José Tolentino de Mendonça vence Prémio Pessoa 2023
O cardeal, ensaísta e poeta José Tolentino de Mendonça é o vencedor da 37ª edição do Prémio Pessoa, foi esta quinta-feira anunciado numa cerimónia no Palácio de Seteais, em Sintra.
José Tolentino Calaça de Mendonça, de 57 anos, criado cardeal a 5 de outubro de 2019 pelo Papa Francisco, nasceu em Machico, na Madeira, destacando-se como poeta, sacerdote e professor. Desde o ano passado que é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação no Vaticano.
Autor de numerosos livros, que o tornaram conhecido pelos portugueses dos mais diversos quadrantes, estudou Ciências Bíblicas em Roma e viveu em Lisboa, onde foi professor e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, a instituição que escolheu para o doutoramento em Teologia Bíblica.
Desde a sua primeira edição, em 1987, o Prémio Pessoa foi atribuído a 39 personalidades (em duas edições com dois premiados em simultâneo), com papel significativo na vida cultural e científica do país.
O Prémio Pessoa é uma iniciativa do semanário Expresso e da Caixa Geral de Depósitos, no valor de 60 mil euros, que "visa reconhecer a atividade de pessoas portuguesas com papel significativo na vida cultural e científica do país".
O júri foi composto por Ana Pinho, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Emílio Rui Vilar, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho-Marques, com Francisco Pinto Balsemão a presidir e Paulo Macedo como vice-presidente.
Os membros do júri consideraram que Tolentino de Mendonça é "uma das vozes fundamentais da poesia contemporânea portuguesa e europeia", que, além das suas funções eclesiásticas, se tem destacado "no ensino universitário, no ensaio de reflexão teológica e filosófica e na poesia".
"José Tolentino de Mendonça projeta uma visão do mundo norteada por uma espiritualidade que pretende acolher, compreender e transcender as dilacerações, conflitos e sofrimentos da humanidade", em todos os domínios da sua "notável e diversificada atividade intelectual", afirmou o presidente do júri.
Francisco Pinto Balsemão assinalou ainda que Tolentino de Mendonça "protagoniza uma conceção integradora, unificadora e universal da força espiritual da literatura, que lhe serve de guia desde sempre", que lhe abriu portas à introdução da poesia de Fernando Pessoa e de outros escritores nos Exercícios Espirituais do Retiro de Quaresma do Papa e da Cúria Romana, em fevereiro de 2023.
Na sua vida, "José Tolentino de Mendonça tem-se mantido fiel ao lema contido no título do seu mais recente livro. Tem sido um humilde e generoso 'Peregrino da Esperança'", acrescentou.
José Tolentino de Mendonça nasceu na ilha da Madeira, em 1965, tendo vivido os seus primeiros anos em Angola.
Deixou África aos 9 anos de idade, na altura da independência das antigas colónias portuguesas.
É licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa (1989) e doutorado em Teologia Bíblica pela mesma instituição (2004).
Depois de uma longa atividade pastoral e eclesiástica, durante a qual ocupou altos cargos no Vaticano, foi nomeado pelo Papa Francisco Prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação.
Iniciou a sua carreira literária em 1990, com a publicação de "Os dias contados", no mesmo ano em que foi ordenado padre na Diocese do Funchal.
O Presidente da República felicitou hoje o cardeal Tolentino Mendonça pelo Prémio Pessoa 2023, considerando que reconhece justamente a sua afirmação como "figura central na cultura portuguesa" que representa o cristianismo em diálogo com o mundo laico.
"Padre, teólogo, poeta, cronista, ensaísta, académico, José Tolentino Mendonça tem-se afirmado como figura central na cultura portuguesa contemporânea", escreveu o chefe de Estado, numa mensagem publicada no sítio oficial da Presidência da República na Internet.
Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, Tolentino Mendonça vem "dando continuidade, por um lado, à presença do cristianismo na sociedade, cultivando, por outro, o diálogo com o mundo laico e os valores humanistas, e resgatando, enfim, ideias de empatia e sabedoria em tudo opostas à polarização, ao imediatismo e à estridência".
"O Prémio Pessoa que hoje lhe foi atribuído reconhece muito justamente essa unidade e essa diversidade", considera o Presidente da República.
O cardeal Américo Aguiar considerou que a atribuição do Prémio Pessoa 2023 ao cardeal José Tolentino Mendonça "é motivo de alegria e regozijo", por sinalizar o que Portugal tem de melhor.
Numa declaração enviada à Lusa, o bispo de Setúbal considera o Prémio Pessoa "uma instituição".
"Juntar o meu irmão cardeal José Tolentino Mendonça, tal como já antes juntou o irmão cardeal Manuel Clemente, é motivo de alegria e regozijo", escreve o mais novo cardeal português, acrescentando: "Parabéns ao galardoado e ao júri por mais uma vez nos sinalizar o que de melhor temos e somos".
"Portugal é os portugueses, como este prémio pretende valorizar", conclui Américo Aguiar.
Lista das personalidades distinguidas com o Prémio Pessoa, desde a sua criação, em 1987:
2023 - José Tolentino de Mendonça (cardeal e poeta).
2022 - João Luís Barreto Guimarães (poeta).
2021 - Tiago Pitta e Cunha (jurista).
2020 - Elvira Fortunato (cientista).
2019 - Tiago Rodrigues (ator, encenador e dramaturgo).
2018 - Miguel Bastos Araújo (geógrafo).
2017 - Manuel Aires Mateus (arquiteto).
2016 - Frederico Lourenço (filólogo, escritor, tradutor).
2015 - Rui Chafes (escultor).
2014 - Henrique Leitão (historiador de ciência).
2013 -- Maria Manuel Mota (investigadora).
2012 -- Richard Zenith (investigador).
2011 -- Eduardo Lourenço (ensaísta).
2010 -- Maria do Carmo Fonseca (investigadora).
2009 -- Manuel Clemente (cardeal-patriarca de Lisboa).
2008 - João Luís Carrilho da Graça (arquiteto).
2007 -- Irene Flunser Pimentel (historiadora).
2006 -- António Câmara (investigador).
2005 -- Luís Miguel Cintra (ator, encenador).
2004 -- Mário Cláudio (escritor).
2003 - José Joaquim Gomes Canotilho (constitucionalista).
2002 - Manuel Sobrinho Simões (investigador).
2001 - João Bénard da Costa (historiador de cinema).
2000 - Emmanuel Nunes (compositor).
1999 - Manuel Alegre (escritor) e José Manuel Rodrigues (fotógrafo).
1998 - Eduardo Souto de Moura (arquiteto).
1997 - José Cardoso Pires (escritor).
1996 - João Lobo Antunes (investigador, neurocirurgião).
1995 - Vasco Graça Moura (escritor e tradutor).
1994 - Herberto Helder (poeta).
1993 - Fernando Gil (ensaísta).
1992 - António e Hanna Damásio (investigadores).
1991 - Cláudio Torres (arqueólogo).
1990 - Menez - Maria Inês da Silva Carmona Ribeiro da Fonseca (artista plástica).
1989 - Maria João Pires (pianista).
1988 - António Ramos Rosa (poeta).
1987 - José Mattoso (historiador).

