Um conto de Murakami que deu para uma longa-metragem

Eis um conto de 20 páginas de Haruki Murakami visitado, com duas horas e meia de elegância e mistério, pelo cineasta Lee Chang-Dong: o tão badalado Em Chamas já está nas salas portuguesas.

Há filmes que, ao invés de darem respostas, se consolidam no "tricotar" de uma atmosfera tão densa quanto inefável. Fazem-nos perder o chão e deixam-nos o pensamento trôpego. No caso de Em Chamas, do sul-coreano Lee Chang-Dong (que antes nos deu Poesia), essa atmosfera que se impõe é progressivamente sensual e obsessiva, como um cigarro que começa por ser fumado de forma lânguida e cujas passas se vão tornando cada vez mais nervosas.

Inspirado num conto de Haruki Murakami intitulado Os Celeiros Incendiados (de O Elefante Evapora-se, editado em Portugal pela Casa das Letras), este é um filme que facilmente se caracteriza como um thriller mesclado de drama psicológico, mas o que contém em si é mais amplo do que tal designação de género.

À cabeça da estranha narrativa temos três personagens: Jongsu, um jovem aspirante a escritor, Haemi, uma jovem misteriosa, e Ben, uma figura muito bem-parecida e endinheirada. Tudo começa no encontro entre esse jovem de origens modestas e aquela que diz ter sido sua vizinha e colega de escola - mesmo que ele não se lembre dela -, resolvendo a falta de memória com uma tarde de sexo, e depois pedindo que cuide do seu gato durante uns dias enquanto estiver fora, numa viagem por África... O gato (animal recorrente nas ficções de Murakami) nunca aparece diante da lente de Chang-Dong, mas dá sinais de vida através da comida em falta e dos dejetos na caixa de areia.

Quando Haemi chega de África, vem acompanhada de Ben, esse ainda mais enigmático sul-coreano - interpretado com laivos de Great Gatsby pelo ator Steven Yeun, da série The Walking Dead - que parece fazer questão de manter Jongsu por perto, convidando-o para as suas tertúlias de amigos e mostrando-se interessado na sua ambição de escritor. É neste contexto que surge a referência a William Faulker, como o autor preferido de Jongsu, de quem existe um conto já de si muito sugestivo para o de Murakami: Barn Burning.

E a referência não se afigura nada inocente, desde logo porque a verve literária é uma das camadas que nos ajudam a aceder melhor ao exercício mental de Em Chamas. O título, que se traduzirá sobretudo numa metáfora, justifica-se pelo momento em que Ben revela a Jongsu o seu passatempo mais excêntrico: queimar estufas (no livro são celeiros). E depois dessa bizarra revelação a sedutora e vaporosa Haemi desaparece com a mesma natureza esfíngica com que apareceu em cena...

O que move a câmara de Lee Chang-Dong é então o jogo subtil entre a presença e a ausência, o pulso da realidade e aquilo que fervilha numa espécie de consciência da literatura vigilante. Há sentidos diversos que podem extrair-se dos pequenos detalhes, mas as certezas são frustradas a todo o instante, deixando-nos suspensos na verdade estampada das diferenças de classe social (que queimam por dentro), e numa inquietação humana filmada com frescura estilística mas sem presunção.

Veja-se, nesse aspeto, o belíssimo momento de cinema que Chang-Dong nos proporciona quando, ao som da trompete de Miles Davis, Haemi, qual rapariga de parte nenhuma, dança em topless ao pôr do Sol, como se a sua secreta angústia estivesse em comunhão com a paisagem natural. E todavia, mais do que um deslumbramento imediato, Em Chamas é um filme de efeitos secundários. Fica a ressoar dentro de nós muito depois de termos deixado a sala.

*** Bom

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