Jean Eustache e Philippe Garrel - eis dois realizadores que identificamos como símbolos de um certo cinema francês, experimental e poético, indissociável da Nouvelle Vague. As datas assim o confirmam, mas também, e sobretudo, o espírito criativo do seu trabalho. Surge agora uma bela oportunidade para descobrir uma parte dos seus filmes, até porque vários permaneceram comercialmente inéditos no nosso país: é essa a proposta da Medeia Filmes que, no cinema Nimas, a partir de sexta-feira (até 10 de março) lhes dedica um ciclo com um título sintomático e sugestivo: “Os inclassificáveis do cinema francês”.De onde provém tudo isto? Lembremos as datas, precisamente. Os nomes de Eustache e Garrel começam a ser citados nos meios cinéfilos graças a títulos como Os de Robinson (1964), do primeiro, e Les Enfants Désaccordés (1965), do segundo - Eustache tinha 26 anos (suicidou-se em 1981, aos 42 anos), Garrel começara a filmar apenas com 16 (tem atualmente 77). Ambos fotografados a preto e branco, dão a ver personagens jovens, adolescentes mesmo no caso de Garrel, numa demanda existencial a que os cenários urbanos emprestam um realismo ambíguo, tratado por uma envolvente subtileza narrativa.Se nos recordarmos do que estava a acontecer à sua volta, reconhecemo-los como filmes próximos de uma sensibilidade “geracional” que, por exemplo, no caso de Jean-Luc Godard, estaria na base de Bando à Parte (1964) ou Masculino Feminino (1966). Ao mesmo tempo, distinguem-se por uma atenção (quase) documental às pessoas e objetos que, em alguns casos, se irá transfigurando em histórias de um lirismo metódico, misterioso, por vezes assombrado.Quando Garrel realiza La Cicatrice Intérieur, em 1970, e Eustache La Maman et la Putain, em 1972, são claras as singularidades dos universos dos dois cineastas e, em boa verdade, o seu caráter inclassificável. O filme de Garrel, um dos que rodou com a lendária Nico (modelo, cantora, atriz, musa dos Velvet Underground de Lou Reed e John Cale), tem qualquer coisa de parábola enigmática e celebração operática. Quanto a La Maman et la Putain, por certo um dos títulos mais célebres da produção europeia da época, consegue ser um testemunho desencantado dos tempos pós-Maio de 68, preservando uma nostalgia utópica que as décadas não apagaram - a sua cópia restaurada foi o grande acontecimento da secção de Clássicos no Festival de Cannes de 2022. . As cópias restauradas são mesmo um trunfo importante do ciclo enquanto proposta de reencontro com memórias essenciais de um cinema francês em profunda agitação criativa. Se outras razões não houvesse para justificar essa importância, poderíamos recordar que ambos os cineastas trabalharam com brilhantes diretores de fotografia - por exemplo, o “oscarizado” Nestor Almendros em Mes Petites Amoureuses (1974), de Eustache, refletindo dramáticas clivagens entre gerações; ou William Lubtchansky, colaborador de vários títulos de Garrel, incluindo Os Amantes Regulares (2005), um dos filmes em que o realizador dirigiu o seu filho, Louis Garrel.Porventura um dos aspetos mais insólitos, e também mais sedutores, deste conjunto de filmes é a sua variedade em termos de duração, temática ou género. Mais duas hipóteses a ter em conta: Marie pour Mémoire (1968), de Garrel, uma verdadeira revolução no interior da noção de “melodrama”, e Numéro Zéro (1971), uma conversa de Eustache com a sua avó através de um fascinante labirinto de memórias.