As 150 personagens de Plácido Domingo, a estrela de ópera recordista

É uma das vozes mais conceituadas do canto lírico no mundo e está em Lisboa para apresentar o concurso Operalia, que criou há 25 anos, para captar jovens talento. De tenor a barítono, aos 77 anos a reforma de Plácido Domingo parece não estar sequer para breve.

Em seis décadas de carreira, interpretou 150 personagens e fez mais de 4 mil atuações. Aos 77 anos, Plácido Domingo, o tenor agora barítono, já atuou mais vezes do que qualquer outro cantor lírico no mundo e parar parece ainda nem fazer parte dos planos.

Ultrapassou até o célebre tenor italiano Enrico Caruso, que completou a sua carreira na pele de 60 personagens. Em agosto, um dos rostos mais reconhecidos da música erudita contemporânea não deixa margem para um novo recorde ao representar a sua 150ª personagem, em "The Pearl Fishers", de Bizet, com exibição no Festival de Salzburg, Áustria.

Interpretou Mozart, Richard Wagner, Georg Friedrich Händel e Giuseppe Verdi, e esteve debaixo da batuta de grandes maestros, como Herbert von Karajan, James Levine e Carlos Kleiber. Plácido Domingo passou ainda por todos os grandes centros operísticos mundiais e é hoje diretor-geral da Ópera de Los Angeles.

Não apenas de grandes obras clássicas se construiu a carreira de Plácido Domingo. O intérprete esteve inclusive ao serviço de eventos desportivos - nos Jogos Olímpicos de verão, em Pequim, ou a cantar o hino do Real Madrid - e como cabeça de cartaz do Central Park - onde um dia reuniu uma plateia de 400 mil pessoas.

Em espanhol (língua materna), inglês, alemão, italiano ou francês, parece não haver limites para a estrela contemporânea de ópera, que não para de criar recordes. Plácido está até gravado nas páginas do Guiness Book, o livro de recordes, por ter recebido uma ovação de 1hora e 20 minutos, depois de ter improvisado "Lá Bohéme" na Ópera de Viena.

De tenor a barítono, e transformador de gerações

Com uma longa carreira como tenor, agora como barítono, gravou ainda discos com canções populares, pop e folk e representou em grandes musicais, como "Os Miseráveis".

Começou como a maioria dos cantores líricos masculinos, em registo baritonal. O auge da sua carreira brotou, contudo, quando deu início às representações como tenor, tornando-se uma das vozes mais inconfundíveis no mundo da ópera.

Mas mais de 60 anos de uma carreira regida quase na íntegra em modo tenor trouxeram algumas preocupações. Já na década de 70, Maria Callas, considerada a maior intérprete feminina de ópera de todos os tempos, alertava o cantor: "Estás a cantar demasiado". À medida que os anos foram avançando, as recomendações foram sendo cada vez mais comuns: era melhor que Plácido se reformasse enquanto estava no seu auge, em vez de deixar que a sua voz fosse consumida pelo peso do tempo. Quando as notas agudas começaram a mostrar sinais de fraqueza, Plácido decidiu regressar ao palco como barítono no seu papel n.º 149 - como Miller, na obra de Verdi "Luisa Miller" -, de forma a conseguir aguentar uma carreira mais longínqua.

Em conversa com o DN, o musicólogo e especialista em música lírica Bernardo Mariano diz que a mudança de registo vocal é um "caminho natural" para quem quer continuar no palco por muitos anos. Natural, não "normal", porque a verdade é que a maioria dos profissionais líricos nem sequer mantém uma carreira já com a idade de Plácido Domingo.

O entusiasmo de Plácido pela sua profissão não se esgota e o cantor lírico quer manter-se na linha da frente do que as novas gerações têm para mostrar. Há 25 anos que Plácido Domingo viaja o mundo com o maior concurso de ópera a nível mundial às costas. O concurso Operalia está em Lisboa até setembro à procura de jovens talentos.

O contacto com as novas gerações de intérpretes líricos fá-lo crer que os desafios mudaram drasticamente nos últimos 50 anos. Durante uma conferência de imprensa sobre a apresentação do Operalia em Lisboa, Plácido lembrou que "no passado, era suficiente uma grande voz, porque o público não era tão exigente com a interpretação teatral", mas "hoje não é assim". Há mais concorrência e é preciso sobressair no meio da multidão.

Com a mudança no registo vocal, é provável que o músico não volte a interpretar papéis principais, normalmente destinados a tenores. Mas Plácido quer continuar a alimentar a carreira e tem até já prevista a sua 151.º interpretação, desta vez numa obra de Manuel Moreno Penella, "El Gato Montés", na Ópera de Los Angeles.

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