba e da música popular brasileira, perante uma audiência heterogénea, de todas as idades e nacionalidades, que dançava e cantava muitas das músicas em uníssono, com uma variedade de sotaques que enriquece a própria música e o sentido de comunhão. Como nos explica Diogo, “as oficinas do Patú não se centram em tocar um instrumento, mas sim na comunidade, na ajuda e no apoio”. “Com o passar do tempo, essas pessoas vão fazendo amizades e acabam por se sentir mais em casa, tornando-se um refúgio para todos”, prossegue. Um refúgio e um divertido caos linguístico que enche esta zona oriental de Lisboa.

As reportagens #LisboaEscuta foram realizadas no âmbito do Programa Lisboa, Cultura e Media da Egeac

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