Toda a história sem traição do MRPP

O jornalista Miguel Marujo realizou uma investigação sobre um dos partidos menos representativos eleitoralmente mas repleto de histórias da política à portuguesa ao longo de cinco décadas. E não é só de traição que se fala...

Pré-publicação de PCTP/MRPP - Morte aos Traidores

por Miguel Marujo

Tudo começa com o ar cansado do dirigente do PCTP/MRPP, Garcia Pereira, numa campanha eleitoral que esconde a luta de poder interna. Segue-se o regresso do "educador do povo", Arnaldo Matos que insulta o autor da investigação que é lançada hoje em livro, PCTP/MRPP Morte Aos Traidores, o jornalista Miguel Marujo. A partir desses momentos, é impossível ao autor não mergulhar no desafio que é compreender as cinco décadas de história de um partido quase sem bases mas muita verborreia, que foi rebelde no seu início e já nem vive desse passado. Um retrato histórico de um partido que deu muitos sociais democratas famosos e é apresentado hoje à tarde, 18.45, na FNAC do Chiado, por David Dinis.

Mário deixa de ser Mário. O pai que mata o filho

Em 66 palavras, escritas de forma seca, quase austera, António Pestana Garcia Pereira informa os juízes do Tribunal Constitucional numa folha simples, datilografada, que deixa o seu partido de sempre, ele que um mês e meio antes tinha sido o rosto que os portugueses reconheciam do PCTP/MRPP em mais umas eleições, depois do eclipse de Arnaldo Matos, ainda no início da década de 1980. Estamos a 25 de novembro de 2015 e Mário - é este o seu nome de código entre os camaradas do partido - deixa de vez de ser Mário.

"Vem por este meio e para todos os devidos e legais efeitos informar que já apresentou, no passado dia 18/11/2015, ao Comité Central do PCTP (PCTP/MRPP), partido político legalmente inscrito desde 18/2/1975, a sua demissão, com efeitos imediatos, que ora aqui formalmente confirma, pelo que requer sejam o respetivo registo e lista de membros do Comité Central devidamente retificados em conformidade", lê- se numa das duas volumosas pastas que constituem o processo político do PCTP/MRPP, depositado no Tribunal Constitucional.

Ao mundo, a nota que envia é mais zangada e segue depois das 18h00 dessa quarta- feira para a comunicação social. Aí, Garcia Pereira escreve na ortografia antiga: "Em virtude de, até ao momento (18h00 de 4.ª feira, 25/11), a actual direcção do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP) ter ostensivamente omitido por completo quer o facto em si, quer as razões que para ele invoquei, ao mesmo passo que todos os dias continuaram, continuam e pelos vistos irão continuar a ser produzidos contra a minha modesta pessoa, em particular no jornal online do Partido, permanentes ataques pessoais e imputações infamantes de toda a ordem, sem qualquer possibilidade de debate e que não só são falsos como já nada têm que ver com luta política, informo tão somente que, embora com uma enorme mágoa, mas também com a firme convicção de que a História não nos deixará de julgar a todos, me vi constrangido, como única alternativa com um mínimo de dignidade, a apresentar, no passado dia 18 de Novembro, a minha demissão.

Fi- lo por carta por mim redigida, datada, assinada e dirigida ao Comité Central do Partido e entregue em mão pelas 10h00 desse mesmo dia 18/11, e com os motivos e fundamentos que dela constam. Mas deixo claro que, fiel à minha postura de sempre, recuso prestar quaisquer declarações ou informações sobre esta matéria, pelo que quaisquer solicitações ou diligências nesse sentido serão liminar e totalmente rejeitadas."

São 215 palavras e um aviso final de que não contem com ele para ir para a rua lavar a roupa suja que, na internet, todos os dias é alimentada por Arnaldo Matos no Luta Popular, o jornal oficial do partido4. Consuma- se a rutura entre António Garcia Pereira e "alguém que considerava como um verdadeiro Amigo e até como um Pai"5, um dos quatro fundadores do MRPP e em tempos apelidado de "grande educador da classe operária", Arnaldo Matias de Matos.

O partido maoista que atrai gente que na democracia ocupa lugares- chave da política e da sociedade foi, sobretudo, nestes mais de 40 anos, um partido de dois rostos. Primeiro, Arnaldo Matos, até 1982, e já mais tarde Garcia Pereira, depois de uma longa travessia dos éme ‑erres a recomporem -se da saída daquele timoneiro.

Os dois não são apenas "verdadeiros amigos", com uma relação filial. Arnaldo é padrinho de António e partilham o exercício da advocacia. António Garcia Pereira continua na barra dos tribunais e, nos jornais, a escrita é a de um homem de esquerda, mas onde a política partidária já não cabe. Arnaldo Matos vai todos os dias para o seu escritório, mas não exerce. Gasta a pena multiplicando textos no Luta Popular, onde assina em nome próprio, mas também com pseudónimos. Ele é Viriato, ele é Espártaco, que assina a primeira sentença de morte política de Garcia Pereira no PCTP, logo depois das eleições legislativas de 4 de outubro de 2015, que levam à suspensão de funções deste no partido e depois à sua demissão.

Nessas eleições legislativas, o partido fica de novo à porta da Assembleia da República, mantendo a subvenção estatal obtida desde 2009. O cabeça de lista por Lisboa, o mais importante círculo eleitoral, é António Garcia Pereira, em cada uma destas eleições.

Com o apoio do Estado, o partido passa a viver com outra folga orçamental. Desde 2015 que Arnaldo Matos lança as "mais graves e profundamente caluniosas falsas acusações" contra Garcia Pereira: "A de que o Comité Central deixou o PCTP/MRPP numa situação financeira catastrófica, num "caos", com a insinuação de que o valor da subvenção tinha passado "pelos bolsos de Domingos Bulhão", que "negócios pessoais" eram feitos por mim e por ele com esse dinheiro e que houve um "rapinanço obsceno" sem qualquer vigilância ou aprovação por parte do Comité Central."

Garcia Pereira admite que são "cometidos erros", mas recorda que "o PCTP/MRPP obteve, pela primeira vez, mais de 50 000 votos e alcançou o direito à subvenção em 2009 numas eleições em que se pôde fazer um mínimo de campanha e de propaganda eleitoral"7. Essa campanha foi possível a partir do "produto de um empréstimo contraído junto da Caixa Geral de Depósitos, com o aval pessoal de [três] membros do Comité Central", que são o próprio Garcia Pereira, Carlos Paisana e Domingos Bulhão. Esse empréstimo é "depois integralmente pago, designadamente com o valor da subvenção alcançada". Para a subvenção na ordem dos 14 800 [euros] mensais, obtida em 2011, "as despesas fixas mensais" ascendem "em regra a 10 045 [euros] mensais" e incluem "as rendas das duas sedes do PCTP/MRPP (Lisboa e Porto) e respetivas despesas de funcionamento, salários dos profissionais, jornais diários e semanais, aluguer de viaturas para alguns profissionais do Partido, como o João Pinto, e para Arnaldo Matos, combustível, despesas de comunicação, outdoors e as multas do Tribunal Constitucional, restando assim um saldo positivo mensal de 4755 [euros] para todas e quaisquer outras atividades, designadamente de agitação, propaganda e campanhas eleitorais".

A saída em 1982


O mal -estar no PCTP/MRPP concretizado no outono de 2015 já vem de trás. Apesar de ter regressado, Arnaldo Matos raramente aparece, denunciam os dirigentes que se demitem do partido depois dessas eleições legislativas. No entanto, o fundador do partido começa a aparecer cada vez mais - pelo menos em reuniões internas e jantares de camaradas. Em iniciativas públicas fá- lo discretamente.

Nascido a 24 de fevereiro de 1939, Arnaldo Matos é um dos quatro fundadores do MRPP. No Luta Popular, que chegou a sair para as bancas todos os dias, por um período curto, nos primeiros anos da democracia, e não passa hoje de umas folhas A4 policopiadas, com editoriais inflamados, afixados nas paredes da sede na Avenida do Brasil, e uma versão online, Arnaldo Matos pede o voto no PCTP/MRPP - "isto é, ao meu Partido".

Na edição online do jornal, mais prolixa, e no Twitter, numa conta em nome próprio, dedica -se muitos dias a insultar em nome desta força partidária aqueles que são os seus rostos até 2015: Garcia Pereira, o líder de facto num partido coletivista que supostamente recusa protagonismos pessoais, Domingos Bulhão, mandatário financeiro, e Luís Franco, secretário -geral, entre outros.

O homem que põe, dispõe e manda no PCTP carrega apenas o título de fundador. Não faz parte do Comité Central do partido, o órgão dirigente sempre que não se reúne o Conselho Nacional (que é, por sua vez, o órgão máximo entre congressos), nem é o seu secretário- geral. Não é dirigente, é um pai para meia dúzia de indefetíveis, o pastor de uma minoria que já nem imensa sonha ser.

No processo do partido depositado no Tribunal Constitucional9 há uma informação assinada por Garcia Pereira, datada de 3 de dezembro de 1985, em que se regista que "o Comité Central do PCTP informa o Tribunal Constitucional que tomou conhecimento da renúncia por parte do camarada Arnaldo Matias de Matos aos cargos de secretário -geral do partido e de membro do Comité Central, com efeitos desde 13 de novembro de 1982, e ainda que as funções de secretário -geral [então Arnaldo Matos] serão asseguradas pelo Comité Central do partido até à realização do próximo Congresso Nacional".

O partido demora três anos a digerir a saída de Arnaldo Matos, até a tornar oficial junto dos juízes do Palácio Ratton. E demora ainda mais a convocar um congresso: o II Congresso Nacional realiza- se de 13 a 15 de junho de 1980, o III só 20 anos depois, a 15 e 16 de abril de 2000. Até Arnaldo Matos retomar, passo a passo, os contactos com o partido, onde acaba por se voltar a impor como uma voz a ouvir - e a mandar. O PCTP acaba tomado por Arnaldo Matos.

Com Arnaldo Matos nos bastidores, António Garcia Pereira volta a dar a cara pelo partido. Já antes tinha sido candidato a Presidente da República "por indicação e sob a direção do partido e do próprio Arnaldo Matos, quer em 2001, quer em 2006"10. O "eterno candidato", como o acusa Arnaldo Matos mais tarde, volta a ser o cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Lisboa em 2015, como já tinha sido em 2009 e 2011. Nas ruas de Vila Franca de Xira, na Cova da Moura, Amadora, ou em Lisboa, a campanha de 2015 faz- se de erros e tensões. No entanto, com o discurso e os alvos bem definidos.

Contra o silenciamento na comunicação social, como se queixam os dirigentes, o PCTP/MRPP vai de porta em porta11. Em
Vila Franca de Xira, um jovem atira a Garcia Pereira: "Está a patrocinar que partido?", provocando o riso de outros colegas pelo verbo inusitado. O candidato não desarma: percebe o sentido da pergunta e responde de enfiada, "Sou do PCTP/MRPP". E logo ali Garcia Pereira explica o desconhecimento do rapaz: "Não ouvem falar de nós porque as televisões não andam connosco." Depois de justificar a atitude da comunicação social com a lei que os partidos parlamentares aprovam em 2015, o líder do MRPP conta como se faz: "Por isso nós vimos porta a porta." Àquela porta, Garcia Pereira vai bater por acaso. Andando pela rua, em "contacto com a população" de Vila Franca de Xira, o candidato encontra um "velho conhecido" que o convida a visitar o Centro Internacional de Formação dos Trabalhadores da Indústria e Energia, onde trabalha.

Nas aulas por onde entra, Garcia Pereira aproveita para dizer ao que vai o PCTP. E pede o voto, da mesma forma humilde com que aborda nas ruas as pessoas. "Vamos deixar -vos ali o nosso manifesto, leiam. Se concordarem, não fiquem em casa no dia 4 de outubro." Estamos em 2015. Um rapaz promete ir votar, mas em branco. "Não faça isso", atira- lhe o candidato. "Não ir lá ou votar em branco só facilita a vida das máquinas partidárias." O jovem insiste: "É para verem que não gosto de nenhum." Garcia replica. "Não deixem que outros decidam por vós."

Será uma constante na volta que arranca junto do tribunal e percorre o centro da cidade, onde se iam preparando naqueles dias de setembro as "esperas e largadas de toiros" para o fim de semana das eleições. A lide de Garcia Pereira é outra. Empenha -se o advogado na oratória junto de eleitores, mas sobretudo ouvintes. Folhetos na mão, são 10h45, ainda não chegou o carro que traz as bandeiras vermelhas da foice e martelo, com o som que intercala A Internacional e o pedido para o partido ter "uma representação parlamentar". Garcia Pereira estende a mão e explica o manifesto do partido. Há quem lhe pergunte pela unidade de esquerda. Como aquela mulher socialista, sentada numa esplanada. "Sr. Garcia Pereira, gosto muito de o ouvir a falar, mas devia haver uma unidade de esquerda." A geringonça ainda não tinha sido inventada.

O cabeça de lista por Lisboa argumenta que só o pode fazer "com base em princípios", e isso não se faz "piscando o olho à esquerda e governando à direita". Falta chegar ao Parlamento, adverte. Para poder mudar a página de um país que, como denuncia a propaganda do partido que vai saindo das mãos do candidato e como repete Garcia Pereira, "tem dois milhões e meio de pobres, em que um terço das crianças passa fome, que tem 1,4 milhões de desempregados e mais de um milhão de pensionistas com pensões inferiores a 300 euros mensais".

Corre -lhe a contestação no sangue. "O meu avô Pestana Júnior foi um dirigente da ala esquerda do Partido Republicano, jacobino, o penúltimo ministro da Finanças do tempo da Primeira República. Depois da instauração da ditadura, lutou contra ela, foi preso, esteve deportado, designadamente em Cabo Verde. Tenho um tio que foi um dos intervenientes do assalto ao quartel de Beja, na noite de [31 de dezembro de] 1961 para [1 de janeiro de] 1962, que esteve preso mais de cinco anos nas prisões do fascismo. Fui visitá -lo à prisão do Aljube cerca de um mês e meio depois. Tinha acabado de ser sujeito à tortura do sono, vinha completamente desfigurado e eu não o reconheci. Só pela voz é que percebi que era ele. Como o vi naquele estado, tinha eu nove anos, comecei a choramingar e a minha mãe agarrou- me no braço, apontou para o PIDE, e disse: "Meu filho, em frente desta gente não se chora." Portanto, com estes exemplos familiares, sempre aprendi que quando se atira lama, quem fica enlameado é quem a atira. É esse o estado de espírito que me move."

Depois das eleições legislativas de 6 de outubro de 2015, o Luta Popular faz de Garcia Pereira, mas também de Domingos Bulhão e de Luís Franco alvos a abater e a responsabilizar pelos maus resultados - apesar de o PCTP ter voltado a passar a fasquia da subvenção pública, vê -se ultrapassado pelas novidades do PAN (o partido Pessoas- Animais- Natureza), que elege um deputado, e do PDR (Partido Democrático Republicano), este como o primeiro partido extraparlamentar.

Sem eleger qualquer deputado, o PCTP ainda desce em votos. Mário, Jaime e Conceição (os nomes de código pelos quais aqueles dirigentes são tratados no partido) têm de fazer uma autocrítica, numa reunião convocada por Marta, ou melhor, Manuela Parreira. O partido estava de vez nas mãos de Arnaldo Matos. "O MRPP acabou, tornou- se uma seita", desabafa o seu antigo dirigente Domingos Bulhão13, um dos que se desfilia do partido.

É como olha também Fernando Rosas. "O MRPP vai -se transformando numa seita. É uma seita, uma seita que tem um guru, que, entretanto, também se vai embora, mas que continua a mandar por interposta pessoa."

As estruturas dogmáticas em que se tornam os partidos comunistas revestem- se de um "caráter religioso" que percorre o movimento comunista internacional e é "letal para o método que podemos designar de materialismo dialético para análise da realidade e do projeto de sociedade comunista que foi a dado momento uma grande esperança", como aponta Isabel do Carmo15. "Puseram no altar, ou seja, no cabeçalho dos seus jornais e noutra propaganda os santos -deuses - Marx, Lenine, Estaline, Mao e por vezes Enver Hoxha. Instituíram novos paraísos na Terra, a China e para alguns a Albânia."16 Os partidos "reconstrutores ou reorganizadores", como o MRPP, "mantiveram o caráter religioso". Ou, nota Isabel do Carmo17, "o que o chefe dizia era para ser respeitado, porque o chefe era infalível. E podia dar -se mesmo o caso de ele "o grande educador da classe operária" como Arnaldo Matos. Não era possível discordar do chefe. Em todos os partidos comunistas, quem discordasse tornava -se suspeito, brevemente seria tratado de "infiltrado pequeno -burguês", "provocador" pertencente a uma "camarilha pequeno -burguesa", "conspirador". Este tipo de linguagem chegaria para uma investigação que dava um livro inteiro. A breve trecho o atrevido seria expulso e lançado às profundezas do inferno. O inferno possível."

No Luta Popular começa o inferno possível de Garcia Pereira e dos seus camaradas. Arnaldo Matos reserva a melhor adjetivação para começar a falar para quem, até muito pouco tempo antes, só tinha elogios. Um dos três textos que estão na origem da "suspensão" do secretário -geral do PCTP/MRPP, Luís Franco, e "dos membros do comité permanente do Comité Central" do partido - que em lado algum são identificados pelo nome, mas que se trata de Garcia Pereira e Domingos Bulhão - acusa- os de serem "sociais- revisionistas, sociais- fascistas e demais oportunistas que tomaram conta" do "quartel -general" do partido. Arnaldo Matos reserva para estes três homens os mesmos adjetivos com que o partido sempre mimou o PCP.

O artigo, que parece saído de um jornal policopiado do Verão Quente de 1975, assinado por Espártaco, nome de código para Matos, termina com o "apelo aos militantes do partido e ao proletariado português para se empenharem denodadamente neste trabalho pela refundação do partido comunista operário português", correndo com aqueles membros das suas "fileiras". "Viva o partido comunista operário! Morte aos traidores!", remata Espártaco, recuperando uma frase da campanha eleitoral recente que tinha causado alguns dissabores internos e externos. E recuperando uma frase que se inscreve no ADN do partido do início da democracia.

A 25 de setembro de 2015, uma candidata do partido faz um pedido público e, numa resolução do Comité Central do PCTP/ MRPP, o partido acompanha esse pedido: a expressão "Morte aos traidores", que é usada na campanha do partido de Garcia Pereira, é retirada de todo o material de propaganda. Antes mesmo de a Comissão Nacional de Eleições (CNE) se pronunciar sobre o tema. Vários cidadãos fazem chegar queixas à CNE por causa do teor da frase que o PCTP usa em outdoors, tempos de antena e folhetos.

A mandatária nacional para a Juventude e cabeça de lista pelo Porto queixa -se no próprio jornal do partido, Luta Popular, por essa expressão ser usada na "carta aberta à juventude", redigida por ela mesma, Virgínia Valente. Para esta candidata independente, numa adenda à carta19, "o apelo de morte não se enquadra nos [seus] princípios democráticos".

Virgínia Valente deixa então explicadas as suas objeções. "Compreendo que se queira o fim da corrupção e da incúria dos traidores, porém não posso subscrever qualquer palavra de ordem que apele à eliminação de uma vida. A esta expressão se associa um ímpeto assassino que não é o meu. O meu desígnio é de justiça e sou a favor da vida por muito rasteira que ela seja, como no caso dos governantes e empresários capitalistas a que o slogan se remete."

Perante a queixa, o partido retira a expressão do material de propaganda. "Satisfazendo as objeções da nossa distinta mandatária nacional para a Juventude, Virgínia Valente, o comité permanente do comité central do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP) ordenou a eliminação da palavra de ordem Morte aos Traidores de toda a sua propaganda eleitoral", antecipa o comunicado publicado no Luta Popular20, que é na origem uma resolução de Arnaldo Matos enviada por e ‑mail para "ser assinada pelo Comité Permanente do Comité Central"21. No entanto, no curto texto é deixado um aviso a esses "traidores", na melhor retórica do fundador do partido: "Claro que esta decisão não terá o mérito de salvar os traidores do opróbrio e da morte certa que os espera." A esta "morte certa", o partido acrescenta a desonra pública e a ignomínia de quem trai, no entendimento do PCTP, o povo português.

Arnaldo Matos dá uma no cravo e outra na ferradura, dando logo depois a "indicação de que afinal a propaganda já impressa com a palavra de ordem em causa fosse distribuída na mesma". Com uma recomendação de como responder aos jornalistas: "Para os curiosos de todas as espécies, a resposta é esta: estamos a alterá- los na medida das nossas forças, pois já estava tudo afixado e contamos tê- los todos corrigidos até ao dia do sufrágio." E uma advertência final: "Mais nada. Percebido?"

A CNE avalia também as queixas sobre o uso da expressão, mas o organismo "não encontrou matéria" que pudesse constituir "qualquer tipo de crime", não tendo o assunto "ultrapassado o nível de uma metáfora", pelo que a questão não é remetida para o Tribunal Constitucional.

Garcia Pereira desvela mais tarde que é Arnaldo Matos que impõe em "toda a campanha eleitoral" a expressão "Morte aos Traidores". "Como cabeça de lista por Lisboa, e encabeçando a candidatura nacional do PCTP/MRPP, dei, como entendi que me competia, a minha cara por tal palavra de ordem, independentemente das minhas percepções ou opiniões. Mas a verdade é que, numa campanha em que se procurava mobilizar o apoio de camadas populares mais amplas possíveis para as posições do Partido e unir todas as forças democráticas e patrióticas, a expressão "Morte aos Traidores" liquidou a campanha à partida, tal como depois fui constatando pelas diversas críticas que se lhe seguiram, tanto dentro como fora do PCTP/MRPP", reconhece o então candidato por Lisboa.

Em Braga e na Madeira, há críticas à palavra de ordem, que não nasce de geração espontânea. Em 1976, no congresso do partido, "os trabalhos encerram com um discurso de Arnaldo Matos que termina lançando vivas à classe operária, ao comunismo, ao marxismo -leninismo, ao MRPP, ao PCTP... Algumas das palavras de ordem são repetidas. Quais? As que pedem morte. Três vezes. Como no teatro, ouve- se Arnaldo Matos gritar: "Morte aos traidores! Morte aos renegados! Morte aos traidores! Morte aos renegados! Morte aos traidores! Morte aos renegados!"

Sem dinheiro algum

A reunião do Comité Central do MRPP, que tem lugar a 10 de outubro de 2015, "decorreu sob a direção da camarada Marta", nome de código de Manuela Parreira. Não são revelados os nomes dos militantes suspensos, mas a comunicação social avança com o de Garcia Pereira, sem ninguém confirmar a informação. Segundo essa nota do Comité Central27, é convocado "o I Congresso Extraordinário do PCTP/MRPP, para os dias 29 e 30 de abril e 1.º de maio de 2016". Este congresso nunca acontece.

No texto publicado no Luta Popular, "órgão central" do MRPP - e cujos editoriais são assinados pelo camarada Arnaldo Matos - Espártaco questiona o facto de o PCTP/MRPP ter tido à sua disposição "800 mil euros", durante os quatro anos de subvenções públicas, pelos votos alcançados em 2011. E o militante fala em "12 euros por voto obtido nas eleições legislativas de 2011 e durante quatro anos" que não se traduzem em melhores resultados em 2015.

Garcia Pereira faz as contas às campanhas eleitorais, "não contando aqui com outras ações dispendiosas (como as ações de agitação e propaganda no setor dos Transportes e as referentes à luta pela greve geral)", apontando para "um gasto total de cerca de 253 335 [euros]". E conclui que "tendo presente o número de meses (152) entre as eleições legislativas de 2011 e as de 2015", é "fácil" constatar "que todo o dinheiro que o PCTP/MRPP recebeu nesse período foi integralmente gasto na atividade do Partido e apenas se conseguiu cobrir a diferença com as quotas e os fundos que eram recolhidos entre os militantes, simpatizantes do Partido e nas próprias ações deste".

O candidato por Lisboa em 2015 nota ainda "que à entrada das legislativas de 2015 - onde o PCTP/MRPP tinha por objetivo eleitoral eleger uma representação parlamentar e onde viria a gastar, imputados diretamente à campanha, um pouco mais de 50 000 [euros], o PCTP/MRPP, sobretudo devido aos elevados gastos com a campanha da Madeira, pura e simplesmente não tinha dinheiro algum. Não porque os seus dirigentes, em particular os membros do Comité Central, se tivessem locupletado com o que quer que fosse, mas sim devido aos gastos efetuados, muito em particular, com aquela campanha."

As finanças depauperadas explicam- se também por, nas palavras de Garcia Pereira, se gastar muito dinheiro em luxos nada proletários. "Sempre que Arnaldo Matos se deslocava para fora, era sempre alugado um carro (e sempre de alta gama, Mercedes ou equivalente, BMW, Volvo, etc.), sendo que em 2015 o PCTP/ MRPP tinha um gasto de cerca de 500 [euros]/600 [euros] mensais com a empresa de aluguer de viaturas e com os custos do combustível, nem sempre (embora algumas vezes) pago por Arnaldo Matos, mesmo quando as suas deslocações eram feitas a titulo particular (idas ao teatro, por exemplo)", acusa.

No rescaldo das eleições de 2015, Espártaco aponta o dedo aos "atuais responsáveis pelas finanças do partido" que "devem apresentar o relatório e contas de todo o tempo em que dirigiram financeiramente o partido, entregando a pasta à nova comissão no prazo de 15 dias, sem prejuízo de entregar imediatamente à respetiva comissão financeira as contas bancárias e os dinheiros do partido". Quem outro se não Arnaldo Matos fala assim e é acatado por todos?

No comunicado final da reunião de 10 de outubro, "o Comité Central nomeou a comissão de finanças do partido, constituída pelos camaradas Sebastião, como secretário responsável, a camarada Marta e o camarada Conceição, este como tesoureiro". E Carlos Paisana, diretor do Luta Popular, foi substituído pelo "camarada Paulo", "sem prejuízo pela apresentação do relatório" que os militantes suspensos ficaram obrigados de fazer até dia 20 de outubro "à camarada Marta".

A 18 de setembro de 2015, antes do arranque oficial da campanha eleitoral, o PCTP/MRPP comemora 45 anos com um comício na Voz do Operário, em Lisboa, e no qual Garcia Pereira foi o último a discursar. Dias depois, o partido rejeita em nota enviada ao Diário de Notícias que o advogado seja o "líder do partido", como é identificado pelo jornal. "Tal como vimos incessantemente repetindo, Garcia Pereira é apenas membro do Comité Central e, no caso, primeiro candidato do partido pelo círculo de Lisboa nas eleições em curso, pelo que deverá ser corrigida, pelos meios adequados, essa falsa informação. Pela nossa parte, rejeitamos qualquer tentativa de os jornalistas ou órgãos de informação escolherem os dirigentes do PCTP/MRPP", lê- se na nota. O líder é, de facto, quem nunca foi eleito para tal.

Um ano depois, Garcia Pereira desvincula- se do partido. Também por causa dos humores de Arnaldo, que insulta em público o seu afilhado António, que o via como um pai. Os humores de um pai que mata o filho.

PCTP/MRPP Morte aos Traidores

Miguel Marujo

Editora Matéria-Prima

228 páginas

Apresentação hoje por David Dinis, na FNAC do Chiado, pelas 18.45

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