Jafar Panahi filma a condição feminina no Irão

Embora impedido de filmar pelas autoridades do seu pais, o iraniano Jafar Panahi continua a utilizar o cinema como um invulgar instrumento de comunicação: 3 Rostos coloca em cena temas particular do universo feminino.

Mais um filme que chega ao mercado português sob o signo do Festival de Cannes... mas da edição de 2018: 3 Rostos, do iraniano Jafar Panahi. Não é caso único. Podemos até compreender que este "atraso" seja motivado por questões de negociação de direitos que transcendem o mero efeito de atualidade. Uma coisa é certa: seria uma pena que os espectadores interessados falhassem tão fascinante objeto de cinema apenas porque o seu lançamento e exterior as agendas aceleradas de "blockbusters" e outros produtos que determinam as regras dominantes do mercado.

Importa lembrar que Jafar Panahi e um cineasta proibido de trabalhar em cinema pelas autoridades do seu pais... mas que continua a filmar. A primeira e notãvel expressão do seu exílio foi esse objeto insólito, rodado quando Panahi estava em prisão domiciliária, com o titulo irónico Isto Não É um Filme (grande acontecimento de Cannes/2011, onde chegou numa pen escondida no interior de um bolo). Seguiu-se Taxi (2015) e, agora, este 3 Rostos em que, uma vez mais, o autor surge a interpretar uma personagem que daápelo nome de... Jafar Panahi. Para bom entendedor...

Estamos perante uma viagem didática e poética, partilhada por Panahi e a atriz iraniana Benhaz Jafari. Na sua origem está um enigmático vídeo de uma jovem que dá conta da sua ansiedade face à possibilidade de seguir uma carreira de atriz. A partir daí, o filme adquire o espírito de uma deambulação "on the road" em que, de forma transparente e subtil, emergem temas direta ou indiretamente ligados a condição feminina no Irão.

Não é um "filme politico" no sentido corrente, panfletário, de tal classificação. É, isso sim, um filme capaz de colocar em cena os fatores anímicos e simbólicos (logo, políticos) de um contexto em que o lugar das mulheres parece oscilar entre a eloquência da expressão e muitas e perturbantes formas de silêncio. Organizando 3 Rostos como uma ficção eminentemente documental (ou um documentário que atraia elementos ficcionais), Panahi define-se como paciente observador das contradições internas do seu país - e fá-lo com militante amor pelas pessoas e pelos lugares. Em resumo: uma das grandes estreias dos últimos meses.

Outras estreias da semana

EM CHAMAS - História(s) de um bizarro triângulo amoroso em que o fogo surge como um estranho assombramento: uma realização de Lee Chang-dong, cineasta da Coreia Sul (também da colheita de Cannes/2018, onde recebeu um prémio da FIPRESCI).

MAR - Margarida Gil dirige um elenco que inclui Maria de Medeiros, Nuno Lopes, Catarina Wallenstein e Pedro Cabrita Reis, numa viagem marítima de descoberta e revelação - ecoam memorias portuguesas e o tema atual dos refugiados.

UMA TRAIÇÃO NECESSÁRIA - Dirigido por um criador teatral, Trevor Nunn, esta é a história verídica de uma mulher inglesa que, num cruzamento insólito da politica e dos afetos, funcionou como espia da URSS - com Judi Dench no papel central.

Ler mais

Exclusivos