Javier Bardem, o bom malandro espanhol

El Buen Patrón, com um soberbo Javier Bardem, fez parar o trânsito em San Sebastián. Mas de França chegou uma desilusão tremenda: Arthur Rambo, de Laurent Cantet...

Neste ano, a competição à Concha de Ouro de San Sebastián tem engarrafamento de nomes consagrados do cinema espanhol. De Paco Plaza a Iciar Bollaín, passando por Fernando León de Aranoa, consagrado por Segundas ao Sol, ontem aplaudido pelo seu novo El Buen Patrón, estreia mundial de respeito. Trata-se de uma paródia subtil ao mundo do patronato espanhol, incidindo o seu olhar no Sr. Blanco, um proprietário de uma fábrica de balanças industriais que tenta passar a imagem do empresário perfeito: ajuda os seus empregados, a quem chama de filhos, compra anúncios na imprensa local para ter boa imagem e vai colecionando prémios de excelência junto do Governo Regional, mas depois da chegada de uma estagiária sedutora e da crise conjugal do seu braço-direito tudo o que podia correr mal... corre ainda pior.

Com um humor próprio da alta comédia e da mais refinada sátira, a primeira projeção de El Buen Patrón exclusiva para a imprensa teve uma receção fora do vulgar. Nestas sessões, é habitual um certo cinismo dos jornalistas, mas todo o Teatro Principal riu a bandeiras despregadas e chegou a aplaudir no fim, algo que nunca acontece. Bom sinal para um filme que obviamente vive do carisma esmagador de Javier Bardem. O ator espanhol é assombroso na pele do Sr. Blanco, dando-lhe um peso muito para além da mera caricatura. Com um cabelo grisalho e uma barriga burguesa, Bardem capta bem uma falta de ética de um certo patronato espanhol que se alimenta de esquemas de corrupção e de um abuso de poder endémico. Nesse sentido, é um filme militante, capaz de tocar na ferida que mina a classe operária de um país. Mas, acima de tudo, Bardem e Aranoa nunca perdem o foco: El Buen Patrón é comédia pura e um objeto com prioridade para divertir. Está já assegurado para estreia comercial em Portugal.

Entretanto, começa a especular-se sobre uma tradição do festival, a sessão surpresa. Há quem ponha as mãos no fogo por C'Mon C'Mon, de Mike Mills, com Joaquin Phoenix, mas também há quem acredite em L'Événement, de Audrey Diwan, sobretudo porque venceu Veneza e pelo facto de a realizadora ser aqui jurada.

Por estes dias, filme a dividir as opiniões é Arthur Rambo, de Laurent Cantet, história de um escritor de sucesso que perde o estado de graça depois de o meio intelectual francês descobrir os seus tweets com uma personagem provocadora que difunde ódio antissemita e aplaude os terroristas. Uma reflexão sobre os males das redes sociais nesta atual sociedade francesa feita com excesso de embalo panfletário...

dnot@dn.pt

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