Julia Roberts dá um baile ao Watergate

Em estreia hoje nos canais TVCine, Gaslit oferece uma perspetiva diferente sobre o maior escândalo político dos Estados Unidos. Uma série que troca Nixon por personagens secundárias no caso, como a exuberante Martha Mitchell.

É provável que nunca tenha ouvido falar em Martha Mitchell, mas depois de ver Julia Roberts de cabelo armado, sorriso pronto e com uma atitude de socialite superstar conservadora, talvez queira conferir a personagem real através do pequeno documentário The Martha Mitchell Effect, disponível na Netflix... Enfim, não nos dispersemos. O que aqui nos ocupa é a minissérie Gaslit, criada por Robbie Pickering, que recupera esta e outras figuras esquecidas nas margens do escândalo Watergate. Quem era ela afinal? A mulher do então procurador-geral dos Estados Unidos, John Mitchell. Sobretudo, alguém que não tencionava encostar-se à sombra do marido. Uma personalidade controversa que ficou conhecida como a "Boca do Sul" (falava demasiado, para comentar a Guerra do Vietname e dizer mal da administração Nixon) e marcada pelo referido termo psiquiátrico "efeito Martha Mitchell", que designa uma pessoa cujas alegações verdadeiras são descartadas por se considerar essa pessoa propensa a delírios. Dito por outras palavras: ela tinha razão na questão Watergate, mas ninguém lhe deu ouvidos.

A série de oito episódios que chega hoje, em exclusivo, ao TVCine Emotion (22h10) parte dessa personagem fulgurante a que Pickering não resistiu, como disse numa entrevista à Vogue: "Ela era uma absoluta cheerleader conservadora. Fui sempre fascinado por mulheres conservadoras assim. Queremos torcer por elas, porque uma mulher nesse sistema de valores é meio punk rock, mas também é punk rock para coisas horríveis." Ou como ainda sublinhou: "É uma heroína, das complexas, mas uma heroína na mesma." E a verdade é que, se Martha começa por ser uma promessa de diversão simples, pela forma como aparentemente consegue dominar o marido e atrair jornalistas, quando os seus comentários nocivos sobre o presidente Richard Nixon entram em território perigoso, não há bilhete de regresso para o ambiente ligeiro do início.

Baseado num podcast, Slow Burn, que no primeiro episódio faz uma crónica de Martha Mitchell, Gaslit tinha matéria para girar quase só à volta dela. Porém, outros rostos entram no esquema desta narrativa marginal do Watergate, com pedigree de atores. Desde logo o marido - interpretado por um Sean Penn quase irreconhecível debaixo de próteses -, que lidera um grupo de idiotas de diferentes graus, desde chefes de gabinete a conselheiros políticos, passando por um advogado da Casa Branca, John Dean (Dan Stevens), e pelo inclassificável cabecilha G. Gordon Liddy (Shea Whigham), ambos com as suas histórias paralelas. Este último é particularmente hilariante no seu machismo cultivado e devoção a Nixon, uma figura de comicidade apocalíptica com um bigode digno de nota, que confere à série um arranque bem americano ao proferir a típica frase da lei do mais forte: "A história não é escrita pelas massas fracas". Ironia das ironias, eis uma tese que ficará desfeita em pouco tempo, à medida que a realidade embate no thriller de espionagem de faz de conta concebido por estes inúteis contra os democratas...

Os infames acontecimentos da década de 1970 são assim vistos pelo ângulo de diversas personagens secundárias, de certa maneira, em luta pelo protagonismo dentro de cada episódio. "Não estávamos realmente interessados numa Wikipedia dos eventos, tanto quanto estávamos hiper interessados na verdade das personagens. E isso não se consegue nos livros de história: trata-se de uma esfera especial da televisão", esclareceu também Pickering à Vogue. De facto, Gaslit aposta tudo nas aflições, nos dramas e no ridículo que molda a verdade de uns e de outros, mas nessa vontade de se mover em várias frentes, algo se perde pelo caminho. Basicamente porque não é possível manter o mesmo nível de curiosidade por todas as histórias individuais.

Digamos que o capítulo correspondente ao romance do tal advogado júnior da Casa Branca, John Dean, com Mo (Betty Gilpin), uma liberal nada convencida no primeiro encontro, não tem arcaboiço para competir com a narrativa cardíaca de Martha, a mulher sempre a arriscar tudo, debaixo dos olhos do marido (e daqueles que o marido contrata para a vigiar), mesmo que a fragilidade física e psicológica se imponha em segredo. Um dos melhores episódios de Gaslit, em que ela dá por si presa dentro de um quarto de hotel, impedida de fazer contactos, sob a observação ameaçadora de um "guarda-costas", é quase um filme de terror isolado, com Julia Roberts em modo Dormindo com o Inimigo, sem a parte de dormir com quem quer que seja.

Porque razão Roberts é tão perfeita no papel desta figura feminina que esconde o caos debaixo de uma capa de charme sulista? Nas suas palavras à revista do The New York Times: "Acho que poderia encontrar algo em comum com Martha pelo facto de, à superfície, ela ser uma mulher segura de si e confortável perto dos homens de charuto, alguém que se sabe mexer numa festa." Isto numa série exímia em trazer para a frente as mulheres dos homens brancos que se movem pelos corredores do poder, desfazendo-as da imagem clássica de esposas que não sabem lidar com assuntos delicados de política e justiça.

Mas além de homens brancos, e no meio das subtramas, há ainda o herói acidental que frustrou a invasão do Comité Nacional Democrata, o segurança negro Frank Wills (Patrick Walker). Uma personagem que não passa de um esboço para refletir o efeito da fama momentânea, e da qual retemos a afeição por um gato. Coisa quotidiana, que não tem que ver com nada a não ser com a própria Martha: sente-se a falta do bichano tal como se sente a dela quando Gaslit se desvia para os dramas menores. Afinal, gatos e socialites levadas da breca são um must.

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