"A música é talvez a língua mais representativa da nossa Europa”, defendeu o maestro catalão Jordi Savall durante a conferência acolhida na Fundação Calouste Gulbenkian, organizada pelo Centro Nacional de Cultura, na segunda-feira, 23 de fevereiro, sob o título In Varietate Concordia (concordância na variedade, numa tradução livre) e com um único argumento de conversa: Europa, variações sobre um tema. Apesar do painel ser composto por músicos, incluindo a fadista Katia Guerreiro, também na qualidade de comissária do projeto Ponta Delgada 2026 - Capital Portuguesa da Cultura, e do barítono Jorge Chaminé, houve ainda oportunidade para deixar algumas críticas aos decisores políticos sobre a forma como têm gerido o património e as políticas culturais.Com uma referência ao surgimento da Ars Nova, ou a criação da notação musical que acabou por definir a identidade musical europeia no século XIV, Jordi Savall evocou esta “nova língua que foi criada” como um ponto de viragem na história.“Até esse momento [século XIV], a nossa música era monódica [uma única linha melódica sem acompanhamento harmónico], como toda a música oriental até hoje. Mas alguns monges em Paris, alguns em Itália, criaram essa nova língua. E essa nova língua desenvolveu-se na Europa por milhares de anos como a coisa mais bonita”, descreveu o maestro, enquanto alertava, em simultâneo, para o perigo de extinção.“Não apoiamos a nossa tradição musical, porque é intangível. E porque é intangível, muitas das pessoas que estão em responsabilidades políticas não sabem isso”, rematou..Momentos antes da sua intervenção, o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, como único representante do Governo na conferência, descreveu a Europa, desde o início, como “uma tentativa institucional de organizar a pluralidade, sem a suprimir”. Este era também o argumento para mostrar a convicção assumida por Portugal e Espanha há 40 anos quando aderiram à então comunidade Económica Europeia, que daria origem à União Europeia.“Passou a ser uma experiência vivida por várias gerações, por milhões de cidadãos que aqui nasceram e aqui se constituíram como residentes. Pensar na Europa é pensar naquilo que fazemos de bem, mas também no que ainda nos inquieta”, descreveu o governante, lembrando que ontem, 24 de fevereiro, foi o momento que marcou os quatro anos que passaram desde a invasão russa da Ucrânia.“É neste contexto que escolhemos falar de património musical comum como um ensaio de civilidade”, defendeu, enquanto explicava que “a Europa é (...) uma construção exigente que se mantém em equilíbrio precisamente porque aceita a diferença como condição de existência.”Alberto Santos acabou por sublinhar que são necessárias “políticas culturais que compreendam que o investimento em criação e património não corresponde à certeza simbólica, mas antes ao pilar da nossa democracia”. No entanto, depois da sua intervenção, que incluiu a promessa de que o Governo iria aumentar em 50% o investimento em Cultura durante este ciclo político, Alberto Santos saiu e não assistiu à intervenção de nenhum dos membros do painel.Depois, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, evocou uma “frase célebre” que Jean Monnet - um dos ideólogos do projeto europeu - “nunca disse, mas poderia ter dito”: “Começámos pela economia quando devíamos ter começado pela cultura.”Depois de Jordi Savall ter referido os nomes de vários compositores que atribuíram identidade à música europeia, Sneška Quaedvlieg-Mihailović, a secretária-geral da Europa Nostra, que assumiu a tarefa de moderar o debate, recriou a ideia do maestro catalão para explicar que “os verdadeiros pais e mães da Europa são os artistas, músicos, compositores”. Portanto, não começámos pela economia, afirmou.Nas considerações finais, o barítono Jorge Chaminé vincou o papel da educação, criticando porém aquilo que considerou ser um sistema de “produtor” e “consumidor”, acusando-o de estar a criar uma “sociedade copy-paste”. Sobre ameaças aos valores europeus, o músico português destacou “a extrema-direita”, que é “poderosa” e “é a nossa responsabilidade, porque nós não demos, na construção da União Europeia, lugar para a cultura e a educação”, concluiu.Também a fadista Katia Guerreiro destacou o papel fundamental da música na construção dos valores europeus, mas lembrando as disparidades regionais. “Só podemos ter esperança nos valores da Europa se educarmos os filhos com a cultura”, afirmou..Opinião. UE-Mercosul: um novo eldorado para as indústrias da cultura e economia criativa.O caldo de cultura do terrorismo: extremismo e cegueira ideológica