"Madame X". Um disco à Madonna com muitas piscadelas de olho a Lisboa

Ao 14.º disco de originais, a rainha da pop prova que, aos 60 anos, continua a conseguir reinventar-se enquanto artista, reatualizando a carreira à luz das últimas tendências da música, mas também com muitas piscadelas de olho a Lisboa. O DN foi ouvir o disco. Aqui fica a crítica.

Não foi escolhido ao acaso, o título do novo disco de Madonna. Madame Xera a alcunha pela qual costumava ser chamada, quando, no final dos anos 70, se mudou para Nova Iorque, em busca de um lugar ao sol no mundo da música. Um tempo de descoberta, mas também de "ingenuidade e inocência", como referiu, citada pelo jornal brasileiro Folha de São Paulo, que pretendeu replicar agora em Madame X, o muito aguardado novo disco de originais, lançado na sexta-feira. O álbum, que sucede a Rebel Heart, lançado há quatro anos, é no entanto muito mais que um simples novo disco de Madonna, muito embora isso já fosse o suficiente para fazer correr muita tinta.

Apesar de correr o risco de (inicialmente) poder soar um pouco estranho a alguns dos fãs mais antigos, este é um disco à Madonna, pelo modo como a rainha da pop se consegue reinventar e reatualizar, a partir de tudo o que se passa à sua volta. Seja por cá, em Lisboa, onde reside desde 2017 e voltou a sentir "o prazer da descoberta", mas também no mundo da música, tão diferente da realidade das décadas de 80 e 90, quando a cantora americana se coroou como a rainha da pop, como se percebe logo no tema de abertura do álbum, Medellin, um dueto com o colombiano Maluma, embalado pelos ritmos do reaggeaton.

"Voltei a ter 17 anos", sussurra a dada altura, com a voz, por momentos, a fazer lembrar Billie Eilish, a maior estrela emergente da pop na atualidade, que tem precisamente essa idade. O ambiente muda por completo na segunda faixa, Dark Ballet, uma canção pop ao piano, mais próxima do que é habitual em Madonna, transformada a meio num exercício barroco de música eletrónica. No ouvido fica porém a mensagem de igualdade inicial - "I can dress like a girl, i can dress like a boy, keep your beautiful words, ´cause i"m not concerned" -, que dá o mote para a sequência mais política do álbum.

Recorrendo novamente à voz e ao piano, God Control é um manifesto contra a proliferação de armas nos Estados Unidos, à mistura com coros grandiosos e uma poderosa batida de dança. A temática de alerta e protesto continua em Future, um trap/reaggae produzido por Diplo e cantado a meias com Quavo, o vocalista dos Migos - "Not everyone is coming to the future, not everyone is coming from the past".

A primeira referência a Lisboa surge em Batuka, faixa que é um dos momentos altos do disco e conta com a participação das mulheres cabo-verdianas da Orquestra de Batukadeiras de Portugal e do cantor português de origem cabo-verdiana Dino D'Santiago, o grande cicerone musical de Madonna em Lisboa. A melancolia da guitarra portuguesa dá em seguida o mote para Killers Who Are Partying, um hino contra a intolerância, seja ela qual for. "O mundo é selvagem, o caminho é solitário", canta em português, acompanhada pelo familiar trinado da guitarra, enquanto anuncia "I´ll be Islam if Islam is hated, I"ll be Israel if they're incarcerated", mas também índio, pobre, criança ou mulher: "I know what I am and I know what I´m not, do you know who you are?"

Aqui chegados, a bitola volta novamente a mudar com Crave, um tema com a participação do rapper californiano Swae Lee, que abre uma sequência, digamos assim, mais pop, à boa e velha Madonna de sempre, prolongada em Crazy e Come Alive. Em Extreme Occident, Madonna regressa novamente à crítica política: "Aquilo que mais magoa é que eu não estava perdida", canta outra vez em português.

A disposição volta a mudar logo aos primeiros acordes de um dos potenciais grandes êxitos de Madame X, nada mais nada menos que Faz Gostoso, um tema popularizado por cá na voz de Blaya e agora apresentado ao mundo num sensual dueto entre Madonna e a brasileira Anitta.

O segundo momento com Maluma, Bitch I´m Loca, acaba por acrescentar pouco ao tanto que até aqui se ouviu. Tal como I Don"t Search I Find, outra canção a fazer lembrar outros tempos de Madonna, também evocados em Looking for Mercy, faixa apenas incluída na versão "Deluxe" de Madame X, que termina novamente sob uma toada de protesto, mas também de esperança, com I Rise, uma poderosa canção iniciada com um sample da voz da jovem ativista Emma Gonzales, sobrevivente do massacre na escola de Stoneman Douglas, na Flórida. "Died a thousand times. Managed to survive (...). I can't break down now (...). Yeah, we gonna rise up", canta a rainha da pop, numa letra com várias leituras, quase como se fosse uma metáfora da sua própria carreira, novamente reinventada, recriada e reatualizada neste Madame X, um disco que é muito mais que um simples álbum de música, como sempre acontece com Madonna.

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