'O Faisão' - quando Agustina escreveu um conto para o DN em 1965

Este O Faisão, de Agustina Bessa Luís, foi publicado no Diário de Notícias de 25 de dezembro de 1965. Hoje, dia da morte da escritora, aos 96 anos, voltamos a publicar o conto.

Esse Natal passei-o no lago de Garda. Era um lugar inquietante, com algo de um porto levantino que se corrompeu a ser estância de moda. E no inverno, com o soprar do vento alpino, o lago abria-se em cachões de chumbo, gemia como uma mulher no parto. Eu vivia numa casa à beira da água, uma estranha casa amarela com girassóis à entrada. Lawrence habitara perto, a dois quilómetros apenas; e eu pensava no encontro amável que seria o daquele homem numa tarde de chuva, com o seu gorro preto e um caderno de versos. Sentei-me por detrás da janela; o chá sabia a sabão, provavelmente alguém lavara escrupulosamente as chávenas, que tinham dióspiros pintados. Dióspiros ou pequenas begónias, não me lembro. Não havia luz elétrica, um faisão magro tinha sido cozinhado num fogo de carvão; era um bicho esquelético, revestido de trufas mas nem por isso mais apresentável. Esperei até às onze horas pelos meus convidados; não vieram, e então jantei. Magnífica noite patriarcal, com o bramido do lago e o crepitante tremer dos juncos à beira da água! Acendi dez velas azuis e vesti outro casaco de lã por cima do vestido decotado. No inverno sempre me visto mal, sempre me foge a alma para o mistério da hibernação, o sono dos ursos polares e o recolhimento dos esquilos. Cândido estalar de folhas secas, o cheiro opaco das peles onde a respiração se condensa! O cataléptico inverno, com o seu obscuro êxtase, a profética doçura do Advento, estação sem risos, religiosa, digna e profundamente compatível com o espírito. Eu deitei três pedrinhas de açúcar na minha xícara, e antes de pegar na colher ouvi uma voz autoritária, mas levíssima:

- Acho que estará demasiado doce.

Voltei-me. Não lhes disse que era uma sala quadrada, com quatro metros por cinco, não era bem quadrada, como podem ver. No ângulo da esquerda estava de pé um senhor extremamente bem-trajado, de rosto distinto e que se esforçava por parecer louco. Não o conseguia. Via-se que fora esmeradamente educado na infância, e só podia parecer algo excêntrico. É um inglês - pensei -; são bastante conversáveis, se admitimos que desfrutam duma razão periclitante mas sobre-humana.

- Sou David Herbert Lawrence - disse ele. Não esperava isso, e levantei-me com precipitação.

- Seja bem-vindo. Há ainda faisão assado que não é mau. É um faisão sirmático. - Ele deitou um olhar de aflição para a mesa onde rechinavam as velas que, por baixo da pintura, eram de horrível sebo. Não achou convidativa a ave triste com os ossos denegridos sob as trufas, e voltou a cabeça evasivamente. - Feliz noite de Natal - acrescentei.

Lawrence sorriu com benevolência e pousou o seu chapéu de feltro, um borsalino cinzento. Era um homem muito decente, limpou os pés duas vezes antes de se aproximar. Depois apanhou o guardanapo que me tinha caído dos joelhos e entregou-mo delicadamente. As pessoas não reparam nestas sugestões do carácter, mas toda uma obra escrita, propícia a ser queimada na Chaminé do Rei, não prova a simples, sincera compleição de um autor; enquanto os seus pequenos gestos de convívio, a maneira de pegar num objeto sem dar a impressão de se apoderar dele, o modo como entra numa casa sem dar a ideia de que espera demoli-la com o sopro dos seus pulmões, isso define o homem que muitas vezes o mundo recusou. A obra representa a crise e não a norma. Lawrence tomou lugar numa cadeira vitoriana e pôs-se a falar com animação e argúcia.

- Feliz noite de Natal... Contudo, a senhora e eu estamos muito distantes dos nossos costumes, da nossa família, dos bons regalos da meninice, do rum a arder, das coroas de azevinho. Não vejo na sua mesa os severos pratos de abstinência, o azeite de oliveira e as fritas de mel. Para milhões de seres, durante muitos séculos, o Natal foi característica de cada rito; havia decerto, para os mais velhos, um estremecimento fúnebre ao ver vazios os lugares dos ausentes, ou preenchidos com uma alegria terrível. Sim, terrível... - Ele sorriu e estendeu sobre a mesa a sua mão febril. - Quando eu era criança, sempre dormia vestido na noite de Natal. E pensava que um anjo me encontraria pronto para viajar com ele, e me levava... Não é estranho?

- Era um pensamento discreto, mais nada - disse-lhe. Ofereci-lhe chá, mas ele recusou, ainda que tivesse o aspeto exangue e os lábios trémulos.

- Sempre fui discreto, as pessoas não perceberam que ser discreto é o contrário de ser sensato. A discrição pode levar-nos a ser perseguidos, a sofrer julgamentos infames. A sensatez contemporiza, renuncia; a discrição não pactua nunca, espera, confia, convoca, reserva-se. - Olhou para mim bem nos olhos. - O que significa torre de marfim? Ebúrneo é o rosto do que medita, sem paixão, nos mistérios da terra e do céu.

- Pode ser... - E eu pousei a minha mão na borda da mesa. Era uma sólida mesa de nogueira, e eu cobrira-a com uma toalha de estopa, único penhor do meu país e da minha casta. Tornara-se maleável e fina, do muito que a usara. Ela lembrava-me aquele canto escuro da cozinha onde vinham lavar as mãos os criados e os amos, antes de cear; o fumo do petróleo subia das candeias como um risco de grafite. Pensativo Natal era nesse tempo, discreto... Eu certifiquei-me de que não havia mais chá dentro do bule, teria de tomar a minha dose tal como estava, demasiado doce. Nesse momento chegaram os meus convidados; tinham bebido um pouco e riam-se alto, ouvia-os a cem metros de casa, procedendo a manobras com o carro. A chuva não era muita, mas o vento continuava a estalar as canas no lago. Lawrence levantou-se e despediu-se corretamente. Tinha uma cara surpreendente, de quem sofreu um desgosto anterior à própria razão; como se tivesse presenciado a destruição do amor e lhe sobrevivesse. Submergia com palavras não sabia que medo antiquíssimo e desprovido de memória.

- Esta noite nasce outra vez o Filho de Deus Invisível. - Fez uma pausa breve e disse: - Muitas vezes pensei que me aproximava, que sabia... Restava-me sempre a deceção e o desespero. Foi para minorar a amargura de adorarmos um Deus Invisível que nasceu Jesus. Era um rosto à nossa imagem, mas, porque vinha da parte do Deus Invisível, não o quiseram. Foi por isso. Celebramos a vinda do Homem, mas repelimos o seu Espírito.

Ele pousou um dedo nos lábios. - Discrição, e feliz Natal...

Não o vi sair. Eu retirava da mesa o faisão e deitava fora a minha xícara de chá. Encontraram-me a chorar.

- Não é nada - disse. - Não tenho jantar para vocês.

E fomos a Sirmione comer ravioli.

Ler mais

Exclusivos