Morreu a atriz Mariema. Não gostava de dizer quantos anos tinha

A atriz Mariema morreu no domingo à noite, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

A atriz Mariema não gostava de dar a data de nascimento. Mariema nasceu em Lisboa, em Campo de Ourique. Jogava vólei no Benfica e foi no duche, a cantarolar com as amigas, que descobriu que gostava de cantar. "Íamos às casas de fado do Bairro Alto, o que na altura era muito malvisto", contou, numa entrevista ao DN em 2009. Deu nas vistas a cantar no Lar Português com o seu cabelo loiro ("julgavam que eu era sueca") e a voz inconfundível.

"Um dia, ligaram-me do Parque Mayer para ir fazer provas ao Teatro ABC." Foi assim que Mariema desistiu do sonho de ser hospedeira de bordo para se dedicar ao teatro. Estreou-se com 18 anos em É Regar e Pôr ao Luar, em 1965, e aprendeu a ser atriz nas tábuas, errando e repetindo, vendo Humberto Madeira e Eugénio Salvador. Tornou-se popular mas nunca foi uma grande estrela: "A minha carreira foi um bocado difícil, nem sei como é que consegui chegar até onde cheguei, sempre a acarretar carroças", dizia, sempre com bom humor. Entre os espetáculos em que participou destacam-se Ai Venham Vê-Las (em que contracena com Fernanda Borsatti na sua primeira rábula, Gémeas), Sopa no Mel e Pão, Pão, Queijo, Queijo... Também atuou no Variedades na revista A Ponte a Pé, e estabeleceu durante três temporadas par com José Viana. Foi nesta altura a criadora do célebre O Fado Mora em Lisboa.

O encenador Jorge Silva Melo lembra-se de a ver no Parque Mayer, "nos últimos anos da ditadura": "Era uma atriz extraordinária", diz ao DN, reagindo à notícia da sua morte. "Tinha uma indolência. Parecia sempre ausente mas estava muito presente", lembra, sobre a sua maneira de representar. "Era como se houvesse uma neblina no seu olhar. Como se dissesse: admirem-me se faz favor." "Qualquer grosseria que lhe saísse em palco, e na revista havia muitas, tinha sempre algo diferente, ela dava-lhe uma grandiosidade." Segundo Silva Melo, Ribeirinho quis convencê-la a experimentar o então chamado "teatro declamado" mas ela não aceitou por não se achar preparada.

Em 2009, Jorge Silva Melo telefonou-lhe a desafiá-la a entrar no espetáculo Seis Personagens à Procura de Autor, de Pirandello, que os Artistas Unidos iam apresentar no São Luiz. "Fiquei um bocadinho acanhada por chegar a uma companhia onde não conhecia ninguém, não parece mas sou muito envergonhada", contou então ao DN. "É uma experiência totalmente diferente daquilo que tenho feito."

Nessa altura, já só andava com a ajuda de uma bengala, devido a um problema no joelho, e que foi a sua companhia nos últimos anos. No entanto, afirmava: "Só deixarei de representar quando me obrigarem."

Mariema colaborou com Filipe La Féria nos programas Grande Noite e nos musicais Amália e My Fair Lady. Mais tarde, entrou na série da RTP Conta-Me Como Foi onde interpretou a Menina Emília. Entrou em filmes como Refrigerantes e Canções de Amor, de Luís Galvão Teles, Axilas, de José Fonseca e Costa, e Os Gatos Não Têm Vertigens, de António-Pedro Vasconcelos.

A sua última presença em palco foi em As Três (Velhas)Irmãs, adaptação de Tchekhov que esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, em 2015. Na encenação de Martim Pedroso, Mariema contracenava com Graça Lobo e Paula Só.

O velório da atriz Mariema, que morreu no domingo à noite, realiza-se a partir das 18.00 de terça-feira na Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, Lisboa, disse hoje à Lusa fonte da Casa do Artista. Na quarta-feira, será realizada, no mesmo local, às 10.30, uma missa de corpo presente, saindo depois o funeral para o Cemitério dos Prazeres, onde a atriz ficará sepultada no talhão dos artistas, referiu a mesma fonte.

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