Morreu Jorge Gil, o homem que nos pôs "Em Órbita"

Foi o autor do programa que se estreou em 1965 no Rádio Clube Português e terminou em 2001 na Antena 2. Jorge Gil morreu na passada quarta-feira.

Arquiteto e pintor, Jorge Gil também estudou escultura e filosofia, mas foi a música que lhe deu notoriedade. Foi pioneiro em Portugal na divulgação da música anglo-saxónica, primeiro, e depois da chamada "nova música antiga" - ambas no programa de rádio Em Órbita.

"No dia 1 de Abril de 1965 ouvia-se pela primeira vez no FM do Rádio Clube Português o tema Revenge, um instrumental dos Kinks que ficaria como indicativo do programa durante largos anos. Tinha nascido o Em Órbita." A memória foi partilhada este domingo por Júlio Isidro, no seu Facebook - o apresentador de rádio e televisão foi uma das vozes do programa, durante três anos, depois de Pedro Castelo e Cândido Mota, e antes de Jaime Fernandes e Fernando Quinas.

Os criadores do programa, que se ouvia das 19.00 às 20.00 no então Rádio Clube Português, foram Jorge Gi e Pedro Soares Albergaria, jovens muito atentos ao que se fazia "lá fora". O seu objetivo era divulgar as "formas mais representativas da música popular de expressão inglesa" - algo que não se fazia então na rádio portuguesa. Alguém da divulgação da música anglo-saxónica, os autores queriam dar destaque ao LP em detrimento do single, e aos autores-intérpretes em detrimento dos intérpretes que não criavam os seus temas. De Bob Dylan aos Beatles, passando por Led Zeppelin, Joan Baez, Beach Boys, Rolling Stones, Deep Purple, Pink Floyd ou Janis Joplin, foram muitos os nomes que chegaram a muitos portugueses através do Em Órbita.

Em agosto de 1967, foi aberta uma exceção e ouviu-se uma canção em português: A Lenda de El-Rei D. Sebastião, do Quarteto 1111. A decisão de passar essa música não foi consensual na equipa do programa e mereceu uma justificação aos ouvintes, escrita por Jorge Gil e lida por Cândido Mota. Nesse ano, o Em Órbita foi distinguido com dois prestigiosos galardões: o Prémio da Casa da Imprensa (para melhor programa de rádio) e o Prémio Internacional Ondas.

Em 1969, nasceram as Novas Aventuras do Em Órbita, com a introdução de música erudita. A partir de 1974, com apresentação de João David Nunes, o programa passou a dedicar-se inteiramente à música clássica, com destaque para o repertório barroco. "Foi uma opção consciente. A música anglo-saxónica já nada me dizia. A minha transformação operou-se enquanto estudante de Arquitetura, em Belas-Artes, com as lições de Conjugação das Três Artes, de Manuel Rio de Carvalho", explicou mais tarde Jorge Gil, que se manteve como autor do programa que, em 1979, passou para a Rádio Comercial.

A partir de 1985, o Em Órbita passou também a promover concertos. "O combate de Jorge Gil, que ficara sozinho à frente do programa, começou pouco a pouco a surtir efeito. Os níveis de audiência começaram de novo a subir (no início da década de 80 eram já dos mais altos da rádio portuguesa) e a consequência mais evidente deste fenómeno que se foi verificando foi uma procura crescente de gravações de música antiga no mercado discográfico nacional", escreveu Rui Vieira Nery por ocasião do 25º aniversário do programa. O Em Órbita mudou-se em 1998 para a Antena 2 (às sextas-feiras, das 23:00 à 1:00). Chegou a ser o programa com mais audiência nessa estação.

"A música - e chamo só música, sem adjetivos - atingiu um brilhantismo inexcedível naquele período [do final do século XIV até ao século XVIII]. Além da música, há também um tipo de espiritualidade não confessional que não teve sucedâneo nos séculos seguintes", defendeu, numa entrevista em 2000. Nesse texto, o jornalista Luís Pinheiro de Almeida contava: "Jorge Gil arquiva em casa "milhares de páginas" com os textos do programa. "Cada programa tem 20 páginas de texto". Recusa-se a publicar os textos, porque, diz, são "textos orais, unicamente para serem lidos na rádio"."

O Em Órbita manteve-se no ar até 2001. Em 2015, a Antena 1 assinalou os 50 anos do programa com uma emissão especial, conduzida por José Macedo.

Jorge Gil foi responsável pelos Concertos Portugal Telecom/ Em Órbita (1997-2003) e em 2005 foi convidado a dirigir o Festival Internacional de Música de Mafra.