Fim do filão? Os zombies também estão em crise

Foi o filme de abertura do Festival de Cannes deste ano: com "Os Mortos Não Morrem", o americano Jim Jarmusch tenta parodiar as histórias de zombies... mas a inspiração faltou.

Em tempos de repetição e saturação dos filmes de super-heróis, é caso para dizer que ninguém escapa à crise: até mesmo os zombies já não nos conseguem assustar ou, como seria o propósito em Os Mortos Não Morrem, fazer rir.

É bem verdade que o novo filme do americano Jim Jarmusch não pode deixar de suscitar alguma simpatia. Afinal de contas, desde os tempos heróicos de Sempre em Férias (1980) e Para Além do Paraíso (1984), ele impôs-se como uma das vozes mais originais da zona dos independentes "made in USA". Mais do que isso: a sua capacidade de tratar as matrizes clássicas através de um desconcertante humor - recorde-se o exemplo emblemático do "western" Dead Man/Homem Morto (1995), com Johnny Depp - assegurou-lhe o estatuto de uma genuína figura de culto.

Terá sido, aliás, esse estatuto que levou a organização do Festival de Cannes a escolher Os Mortos Não Morrem como título de abertura oficial da edição deste ano. O efeito foi, de alguma maneira, contraproducente, já que, nas paragens da Côte d"Azur, a desilusão foi dominante.

Jarmusch encena as atribulações de uma típica cidadezinha americana subitamente assombrada por zombies. Explicações para a invasão dos "mortos andantes"? Não há, nem teria de haver. O filme parece, aliás, interessar-se sobretudo em explorar o comportamento mais ou menos burlesco de três elementos da polícia local, interpretados por Bill Murray, Chloë Sevigny e Adam Driver. Infelizmente, nem mesmo o empenho dos atores consegue disfarçar o facto de Jarmusch pouco mais tentar além de ir colando algumas situações "anedóticas", não muito bafejadas pela imaginação criativa (mesmo quando procura forçar uma certa dimensão de parábola da América de Donald Trump).

Como sempre, há no trabalho de Jarmusch uma sugestiva dimensão caricatural, aqui assegurada, em particular, pelas personagens de Tom Waits e Iggy Pop (este compondo um zombie com uma militante paixão por... café). O filme inclui ainda uma excelente canção original, também intitulada The Dead Don"t Die, composta e interpretada por Sturgill Simpson, cantor "country" já premiado com um Grammy. Prevalece, no entanto, a sensação de que Jarmusch ficou muito aquém do seu melhor, nomeadamente do misto de ironia e poesia que nos seduziu em Paterson (2016), também com Adam Driver.

Exclusivos