Julião Sarmento. O artista que nunca descansou à sombra da consagração 

Era um dos artistas visuais portugueses com maior reconhecimento internacional, mas nunca sentiu que chegara ao seu destino. Julião Sarmento morreu nesta terça-feira, em Lisboa, vítima de cancro.

Há uma coisa importante para todas as pessoas e que garantidamente foi para mim: a noção do interdito. A noção do interdito é perversamente satisfatória. Ou seja: é bom que exista o interdito. Mas depende do interdito. Ele é bom para ser transgredido. Quando é definitivamente interdito já não tem graça nenhuma." Assim explicava o artista, numa longa entrevista à jornalista Vanessa Rato, incluída no livro de 2020, Fragmentos de Viagem na Obra de Julião Sarmento (coordenado por Maria João Castro) a omnipresença de temas como a transgressão, nomeadamente a despoletada pelo desejo (ou pela curiosidade) carnal, na sua obra, e a sua relação com as moralidades vigentes.

Julião Sarmento, falecido esta terça-feira, em Lisboa, aos 72 anos, deixa, como salienta ao DN a diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado (MNAC), Emília Ferreira, um legado único, caracterizado por uma eterna procura de novas linguagens: "Mesmo sabendo que ele estava doente, é uma notícia triste. Perdemos um artista muitíssimo abrangente e inovador, com um gosto por manter alguma indefinição na abordagem à sua obra, não querendo explicar tudo, preferindo deixar mistérios latentes. Foi, ainda, um artista que gostou de expandir os limites das disciplinas artísticas, do desenho à pintura, à fotografia e ao vídeo e de abordar de modo conceptual e temas como, por exemplo, o erotismo e o voyeurismo de um modo novo. "Reconhecido internacionalmente, Julião Sarmento proporcionou, ainda para a diretora do MNAC, "uma visão mais lata da criação contemporânea nacional."

Julião Manuel Tavares Sena Sarmento, nascido em Lisboa a 4 de novembro de 1948, frequentou a Escola Superior de Belas-Artes entre 1967 e 1974. Em 1977 participou na Alternativa Zero, uma iniciativa do crítico de arte e também artista Ernesto de Sousa, que mostrou o que de mais de vanguardista se fazia então na arte portuguesa, incluindo obras de, entre outros, Álvaro Lapa, Ana Hatherly, António Palolo, António Sena, E. M. de Melo e Castro, Fernando Calhau, Graça Pereira Coutinho e Helena Almeida.

Nessa primeira etapa, Sarmento utiliza técnicas e suportes diversos, desde a pintura aos filmes, passando pelas colagens de vários materiais, montagens fotográficas ou encenações de textos. A propósito das obras deste período, (onde se enunciam já alguns dos princípios essenciais do seu trabalho futuro), o crítico João Pinharanda escreverá em Julião Sarmento: O Desejo e o Tempo: "Se numas peças a questão do Desejo é tão evidente que se abstratiza (...) , noutras permanece oculta. Em todas, porém, é axial. Já o Tempo se revela claramente em todas elas." Atento à difusão e à valorização da produção artística em geral, dentro e fora do país, também por essa época, Julião Sarmento participa na constituição de uma coleção de arte contemporânea portuguesa, que em 1976 foi intitulada de Coleção Nacional e que hoje é genericamente conhecida por Coleção SEC [Secretaria Nacional da Cultura]".

Reconhecimento internacional

No início da década de 1980, o artista voltará à pintura e começa a ser reconhecido internacionalmente. Na sua obra Arte e Artistas em Portugal, o crítico Alexandre Melo escreve: "Enquanto pintor, Julião Sarmento gere um referencial muito diversificado conjugando citações ora populares ora eruditas com origens muito diversificadas. O efeito produzido por essa sobreposição remete para dois universos, o da literatura e o do cinema, que funcionam como eixos estruturantes da sua obra." Será nesta fase que participará em duas edições sucessivas da Documenta de Kassel, na Alemanha (1982 e 1987), o que terá impacto significativo na sua carreira internacional."

Trabalha com galerias de renome em Lisboa (nomeadamente com a Galeria Cristina Guerra), mas também Porto, Londres, Berna, Madrid, Barcelona, Munique, Turim, Bruxelas, Nova Iorque São Paulo ou Nagoya. A sua obra seria ainda objeto de retrospetivas globais no Museo Reina Sofia (Madrid, 1992) e Fundação Gulbenkian (Lisboa, 1993, 2000). Depois de representar Portugal na Bienal de Veneza em 1997, essa visibilidade exterior tornar-se-á ainda maior: em 2011 a Tate Modern em Londres, instalou um Artist Room com obras suas, mas seria no Porto, em Serralves, que se realizaria a sua retrospetiva mais completa, que lhe valeria o Prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte. Este era já o período em que, mantendo-se a presença do corpo feminino e do desejo, Sarmento evoluíra, segundo Alexandre Melo, para uma nova fase. "O autor transporta a representação do feminino, desde sempre presente ao ponto de ser a imagem de marca da sua obra, para um novo patamar de subtileza e insinuação. Ao incidir de uma maneira mais explícita sobre a prática do desenho interrompido, o trabalho do artista prossegue a infindável tarefa de fazer coincidir o trabalho de invenção e criação plástica com a exploração do território de formulação e questionação do desejo nas suas infinitas modelações."

Nome fundamental da arte portuguesa

Coautor, com Sara António Matos, do livro Julião Sarmento - O Artista como Ele É (uma longa entrevista publicada em volume na coleção Cadernos do Ateliê-Museu Júlio Pomar, em Lisboa, 2016), o curador Pedro Faro recorda com emoção o artista, mas também o amigo e o homem de grande generosidade: "Nunca pensávamos nele como em alguém mais velho e consagrado Era um entusiasta, que adorava pôr as pessoas em relação umas com as outras, e muito generoso, quer nos grandes abraços que dava, quer no modo como partilhava referências, conhecimentos, como dava dicas." Pedro Faro, que ainda colaboraria com Sarmento no catálogo de uma exposição dedicada ao pintor Eduardo Batarda e na inventariação das suas próprias obras, sublinha a atitude de alguém que jamais descansou à sombra da reputação de artista consagrado internacionalmente: "Continuava a reinventar-se e pode-se mesmo dizer que continuava a arriscar. É um nome fundamental da arte portuguesa nos últimos 50 anos mas permanecia um agitador, no melhor sentido do termo. É por isso que tocava tanto pessoas das mais diversas áreas disciplinares, não apenas das artes visuais, mas também da moda, do design ou da política."

A última exposição de Julião Sarmento realizou-se no verão passado no Museu de Aveiro - Santa Joana e teve o título de No Brilho da Pele. Em Aveiro ficou, porém, a sua obra Sic Ut Dolores Meus, uma obra pictórica em 10 painéis, concebida originalmente para a Capela Real do Palácio de Sintra.

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