Ministra da Cultura quer reabrir o Museu de Arte Popular

Reabertura do museu integra-se num plano nacional para recuperar as artes e ofícios portugueses dando-lhe um potencial económico. Primeira iniciativa dedicada à cestaria realiza-se em julho.

Manuel Ferreira estende as mãos para mostrar a pele gretada, os dedos grossos, as articulações salientes. As mãos são, há 31 anos, o seu principal instrumento de trabalho. É com elas que mede a "macheia" de bunho com que começa cada peça, que ata os caules num molho, que molda a primeira curva, que puxa com força a agulha e entrelaça as meadas até formar uma espécie de um tecido grosso e resistente. Dali há de nascer um banco, uma cadeira, um sofá, uma cesta ou outra coisa qualquer que a imaginação queira e a técnica permita. "É um trabalho muito pesado para o corpo", diz Manuel Ferreira, de 64 anos, que já não consegue passar um dia inteiro sentado no seu banquinho nem tem a força que costumava ter. "Antes fazia dois bancos por dia, agora demoro dois dias para fazer um banco."

Sob o olhar atento da cadela Linda, o senhor Manuel trabalha todos os dias na oficina que fica na antiga Escola Prática de Infantaria de Santarém, ao lado da cesteira Maria das Neves. "Há 30 anos, éramos dez no curso do bunho e outros dez no curso de cestaria, agora só restamos nós. Os outros desistiram todos", explica. Por um lado porque o trabalho é pesado, por outro porque não rende assim tanto. "Para começar é preciso aprender, ter um espaço, ter os materiais, e depois trabalhar algum tempo até começar a ganhar algum dinheiro. E não é assim tão fácil. Os jovens preferem outros trabalhos." Na região, só há mais um artesão que trabalha o bunho.

É para tentar alterar um pouco esta situação que, em julho, Manuel Ferreira vai ser um dos mestres artesões a participar no "summer camp" sobre tecnologias de cestaria portuguesa que vai acontecer no Museu de Arte Popular (MAP), em Lisboa. O "summer camp" é uma iniciativa do Ministério da Cultura que tem planos não só para programar mais atividades naquele espaço em Belém como também para reabrir o museu de forma permanente, revela ao DN Graça Fonseca. "O MAP tem um espólio extraordinário. Neste momento o museu está fechado e todo o seu acervo está no Museu de Etnologia, mas temos planos para reabri-lo." Claro que os planos estão sujeitos ao resultado das eleições legislativas em outubro próximo mas a ministra quer "deixar tudo pronto para o Governo seguinte poder reabrir o museu até 2020", explica.

Recuperar o "saber fazer português"

"Hoje em dia, felizmente, as artes e ofícios deixaram de ser uma coisa rejeitada pelas novas gerações, já não têm problemas em trabalhar com as mãos", diz Graça Fonseca, sublinhando que os jovens estão a redescobrir esse tipo de trabalho manual que além de ter uma componente de sustentabilidade (ligada à ecologia) pode também abrir possibilidades de negócio. "Há aqui uma oportunidade, julgamos nós, de regressar às artes e ofícios e de recuperar o saber fazer português, quer de uma perspetiva cultural, ou seja, o património imaterial, quer numa perspetiva de ativo económico."

Para isso, o Ministério da Cultura, em parceria com a Fundação Michelangelo e com a colaboração da Fundação Ricardo Espírito Santo, começou por programar uma iniciativa ligada à cestaria, "uma das técnicas mais antigas humanidade". "Hoje em dia, em Portugal estima-se que a idade média dos cesteiros ande à volta dos 70 anos, estamos com um saber fazer bastante envelhecido e existem evidentes problemas para os que ainda têm oficinas em conseguir atrair aprendizes, novos a quem passar o conhecimento, e também têm dificuldade de acesso ao mercado internacional e no fundo na valorização da sua arte e do seu produto", explica a ministra.

O "summer camp" que decorre de 15 de agosto a 2 de julho será, antes de mais, uma ação de formação em que participam cinco mestres artesãos, de regiões diferentes do país e que trazem consigo diferentes técnicas, e 10 aprendizes (cinco nacionais e cinco estrangeiros). A ação de formação decorre no MAP e, simultaneamente, haverá uma exposição com algumas das peças da coleção de cestaria do MAP e outras atividades abertas ao público. "A nossa ideia é que durante 15 dias o museu esteja aberto e vivo e as pessoas possam vir cá conhecer a coleção de cestaria, contactar com os artesãos, perceber como é que se faz." Para setembro está prevista uma exposição maior, em que além da coleção de cestaria vão estar também as peças que foram criadas pelos aprendizes, resultado do "summer camp".

Depois de se avaliar o sucesso deste "summer camp", o passo seguinte é tornar este tipo de iniciativas mais regulares. Para isso, a ministra da Cultura pretende criar o Plano Nacional do Saber Fazer Português, assente em quatro pilares: preservação, educação, capacitação e promoção.

Primeiro, há que conhecer artes e ofícios de Portugal, diz Graça Fonseca. "Não há um conhecimento estruturado do país, de onde é que estão as unidades produtivas, onde estão os diferentes artesãos, qual o nível de risco. Há um trabalho a fazer de identificação e avaliação." No caso da cestaria, esse mapeamento está já a ser feito pelas curadoras da coleção de cestaria, que trabalham no Museu de Etnologia.

Depois, há a educação - o passar o conhecimento. "Temos de ter programas de aprendizado, transformar este summer camp em algo estruturado e recorrente. Para isso, teremos de trabalhar com o Ministério da Educação, as escolas e os centros profissionais", explica.

A capacitação passa por "trabalhar junto das unidades de produção que existam e dos indivíduos que têm o saber", o que será feito em colaboração com o Ministério do Trabalho e o Instituto de Formação Profissional. "A ideia é capacitar as pessoas para terem um plano de negócios, a forma de comunicar o seu produto e de chegar ao mercado. Sabemos que muitos dos artesãos têm problemas nesta fase."

E depois "um último eixo que é importante, que é a promoção", explica Graça Fonseca. "É preciso chegar ao mercado nacional e internacional - isso é fundamental." Para isso, conta com as parcerias do Turismo e AICEP. "Estes produtos são gourmet e estão muito bem posicionados para o mercado do luxo mas também para um mercado ligado à sustentabilidade", em ambos os casos podem ter um papel importante não só para a economia como para a promoção da imagem do país e para o turismo.

Qual o papel do Museu de Arte Popular?

O Museu de Arte Popular foi inaugurado em 1948 e nasceu da reformulação do antigo pavilhão criado para a Exposição do Mundo Português (1940). O MAP teve uma vida atribulada, sobretudo, após o 25 de Abril. Em 2000 iniciaram-se obras de requalificação do museu que tinha entrado em decadência e que levariam ao encerramento do espaço em 2003. Em 2006, a então ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, anunciou que o MAP iria ser transformado em Museu da Língua Portuguesa. Mas nem todos gostaram das notícias.

O movimento pela reabertura do MAP incluiu a criação de um blogue e de uma petição online que reuniu mais de três mil assinaturas. Em Dezembro desse ano, a nova ministra, Gabriela Canavilhas, anunciou que o museu "é para se manter tal como estava (...), dedicado à arte popular portuguesa". A reabertura aconteceu em 2010, sob a direção de Andreia Galvão, mas o projeto acabaria por fracassar.

Nos últimos anos, o MAP tem recebido exposições avulsas e nem sempre relacionadas com o tema do museu. O seu espólio encontra-se no Museu de Etnologia, que é na verdade quem tutela o espaço. Paulo Costa, diretor de Etnologia, é, por inerência, também o diretor do MAP.

"O museu tem uma história complicada", admite a ministra da Cultura. "Mas temos de ultrapassar isso." "Muitas destas técnicas de que estamos a falar estão representadas no museu", explica. Além da cestaria, a coleção integra cerâmica, azulejo, tapeçaria e muitas outras artes tradicionais. "Este museu foi constituído para mostrar o que é a arte popular portuguesa, não só temos as peças como temos toda a documentação, é um repositório de conhecimento que é muito importante quando pensamos em pegar neste saber para o reinventar", explica Graça Fonseca.

"O que nos queremos é reinstalar o museu na sua vocação original, de mostrar o que é a arte popular portuguesa, mas que seja um museu virado para o futuro. Não é num sentido saudosista. Para nos conseguirmos projetar o futuro convém conhecer o passado e perceber o presente. E portanto temos que conhecer bem a arte popular portuguesa, que é distinta das outras, temos que identificar o nosso ADN porque é isso que faz a diferença no mercado. E é a partir daqui que nós podemos projetar o futuro."

Para pensar a melhor maneira de concretizar esta ideia, o Ministério da Cultura está a criar um grupo informal de trabalho, de que farão partes personalidades como a artista Joana Vasconcelos, a historiadora e especialista em museologia Raquel Henriques da Silva e o jurista Gomes de Pinho que, além de administrador da Fundação Vieira da Silva, é também um grande colecionador de arte popular. Ter exposições permanentes e temporárias, abrir um espaço de oficinas, pensar em ligações com as escolas e com o mercado, programar atividades para o público mas também com a comunidade dos artesãos - são muitos os pormenores a debater. "Vamos discutir o que deve ser o museu de arte popular no século XXI e como pode funcionar", garante Graça Fonseca. "O potencial é enorme."

A ministra da Cultura espera, assim, ter tudo pronto antes das eleições para que o museu abra de novo as portas de forma permanente em 2020: "As verbas vão estar previstas no orçamento do próximo ano vamos e deixar para o próximo Governo tudo preparado quer para avançar para o plano nacional quer para organizar a reabertura do museu."

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.