Maurício, o criador da "Turma da Mónica": "Os brasileiros perderam a esperança"

Filho de poetas, cartoonista e empresário. Maurício de Sousa recordou o início da carreira e confessou como olha atualmente para os problemas de ordem política, económica e social do seu país, Brasil.

Em 1959, pela primeira vez, desenhou e deu cor ao vestido vermelho da destemida "Mónica" e criou também o característico cabelo espetado e a rebeldia do "Cebolinha". Mesmo com 82 anos, Maurício de Sousa, o principal rosto por detrás da famosa banda desenhada (BD) "Turma da Mónica", já conquistou tudo o que havia para conquistar, mas parar de trabalhar ainda nem sequer parece fazer parte dos planos. É o mais célebre e premiado cartoonista brasileiro e um dos mais reconhecidos a nível mundial. Numa curta entrevista ao DN, o autor e uma das cabeças de cartaz da Comic Con Portugal refletiu sobre os seus longos anos de carreira, como encontramos hoje a BD no mundo (inclusive em Portugal) e até sobre o estado político, económico e social do Brasil.

Rodeou-se de pequenos cadernos de folha fina e escurecida com cheiro a infância: eram os almanaques, livros e revistas que acompanharam gerações, com a "Mónica" e os seus amigos como protagonistas. Antes de começar a entrevista, Maurício sentou-se durante duas horas para ceder autógrafos e a sua energia parecia crescer com o tempo. Confessou, nos primeiros minutos de conversa, que o segredo estava em nunca perder o que há em nós como crianças.

Começava exatamente por aqui. Tem quase 60 anos de carreira [concluídos no próximo ano], mais de 80 de vida, mas o Maurício é conhecido por ser um jovem de espírito. Foi a BD que lhe trouxe isso ou é preciso ser-se assim para ser um criador de histórias que começam por ser lidas por crianças?

É preciso, sim. O "negócio" é não esquecer a infância, continuar ligado a tudo o que aconteceu connosco. Temos que estar sempre animados com a vida. Tomara que não amadureça muito, porque estou a gostar imenso destes primeiros anos de existência (risos).

Vamos então voltar ao início destes primeiros anos: o que era criar histórias aos quadradrinhos há 60 anos e agora? Algo mudou?

Em primeiro lugar, não sei se podíamos estar a fazer o que fazemos hoje se não tivéssemos a internet. A internet abriu uma janela monstruosa: conseguimos estar em todos os cantos com o mesmo tipo de mensagem. Tenho sempre a preocupação de que o nosso material tenha uma mensagem universal e comportamental de forma a que, ao enviar para outros países, só precise da tradução. Os hábitos e costumes traduzidos nas histórias não mudam.

Mas há 60 anos havia uma dúvida enorme em torno da BD. Não havia respeito. As famílias e os educadores achavam que era prejudicial ao desenvolvimento mental ou civilizado da criança. Atualmente já é alvo de estudo e de hábitos que se espalham pelo mundo. Hoje, é muito mais fácil permear as histórias aos quadradrinhos nas vidas das pessoas e principalmente das crianças.

Mas a realidade não é a mesma para todos os países...

Há países em que a BD está muito viva, outros em que quase está calada. Portugal pode crescer mais. Acho que a arte aqui ainda está tímida, mas não penso que a culpa seja dos artistas. Os investidores, as editoras, não têm coragem para acreditar na Banda Desenhada. Não é uma questão de falta de público. Se não há público é porque não há trabalho para mostrar.

Vive preocupado em prolongar a infância para miúdos e graúdos, mas quando analisa o estado atual do Brasil preocupa-o como é crescer no seu país hoje em dia?

Falo sempre para miúdos e graúdos. Costumo dizer que a língua do dia é a língua da hora, do que está a acontecer agora - daí a BD ser lida por tanto público diverso. E nesse agora, apesar das crises económicas, políticas e sociais a que assistimos no nosso país, é importante estarmos sempre preparados para crescer e ajudar os nossos filhos e netos a crescer bem também. Não podemos ter medo disso, mesmo que nos assuste.

E a si, assusta-o?

A mim não.

Não estamos a enfrentar uma nova era. Sacrificam-me por ser otimista. É lógico que temos que estar perto da realidade, mas temos o dever de esperar o melhor também. Hoje os brasileiros passam o dia com medo das crises que nos caem a seus pés. Já vivemos tantas crises e sobrevivemos. Isto não é novo - eu sei, porque já não é a primeira vez que vejo este filme. Resolvemos sempre.

É preciso estudar apenas um pouco para perceber que ninguém afunda por muito tempo. O ser humano é um sobrevivente por natureza. Por isso, não nos podemos assustar, porque isso só prejudica o nosso desenvolvimento natural. Neste momento, os brasileiros perderam qualquer esperança. Diria que estão céticos. Mas mais uma vez eu lembro: já passamos por isso. É uma questão de sobreviver outra vez.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.