Santiago, Itália. O olhar não isento de Moretti sobre o golpe chileno

O golpe de Estado que derrubou o regime de Salvador Allende aconteceu a 11 de setembro de 1973. A assinalar a data, estreia o documentário de Nanni Moretti, Santiago, Itália: vozes de quem fugiu da ditadura de Pinochet para uma pátria "materna", de braços abertos.

Cineasta que nos habituou a uma marcada atitude política, o nome do italiano Nanni Moretti antecipa alguma informalidade. Vem logo à memória Palombella Rossa (1989) e a sua metáfora aquática da então conjuntura do Partido Comunista Italiano, ou o "diz qualquer coisa de esquerda", que ele pronuncia enquanto assiste a um debate televisivo entre Berlusconi e o socialista Massimo d"Alema, no filme Abril (1998). O que esperar deste Santiago, Itália? Tudo menos isenção.

Antes de mais, a pergunta deve ser: porquê um documentário sobre o golpe de Estado chileno? Moretti não é homem de se meter num projeto por mero desígnio pedagógico. E a prova disso é que Santiago, Itália - como o título sugere - tem um caminho a fazer, não apenas geográfico mas de relação com a atualidade. Entenda-se: sondar os eventos dos anos 1970, no Chile, significa chegar à importante ação de acolhimento que a Embaixada de Itália teve, na altura, para com os refugiados políticos. Um elogio que se impõe ser feito em plena era da política anti-imigração do governo italiano. Eis o "golpe" cívico de Moretti.

Com um vasto painel de entrevistados, entre os quais os realizadores chilenos Patricio Guzmán (Nostalgia da Luz) e Miguel Littín (Actas de Marusia) - cujas filmografias estão intimamente ligadas à história política do país -, o documentário segue os relatos da alegria gerada pela eleição de Salvador Allende e a subsequente queda trágica do regime democrático, com a atmosfera que se gerou e os ataques àqueles que advogavam ideias de igualdade e liberdade, num genuíno espírito coletivo. As histórias pessoais de tortura misturam-se com uma visão mais abrangente dos acontecimentos, e então chega-se ao essencial: o modo como estes opositores das forças de Pinochet foram recebidos na Embaixada italiana num ambiente de solidariedade e confraternização. Encontraram no asilo uma nova esperança.

Intercalando os depoimentos com algumas imagens documentais, é sobretudo desse fluxo de palavras ("as palavras são importantes", já gritava Moretti em Palombella Rossa) e, por vezes, de silêncios comovidos, que se faz Santiago, Itália. Um documentário que começa por dar uma falsa sensação de abordagem convencional para afinal se revelar no percurso e nos detalhes. Veja-se, por exemplo, a maneira como Moretti capta a "personagem" que existe num ser humano: uma mulher, com jeitos de diva, que relata o seu caso de tortura como quem está a falar de manicura... Essa não formatação da vítima, essa atenção ao diverso, é também uma qualidade de quem sabe observar o outro. Porém, é ainda noutra particularidade que a índole do cineasta se estabelece. Dando voz a dois militares, isoladamente, para ter também o seu ponto de vista nesta recolha, a certa altura, um deles indigna-se com as perguntas e diz que tinha sido convocado para uma entrevista imparcial. Ao que Moretti, na sua assertividade refrescante à frente da câmara (na única vez que o faz), responde: "Eu não sou imparcial".

Este é também o desafio que se lança ao espectador, medir o grau de (im)parcialidade para com o que acontece à sua volta. E a beleza de uma tomada de posição é quanto basta para tornar Santiago, Itália um documento pleno de fraternidade, contra o veneno das sociedades individualistas.

Classificação: *** Bom