Jean-Claude Carrière ou a arte de bem escrever para cinema

Na lista de autores que contaram com a sua colaboração surgem Buñuel, Godard e Andrzej Wajda. O argumentista francês morreu aos 89 anos.

O seu nome está ligado de forma indelével a seis décadas de história do cinema, em particular de produção europeia: o argumentista francês Jean-Claude Carrière faleceu na segunda-feira, em Paris, contava 89 anos.

Todas as biografias de Carrière destacam, muito justamente, a sua ligação ao universo de Luis Buñuel. Foi um aliado regular do cineasta espanhol desde Diário de Uma Criada de Quarto (1964) e A Via Láctea (1969), filmes em que surgiu em pequenos papéis, até à célebre trilogia final constituída por O Charme Discreto da Burguesia (1972), consagrado com o Óscar de melhor filme estrangeiro em representação da França, O Fantasma da Liberdade (1974) e Este Obscuro Objecto do Desejo (1977). Sem esquecer A Bela de Dia (1967), símbolo modelar das ousadias narrativas do cinema da década de 1960.

Para lá do misto de surrealismo e humor da obra de Buñuel, outros trabalhos de Carrière não são estranhos a uma peculiar conjugação de ironia e fantasia. Aliás, o começo da sua carreira é marcado pela realização de uma deliciosa comédia do absurdo, Heureux Anniversaire, coassinada por Pierre Étaix, que viria a ser premiada com o Óscar de melhor curta-metragem referente a 1962. A Academia de Hollywood distinguiu-o uma vez mais, nos chamados Governor Awards referentes a 2015, com um Óscar honorário.

Nas décadas de 60/70, o seu nome surgiu nos genéricos de vários sucessos da produção francesa, incluindo a comédia de aventuras Viva Maria! (1965), de Louis Malle, com Brigitte Bardot e Jeanne Moreau, e o melodrama policial A Piscina (1969), de Jacques Deray, com Alain Delon e Romy Schneider. O seu gosto pela dramatização de personagens históricas refletiu-se, em particular, em Borsalino (1970), de novo sob a direção de Deray, retratando dois gangsters da região de Marselha, na década de 1930, interpretados por Jean-Paul Belmondo e Alain Delon.

Jean-Luc Godard, Andrzej Wajda e Peter Brook são outros autores que acolheram a sua colaboração. O labor de Carrière como argumentista foi sempre pontuado pela multifacetada atividade como escritor, tendo publicado romances, memórias, poesia e diversos ensaios sobre temas transversais da vida cultural, de que se destaca uma celebração do valor dos livros, Não Contem com o Fim dos Livros (Gradiva, 2017), em coautoria com Umberto Eco. Certamente não por acaso, isso levou-o a envolver-se na complexa adaptação de alguns romances "difíceis", como os já citados Diário de Uma Criada de Quarto e A Bela de Dia, a partir de Octave Mirbeau e Joseph Kessel, respetivamente, ou ainda O Tambor (1979), de Volker Schlöndorff, inspirado em Günter Grass, e A Insustentável Leveza do Ser (1988), a popular recriação da obra de Milan Kundera, com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin sob a direção de Philip Kaufman.

Numa trajetória de cerca de 150 títulos (cinema e televisão), Carrière aceitou alguns desafios invulgares, a meio caminho entre realismo e onirismo, de que um dos exemplos mais extremos será Birth - O Mistério (2004), de Jonathan Glazer, com Nicole Kidman no papel de uma jovem viúva em confronto com uma criança que se identifica como uma reencarnação do seu marido. Mais recentemente, participou na escrita de À Porta da Eternidade (2018), um retrato de Vincent van Gogh assinado por Julian Schnabel, com Willem Dafoe como protagonista, e em vários filmes de Philippe Garrel, incluindo O Sal das Lágrimas (2020), lançado há poucos meses no mercado português, já disponível em DVD.

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