Filomena Mónica: "Professores formatados" podem ser uma das razões para o fim de Os Maias como leitura obrigatória

O fim, ainda não decidido, de Os Maias enquanto leitura obrigatória no secundário não é um erro para Maria Filomena Mónica, estudiosa de Eça de Queiroz e da sua obra. O problema reside em muito nos "professores formatados"

A hipótese de o romance de Eça de Queiroz, Os Maias, deixar de ser leitura obrigatória no secundário não preocupa a especialista queirosiana Maria Filomena Mónica. Considera que é "uma obra muito difícil e longa" que não atrai a maioria dos alunos e que poderá ser substituída por outra do mesmo autor, por exemplo O Crime do Padre Amaro, que é mais acessível.

Sugere outras obras do escritor como possíveis para serem estudadas e que poderão dar aos estudantes uma impressão tão completa como Os Maias: "Há um conto do Eça, Alves e Companhia, que é completamente amoral e que os divertiria e deixaria bastante interessados na sua leitura." No entanto, ao sugerir um conto deste autor, Filomena Mónica levanta a questão de as novas regras colocarem de fora o género do conto: "É incompreensível!"

Para a socióloga, o entendimento sobre um autor e a sua obra pode dar-se através até de um poema: "Aprendi a gostar de autores apenas através de um poema, isto porque os professores trabalharam muito bem os seus textos, e nunca mais deixaram de ser uma referência para mim." É o caso de Cesário Verde, poeta sobre o qual já escreveu uma biografia: "Ele tem um longo poema, O Sentimento dum Ocidental, que se o professor o der em condições fica-se com uma opinião muito boa sobre o poeta e a obra." Como uma das causas para o desinteresse dos alunos na leitura de Os Maias e destas possíveis alterações no programa de leituras obrigatórias, Maria Filomena Mónica coloca duas situações: "Os professores estão cada vez menos preparados para explicar aos alunos outras obras que não as mais óbvias, e isso vê-se refletido nos textos escolhidos para os exames. Os alunos, por seu lado, estão numa idade em que não se interessam assim tanto pela leitura e é preciso saber encaminhá-los para as obras, ora a maioria dos professores não o sabem fazer."

Considera que os professores "estão formatados" para tratar os livros através de resumos e de guiões que existem, dando o caso do queirosiano Carlos Reis que "com os seus estudos definiu o modo de analisar as obras do autor de Os Maias e que os professores seguem por terem a vida facilitada". Recorda que em Inglaterra, os alunos com a mesma idade dos portugueses leem obras de Eça de Queiroz e que não têm dificuldade em o fazer: "Eles aplicam-se e estudam o autor, portanto por cá pode acontecer o mesmo."

Maria Filomena Mónica não deixa de recordar um texto introdutório que escreveu para a edição desta obra de Eça de Queiroz publicada na Texto Editora em 2004 e onde já afirmava: "Muitas vezes me tenho interrogado sobre a utilidade da elaboração de uma lista de livros recomendados pelo Ministério da Educação. Às vezes, penso até que o ideal seria a existência de uma compilação de títulos proibidos, à semelhança do que, em 1864, o Papa Pio IX fez com o seu famoso Index. É na adolescência, quando olhamos as coisas que os professores nos recomendam com desconfiança instintiva, que o fruto proibido se reveste de maior atração."

Para concluir, Maria Filomena Mónica considera o escritor e Os Maias uma obra fundamental para se perceber o Portugal naquela época, tanto assim que no seu último livro, Os Ricos, o usou para explicar o país: "É certo que é muito grande e nem sempre fácil para os leitores mais jovens, contudo pode ser substituída por outras do mesmo autor." E não termina sem se referir ao Plano Nacional de Leitura: "É uma estupidez como está."

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Anselmo Borges

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