Mynda Guevara: o rap também é para mulheres

A rapper da Cova da Moura tem 22 anos e é uma das mulheres retratadas no documentário "Mulheres do meu País", de Raquel Freire. Passa esta quinta-feira no cinema São Jorge, em antecipação ao Dia da Mulher.

No braço esquerdo, uma tatuagem clama "Hasta la vitória" e "female power". Ela explica que escolheu a imagem de uma leoa porque tem a ver com a sua personalidade "muito selvagem". É uma "guerreira da fé", como também tem escrito na pele. Mynda Guevara tem 22 anos e é rapper. Quem a vê a sair do trabalho, pelas cinco da tarde, embrulhada num casaco e com os olhos cansados, depois de oito horas ao balcão de um restaurante no centro comercial Alegro, não imagina sequer a garra que ela tem. É preciso vê-la em palco. O microfone na mão, os brilhantes na cara, as palavras que lhe vêm do fundo da alma em crioulo.

Mynda não é o seu nome verdadeiro, mas ela nunca gostou do nome, recusa-se sequer a dizer qual é. "Em casa chamam-me Nana mas, na rua, na adolescência, começaram a chamar-me Mynda, que é um diminutivo do meu nome. Só assim, Mynda, gosto. Sou eu." O Guevara surgiu mais tarde, teria uns 16 anos e já cantava. Sentiu "que tinha de pôr ali algum extra para dar um power ao nome": "Na altura o meu irmão usava bué cenas de Che Guevara e eu fui pesquisar sobre ele e tem tudo a ver com o que eu transmito nas minhas músicas, com a revolução, com o assumir o poder. Gostei e decidi pôr o Guevara no nome." E assim ficou: Mynda Guevara.

Cresceu na Cova da Moura, na Amadora, com a mãe, o irmão e a irmã, ambos mais velhos. "Não vou dizer que é fácil crescer na Cova da Moura. Uma criança ali vê coisas que se calhar não são para a idade dela, o ambiente não é fácil. Há caminhos certos e caminhos errados em todo o lado mas ali é bastante intenso, é mais fácil haver um desvio do bem para o mal. É muito importante a educação que se tem. A minha mãe sempre foi muito cuidadosa com a educação que nos dava em casa. Se uma pessoa tiver a cabeça no lugar e souber o que quer, acho que pode correr bem."

Crianças brincam nas ruas esburacadas da Cova da Moura, grupos de rapazes conversam encostados às paredes, mulheres passam apressadas com os sacos das compras. Mynda procura os últimos raios de sol do dia e faz uma cara séria para a fotografia. Aquele é o seu mundo, "para o bem e para o mal", como canta numa das suas música, Nha Mundo.

"Sempre ouvi muita música, sobretudo hip hop por influência do meu irmão, que é oito anos mais velho. Ele ouvia muito rap interventivo, Chullage, Valete, Beto Di Guetto, Halloween. E eu apanhei esse bichinho do rap", conta. Foi também o irmão que a ouviu a cantar pela casa e a levou um dia para o Kova M Studio, onde estavam a precisar de uma voz feminina: "Não havia miúdas a cantar rap, era uma coisa só de rapazes." Mas ela não se deixou intimidar: "Eu gosto de mostrar às pessoas o que faço. Sou uma pessoa tímida mas no palco eu sou livre. No palco esqueço tudo."

Fez uma dupla com Ridel, um rapper da Cova da Moura, e fizeram algumas canções juntos mas pouco depois ele emigrou e Mynda não quis parar: "Decidi continuar sozinha. E tem sido assim até hoje." A primeira música que escreveu foi Mudjer na Rap, que lançou em 2014.

"Era como se fosse o meu bilhete de identidade", diz Mynda sobre este tema. "Como se fosse o meu currículo, que eu dou às pessoas para elas me conhecerem." "A letra diz que há uma mulher a cantar rap e depois fala das várias dificuldades que temos para entrar neste mundo. Há muitas mulheres na música, mas no rap, sobretudo em Portugal, ainda há muito preconceito. Nós, principalmente no rap crioulo, quase temos de estar com uma bandeira a dizer: estamos cá. As pessoas ainda ficam espantadas quando me perguntam o que faço e eu digo que sou rapper, ainda fazem uma cara estranha."

O tema é recorrente nas suas canções. Ainda no ano passado, lançou Ken ki fla em que pergunta: quem é que diz que as mulheres não podem cantar rap? "É uma revolta. É uma pergunta mas não fico à espera da resposta. A resposta sou eu que a dou", explica Mynda. O vídeo de Ken ki fla começa com uma citação a ativista feminista Malala Yousafzai: "Eu elevo a minha voz - não para gritar mas para que aquelas sem voz possam ser ouvidas. Não podemos ser bem sucedidas se metade de nós estão contidas." É uma frase de que Mynda gosta muito: "A minha luta é mostrar que as mulheres também podem fazer rap, eu sou a prova disso. Mas eu não quero ser a única, quero que sejamos todas. Gostava que houvesse mais mulheres ativas." Vai buscar inspiração às poucas rappers portuguesas, como Tzona, e, lá fora, Lauryn Hill, Queen Latifah e outras, menos conhecidas como IMDDB, Nadia Rose, Yonga M.A.

Escreve em crioulo porque foi assim desde sempre, é a língua natural para o seu rap. Mas no outro dia escreveu uma música para a mãe e como habitualmente fala português com a mãe acabou por lhe sair naturalmente em português. "Foi fácil também. Fiquei a pensar que tenho de escrever mais em português. No rap, a letra é importante. Eu quero comunicar algo. Por isso, sei que se as pessoas não entendem o que eu digo isso afasta-as. O crioulo pode ser uma barreira, se calhar ainda não cheguei a outros públicos por causa da língua", reflete. E conclui: "Há pessoas que fazem hits e há pessoas que fazem clássicos, eu quero fazer clássicos."

Mynda estudou até ao 12º ano e trabalha num restaurante para ter dinheiro que lhe permita fazer rap. "O que eu quero é fazer música. É esse o meu objetivo. E acho que estou no caminho certo", diz. Dá muitos concertos, na zona de Lisboa mas também já pelo país fora, já cantou no B.Leza, na Festa do Avante e num palco secundário do Meo Sudoeste. Uma das suas músicas vai estar na banda sonora de Gabriel, filme de Nuno Bernardo que se estreia no dia 21 deste mês.

Entretanto, nos últimos dois anos, Mynda tem estado focada no seu EP, que se vai chamar Mudjer na Rap. "Escrevi as músicas, estruturei o EP, selecionei os beats, falei com quem tinha de falar por causa dos instrumentais, fiz as músicas quase todas com o Charlie, gravámos, fizemos os vídeos" São seis músicas, das quais três já estão no Youtube: Nha Mundo, Ken ki Fla e Bu Silêncio. As outras irão saindo este ano. "E quando acabar faço um evento e lanço um EP, mas ainda não sei exatamente em que formato."

É ela que faz tudo. "Da cabeça aos pés. Escrevo as canções e pago o estúdio. Quando quero fazer um vídeo vejo os lugares em que quero filmar, como é que eu vou estar vestida, o penteado, falo com as pessoas que quero para entrar no vídeo. Sou eu que organizo tudo. Saio do trabalho e faço tudo eu. Se quiser ir dar um concerto ou troco folgas ou meto uns dias de férias. Arranja-se sempre uma maneira. Gostava de estar agenciada e de não ter preocupações, mas eu até gosto de fazer as coisas, não é isso, só é cansativo. Tens de meter o cansaço do trabalho de lado para te dedicares àquilo, é complicado gerir as duas cenas. Mas se eu ponho uma coisa na cabeça tenho de a fazer." Ela garante que não vai desistir. "Quem espera sempre alcança, eu não tenho pressa. Eu sei que o meu dia vai chegar. Sempre acreditei em mim e cada vez acredito mais."

"Eu acho que tenho uma mente um bocado revolucionária porque não tenho medo. Faço o rap como eu quero e digo o que eu quero", diz Mynda Guevara no filme Mulheres do Meu País, que tem ante-estreia esta quinta-feira no Cinema São Jorge, em Lisboa, como forma de celebrar o Dia da Mulher.

O documentário de Raquel Freire conta as histórias de várias mulheres que, cada uma à sua maneira, são heroínas todos os dias. Uma empregada de limpeza, uma socióloga, uma mulher transgénero, uma pescadora, uma empresária, uma ativista cigana, uma bailarina, uma bombeira, uma operária, duas artesãs, uma sobrevivente de violência doméstica, uma geneticista. E Mynda Guevara, esta rapper da Cova da Moura, com uma leoa tatuada no braço e nome de guerreira, que diz: "O meu maior sonho é deixarem-me sonhar."

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