Laetitia Casta envolta num quadrilátero amoroso

Na sua segunda longa-metragem como realizador, Um Homem Fiel, Louis Garrel afirma-se como um delicado observador dos desejos humanos; além do próprio Garrel, o elenco inclui os nomes de Laetitia Casta e Lily-Rose Depp.

Seja qual for o seu conhecimento do imenso, contrastado e fascinante património do cinema francês, o leitor conhece o lugar-comum: os franceses seriam especialistas em histórias ligeiras, sentimentais, tendencialmente fúteis, sobre as relações amorosas... Convenhamos que Um Homem Fiel, o novo filme de Louis Garrel, na dupla condição de ator/realizador, se pode prestar ao reforço desse lugar-comum.

Estamos, de facto, perante uma trama minimalista, desconcertante e, em boa verdade, atraindo algum absurdo. Este é o retrato íntimo de um triângulo bizarro, aliás, exemplarmente caracterizado na sinopse oficial do filme: Marianne (Laetitia Casta) deixa o jornalista Abel (Louis Garrel), por Paul o melhor amigo deste, de quem está grávida. Oito anos mais tarde, Paul morre e Abel e Marianne voltam um para o outro. Contudo, esta nova relação vai desencadear ciúmes tanto no filho de Marianne, Joseph, como na irmã mais nova de Paul, Ève (Lily-Rose Depp), a qual tem, desde jovem, uma paixão secreta por Abel.

Que acontece, então? Pois bem, vale a pena não ficarmos pela preguiça das aparências. Importará dizer que o triângulo "amoroso" se vai transfigurando, de facto, num quadrilátero, já que o papel do misterioso e, em alguns aspetos, inquietante Joseph (Joseph Engel) está longe de ser secundário. Sugerindo a Abel que a sua mãe matou Paul, ele vai-se insinuando nas relações entre os adultos como um desconcertante corretor de emoções.

A partir daqui o lugar-comum deixa de funcionar. Na verdade, neste seu segundo trabalho como realizador (assinara Os Dois Amigos, em 2015), Garrel apresenta-se como legítimo, e muito talentoso, herdeiro de uma tradição romanesca (romântica, ma non troppo) apostada em iluminar os movimentos mais misteriosos dos desejos humanos - desejos sexuais, sem dúvida, mas sobretudo desejos de comunicação de uma intimidade com outra intimidade.

Há em Um Homem Fiel uma ambiência peculiar em que os sinais realistas do quotidiano parecem atrair efeitos de sinal contrário, surreais e oníricos. Podemos até sugerir que tal ambiência não será estranha à participação de Jean-Claude Carrière na escrita do argumento, ele que foi fundamental colaborador de alguns títulos de Luis Buñuel (1900-1983), incluindo o prodigioso Belle de Jour (1967), precisamente marcados por esse ziguezague entre o vivido e o sonhado.

Ainda assim, se há modelo francês que podemos evocar a propósito de Um Homem Fiel, creio que o encontramos na obra de Eric Rohmer (1920-2010), autor de filmes como A Minha Noite em Casa de Maud (1969) ou O Raio Verde (1986), em que as relações entre as personagens se vão moldando através de cumplicidades e ruturas que passam sempre pela sedutora vibração das palavras.

Nessa medida, tudo passa também pela qualidade das interpretações, do próprio Garrel, muito para lá de qualquer vedetismo fácil, e também das protagonistas femininas: Laetitia Casta, símbolo de uma fotogenia eminentemente francesa e presença de inusitada subtileza emocional, e Lily-Rose Depp, filha de Johnny Depp e Vanessa Paradis que, decididamente, possui um talento muito pessoal, sem necessidade de cauções paternas. Além do mais, já há algum tempo que não víamos (aliás, ouvíamos) diálogos tão elaborados, enraizados na banalidade do quotidiano e, ao mesmo tempo, mobilizando os mistérios indizíveis dos corpos e das almas.

* * * * Muito bom

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