BBC censura Fawlty Towers. "É estúpido", responde John Cleese

A série de humor Fawlty Towers foi a mais recente a cair nas malhas da censura. O humorista Carlos Pereira atribuiu a este revisionismo a urgência das empresas em mostrarem estar do lado certo.

A onda de protestos desencadeada pelo homicídio do norte-americano George Floyd transbordou as ruas e chegou à cultura. A mais recente medida foi tomada pela emissora britânica BBC, que decidiu eliminar um episódio da consagrada série humorística Fawlty Towers. John Cleese, o protagonista, mostrou a sua indignação.

Esta medida seguiu-se a outras, como a retirada de o clássico do cinema E tudo o vento levou do catálogo da HBO, ou as séries de humor Little Britain, Liga de Cavalheiros e Mighty Boosh por parte da Netflix, devido ao uso de caras pintadas de negro.

O serviço de download da UKTV, que pertence à BCC, anunciou no Twitter que tinha retirado temporariamente o episódio The Germans de Fawlty Towers, uma série realizada nos anos 70, uma vez que continha "insultos raciais".

O serviço disse que iria "rever" o episódio e "considerar as opções". Dizia também que é política da empresa reverem conteúdos antigos cuja linguagem "ultrapassada" possa ter impacto nos espectadores, pelo que podem "editar" os referidos conteúdos ou mostrar um "aviso".

As "calúnias raciais" não estão relacionadas com os alemães a que o episódio alude, nem a Manuel, o desajeitado empregado catalão, mas estão contidas numa cena em que a personagem conhecida como o Major se refere aos desportistas da Índia, destrinçando entre formas diferentes -- e igualmente racistas -- de chamar os asiáticos ("wogs" em vez de "niggers").

Ao jornal australiano The Age, John Cleese comentou: "O Major era um velho fóssil que havia sobrado de décadas anteriores. Não estávamos a apoiar as suas opiniões, estávamos a gozar com elas. Se eles não conseguem ver isso, se as pessoas são demasiado estúpidas para ver isso, o que é que se pode dizer?".

O ator que fez parte da trupe Monty Python criticou os executivos da BBC. "Muitos dos responsáveis agora na BBC só querem manter os seus empregos. Se algumas pessoas se entusiasmam, pacificam-nas em vez de se manterem firmes, como teriam feito há 30 ou 40 anos".

Mostrar serviço

Opinião semelhante tem o humorista Carlos Pereira sobre as empresas que tomam este género de decisões. "Há uma necessidade muito grande de estar do lado certo, não importa como. Depois optam pelo mais fácil, juntam as equipas e decidem retirar produtos do catálogo. As pessoas nunca querem aprofundar, não querem debater os assuntos."

"Acho que há coisas que devem ser retiradas porque estão a perpetuar uma ideia errada e outras são uma demonstração de vontade de uma marca ou empresa de mostrar serviço sem olhar à volta. Isto não é positivo para o debate em si. Esta urgência acaba por misturar todo", crê.

Para este português de origem são-tomense, que trouxe para o nosso humor o tema do racismo de um ponto de vista original, se é certo que as empresas estão a "tomar decisões com base na comoção das ruas", não há que temer "o bicho-papão do politicamente correto" que iria apagar todas as referências culturais: "Isso só serve a quem não se quer olhar ao espelho."

Carlos Pereira dá como exemplo canções infantis como o Pretinho da Guiné: "Se retirarem do catálogo não me choca. Pode ter sido criado numa altura em que era considerado normal mas isto hoje não faz sentido."

Cleese a favor do BLM, contra derrube de estátuas

Na mesma entrevista o ator britânico elogiou o movimento de protesto Black Lives Matter. "Neste momento há uma enorme onda de raiva e um sentimento realmente admirável de que temos de tornar a nossa sociedade menos discriminatória, e penso que essa parte é muito boa. Parece-me que as melhores partes dos protestos de George Floyd têm sido muito comoventes e muito, muito poderosos", disse.

"Há desordeiros, tal como há polícias marginais, mas se nos deixarmos concentrar nos 10% que estão sempre a tentar f- tudo, podemos esquecer que o que está realmente em causa é tentar comportar-nos um pouco mais amavelmente para com todos."

Numa tomada de posição mais controversa, Cleese, de 80 anos, considera errado julgar obras de arte mais antigas pelos padrões modernos. "Os gregos em 500 a.C. sentiram que a cultura, ou qualquer tipo de civilização real, só era possível por causa da escravatura - isso significa que devemos derrubar todas as estátuas de Sócrates?"

Cleese repetiu esta visão no Twitter, dizendo que estava "muito confuso sobre a remoção de estátuas". "Do mesmo modo, os romanos escravizaram os britânicos durante 400 anos". Então, será que os italianos nos devem indemnizações? E Sir Isaac Newton era acionista da Companhia dos Mares do Sul, que incluía o tráfico de escravos entre as suas atividades. O que fazemos com as suas estátuas? É bastante complicado."

UKTV anuncia regresso do episódio

Perante a torrente de críticas, e assim como a HBO acabou por anunciar a reintegração de E tudo o vento levou no catálogo, embora com "contextualização histórica", a UKTV acabou por comunicar algo semelhante. "Adicionaremos orientações e avisos extra para destacar conteúdo e idioma potencialmente ofensivos. Reintegraremos as Fawlty Towers assim que novas orientações forem adicionadas, o que esperamos acontecer nos próximos dias. "

Série de culto, em 2000 Fawlty Towers foi considerada a melhor série de TV pelo British Film Institute.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG