O brasileiro Itamar Vieira Junior vence Prémio Leya

A edição de 2018 do Prémio Leya já tem vencedor: Itamar Vieira Junior. Torto Arado foi o original escolhido pelo júri presidido por Manuel Alegre.

O romance Torto Arado de autoria do brasileiro Itamar Vieira Junior venceu o Prémio Leya, o prémio literário português mais importante e com um valor de 100 mil euros.

O júri distinguiu a forma como o universo rural do Brasil e o âmbito patriarcal são retratados nesta obra do escritor. "Sendo um romance que parte de uma realidade concreta, em que situações de opressão quer social quer do homem em relação à mulher, a narrativa encontra um plano alegórico, sem entrar num estilo barroco, que ganha contornos universais", justifica o júri, que acrescenta que o livro premiado "destaca-se pela qualidade literária de uma escrita em que se reconhece plenamente o autor". Daí que, refira a ata do júri, a 10.ª edição do Prémio Leya tenha sido concedido por unanimidade.

Além de autor, é geógrafo de formação e doutorado em Estudos Étnicos e Africanos. Nasceu em 1979 e é natural de São Salvador da Bahia.

Itamar Vieira Junior é também finalista do prémio Jabuti na categoria de conto. "Uma coincidência interessante", afirmou Manuel Alegre. A sua obra consta de livros de contos, Dias (2012) e A Oração do Carrasco (2017), tendo publicado alguns dos seus trabalhos em revistas especializadas em França e é colunista da São Paulo Review.

Estavam a concurso 348 originais provenientes de 13 paises, dos quais foram selecionados sete obras para a decisão final segundo referiu o administrador da Leya, Isaías Gomes Teixeira, sendo a mais concorrida a nível de nacionalidades, tendo chegado originais de Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, EUA, China e da Islândia, entre outros países.

O presidente do júri, Manuel Alegre, fez questão de destacar que "nunca houve tantos finalistas não portugueses como este ano", sendo que entre as sete obras finalistas estavam três autores moçambicanos e dois brasileiros. Para o poeta a obra premiada traz a revelação de um novo autor, que é conhecido como escritor, e é a vez em que apareceram mais autores de língua portuguesa não portugueses e isso é novo." Para Alegre "tem havido edições com mais ou menos leitores e relevância pública, mas há que ter em conta que foram revelados vários e muitos outros finalistas que foram publicados."

A obra premiada distinguiu-se das restantes logo ao início segundo o membro do júri Nuno Júdice: "Era um romance bastante sólido, praticamente terminado e com uma grande consistência de escrita."

Itamar Vieira Junior é um escritor que está fora do circuito de São Paulo e Rio de Janeiro, referiu o novo membro do júri brasileiro Paulo Werneck, que desconhecia o autor: "O que chama mais à atenção é o seu domínio da técnica narrativa e todos tivemos a certeza de estar perante um autor maduro. Até à abertura do envelope existia no júri a dúvida sobre se não seria um escritor conhecido." A revelação de novos nomes além dos consagrados, diz, é um dos benefícios do Prémio Leya: "Agora quero conhecer este autor que trata de uma narrativa muito importante sobre uma parte do Brasil rural, um mundo difícil e que marca também a vida do país.."

A escritora angolana Ana Paula Tavares comentou o lamento de Manuel alegre por não ter encontrado autores do seu país na reta final do prémio Leya: "Gostava muito, mas como acompanho bem o que se passa lá sei que há mais novidades na poesia do que no romance. Acho que em breve teremos surpresas, sobretudo de mulheres, que vivem em Angola ou na diáspora e que têm propostas muito interessantes."

Antes deste autor já venceram o Prémio Leya o escritor brasileiro Murilo Carvalho, o moçambicano
João Paulo Borges Coelho, e os portugueses João Ricardo Pedro Portugal, Nuno Camarneiro, Gabriela Ruivo Trindade Portugal, Afonso Reis Cabral, António Tavares Portugal e João Pinto Coelho.

O Prémio Leya, que tem como objetivo distinguir um romance inédito escrito em português. A primeira edição realizou-se em 2008, pouco depois da aquisição por parte do grupo Leya de quase duas dezenas de editoras, e aceita originais de todos os países da lusofonia. O prémio só não foi atribuído por duas vezes, em 2010 e 2016, devido ao júri considerar que as obras a concurso não tinham o nível que o galardão exige.

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