Jorge, o rapaz de Lisboa que pensava o teatro português

Autêntico homem do Renascimento pelo modo como pensava as Artes, Jorge Silva Melo era também um combatente pela cultura. O seu legado marca o teatro português no último meio século.

Dizia querer passear pela vida como um gato mas é de gigante a marca que imprimiu no teatro português dos últimos 50 anos. Jorge Silva Melo, nascido em Lisboa a 7 de agosto de 1948, morreu na noite desta segunda-feira, aos 73 anos, deixando muitos dos seus pares "mais desacompanhados", como disse ao DN o encenador João Garcia Miguel: "Tinha uma luz muito própria. Perdemos um lutador, um autêntico guerreiro da beleza."

Irreverente e inquieto desde a adolescência vivida no bairro das Amoreiras, começou cedo a escrever crítica de Cinema para o Diário de Lisboa. Nessa capital pequenina da década de 1950 e princípio da seguinte, procurava um caminho próprio. Como contou em 2017 numa entrevista biográfica à revista do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, Sinais de Cena: "Toda a minha formação foi contra a escola e fora da escola. Ia ao teatro a que a minha irmã me levava. O primeiro espectáculo que me lembro de ter visto foi, no Tivoli, o Pega Fogo, de Jules Renard, com Cacilda Becker, espectáculo dirigido por Zelimsky que assinala o início do teatro moderno brasileiro."

Transferido, a pedido seu, do Externato Marista de Lisboa para o Liceu Camões, teve como professor o escritor e artista plástico Mário Dionísio, que se revelaria decisivo na sua formação, como, depois, já na Faculdade de Letras de Lisboa, o padre Manuel Antunes. E foi na Faculdade que o teatro (mas também o cinema) o "agarrou", como contava na mesma entrevista: "Vamos lá criar o Grupo de Teatro da Faculdade de Letras! Aí comecei a ter interesse nos cineclubes, a participar no ABC, depois no CCUL /Cineclube Universitário de Lisboa) e sobretudo no teatro, onde começámos em 1969, creio eu, com o Anfitrião. Antes tinha feito umas coisinhas, como O Avejão, de Raul Brandão. Mas foi sobretudo O Anfitrião." Anfitrião ou Júpiter e Alcmena do dramaturgo António José da Silva, dito O Judeu, com encenação do também estudante da FLL, Luís Miguel Cintra, subiu ao palco do já desaparecido Teatro Vasco Santana (ficava na antiga Feira Popular) e tornou-se um acontecimento de público e de crítica, também devido à abundância de "alfinetadas" políticas.

Aos 21 anos foi estudar cinema para a London Film School e, no regresso a Portugal, em 1973, fundou com Luís Miguel Cintra o Teatro da Cornucópia, que co-dirigiu até 1979, tendo sido também ator e encenador da companhia. No princípio dos anos 80, como bolseiro da Gulbenkian, estagiou em Berlim, com Peter Stein, de quem foi assistente, e em Milão, com Giorgio Strehler.

Em 1980, estreou-se como realizador de cinema com o filme Passagem - Ou a Meio Caminho. Foi ainda autor de obras como Ninguém Duas Vezes (1985), Agosto (1988), Coitado do Jorge (1993) e António, Um Rapaz de Lisboa (2000) e dos documentários Conversa com Glicínia; Conversas em Leça em Casa de Álvaro Lapa; Nikias Skapinakis - O Teatro dos Outros; António Sena,- A Incessante Mão; Ângelo de Sousa: Tudo o que sou capaz e A Gravura: Esta Mútua Aprendizagem. Como ator participou em vários filmes, entre os quais Conversa Acabada, de João Botelho, A Ilha dos Amores, de Paulo Rocha, e O Sapato de Cetim, de Manoel de Oliveira.

Na Literatura foi autor das peças de teatro Seis Rapazes Três Raparigas; António, Um Rapaz de Lisboa; O Fim ou Tende Misericórdia de Nós; Prometeu; Num País Onde Não Querem Defender os Meus Direitos; Eu Não Quero Viver, baseado em Kleist; Não Sei (em colaboração com o ator Miguel Borges); O Navio dos Negros, e ainda do libreto de Le Château dês Carpathes, de Philippe Hersant, baseado em Júlio Verne. Traduziu obras de Pirandello, Oscar Wilde, Bertolt Brecht, Georg Büchner, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini e Harold Pinter.

A maior e mais longa "empresa" da sua vida iniciar-se-ia, no entanto, em 1995, com a criação da companhia Artistas Unidos, que dirigiu até ao ano passado, quando o seu estado de saúde se degradou. A tal longevidade não corresponde, todavia, uma vida de sossego. Com várias mudanças de espaço (de A Capital ao Teatro da Politécnica, passando pelo Teatro Taborda e pelo antigo Convento das Mónicas) e muitas lutas a que nunca virou a cara, os Artistas Unidos levaram à cena textos de, entre outros, Judith Herzberg, Jon Fosse, José Maria Vieira Mendes, Jacques Prévert, Pier Paolo Pasolini, Jesper Halle, Tennessee Williams ou Miguel Castro Caldas. De resto, entre 23 de março a 10 de abril, no Teatro São Luiz, em Lisboa, poderemos ainda ver a última encenação de Silva Melo, Vida de Artistas, de Noel Coward.

"O Jorge era um autêntico homem do Renascimento", recorda João Garcia Miguel. "Para além do encenador que todos conhecemos, era alguém que pensava as artes como um todo, que escrevia, traduzia, fazia cinema e tinha uma ligação grande com o universo das Artes Plásticas. E fazia-o sempre bem e com uma enorme paixão, o que às vezes o tornava paradoxal e muito combativo. Desentendemo-nos várias vezes, mas tive sempre por ele um enorme respeito e admiração. Com o Luís Miguel Cintra, era um dos meus modelos desde que comecei a encarar a ideia de ter uma vida ligada às artes." Para este encenador, um dos legados mais importantes que fica de Silva Melo é a sua "consciência de grupo, o modo como ele envolvia as pessoas e formava uma comunidade com os seus atores, encenadores, técnicos. O modo como se batia por eles."

Distinguido com a medalha de mérito cultural em dezembro do ano passado, recebera, em abril, com Luís Miguel Cintra, um doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, que os formou. Em 2020, recebera o Prémio D. Diniz da Casa de Mateus, pelo livro de memórias A mesa está posta.

Homem de muitas lutas (pelas condições de trabalho dos artistas, pelos hábitos culturais - ou falta deles - dos portugueses, pela qualidade) preferia ser truculento (com a crítica, com os seus pares, com o Ministério da Cultura, em particular com a Direção Geral das Artes) a baixar a fasquia. Nos longos meses do confinamento ditado pela pandemia, quando tanto estava em causa para os artistas, mantinha, na sua página de Facebook, umas conversas dominicais que tinham centenas de seguidores entusiasmados.

Sabia-lhe sempre a pouco. Em 2017, na entrevista à Sinais de Cena, admitia alguma amargura: "Aquilo que gostaria de fazer, nestes últimos quatro, cinco anos de vida ativa que tenho pela frente, era ter um teatro. Não é esta salinha. Ter um teatro com programação regular, com peças e não só com performances. Um espaço onde os vários atores que fui encontrando na minha vida - o João Pedro Mamede, o Miguel Borges, o Manuel Wiborg... - pudessem ter um lugar e a autonomia de criação. A coisa que mais me encanita é que, e ainda não acabámos, não deixei futuro a ninguém." Por uma vez, Jorge, estava enganado.

dnot@dn.pt

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