Como Salazar ofereceu a imortalidade a Gulbenkian

A primeira biografia sobre o multimilionário Calouste Gulbenkian chega no dia 3 às livrarias e conta minuciosamente a história de como Salazar capturou a maior fortuna que veio para Portugal. Jonathan Conlin é o autor.

No ano em que se comemoram 150 anos do nascimento de Calouste Gulbenkian (a 23/2/1869), o mundo - e principalmente os portugueses - têm finalmente uma investigação completa que relata a vida do homem que proporcionou ao país uma evolução cultural que nem o Estado foi capaz de fazer. "Dinheiro" foi a palavra-chave da vida do arménio que legou a sua fortuna a Portugal e estabeleceu uma fundação com o seu nome, que se substituiu ao próprio Ministério da Cultura durante muitas décadas, e que a biografia mostra o rasto bem visível dessa fortuna e a mão de Salazar no esforço gigantesco para não perder a fortuna que Azeredo Perdigão começara por conseguir.

Apesar de a história da futura Fundação Calouste Gulbenkian só ocupar 37 páginas das 500 de O Homem Mais Rico do Mundo - As Muitas Vidas de Calouste Gulbenkian, é na Conclusão e no Epílogo que o maior negócio do Estado Novo vem contado pela primeira vez com todos os detalhes que a investigação e consulta de documentos, correspondência e arquivos da época, proporcionaram ao autor e historiador norte-americano.

Em entrevista ao DN, o biógrafo Jonathan Conlin acrescenta mais pormenores sobre o cerco feito a Gulbenkian e aos seus homens de confiança que o futuro presidente da Fundação, Azeredo Perdigão, elabora de modo a que a imensa fortuna fique em Portugal: "Tornou-se um assunto de Estado", é como o autor define a situação para que Gulbenkian tinha sido avisado por Cyril Radcliffe (o braço direito do milionário neste assunto) "por estar em causa uma soma tão grande." E sentencia: "Não foram tomadas todas ou as devidas precauções."

O que significa este desabafo? Que a ausência de um testamento "além do redigido apressadamente" em maio de 1950 permitia que o Governo português tentasse ganhar a corrida para receber a fortuna de Gulbenkian, na qual estavam envolvidas poderosas nações como a Inglaterra, a França e os Estados Unidos.

Mais, o biógrafo apresenta uma versão suportada em muitos documentos e que até agora nunca fora tão explícita quanto aos meios envolvidos para trazer até Portugal a fortuna de Gulbenkian, em que estiveram envolvidas as maiores forças políticas da altura - os presidentes do Conselho, Salazar e posteriormente Marcelo Caetano -, bem como dois embaixadores, numa disputa de poderes entre o advogado português de Gulbenkian, Azeredo Perdigão, o homem que fora apresentado em janeiro de 1952 pelo próprio braço direito do milionário, Cyril Radcliffe, sendo que este viria a ser afastado por lhe ter sido retirada toda a capacidade de manobra pelo conluio governativo e diplomático português.

Ao futuro homem forte durante décadas da Fundação, Azeredo Perdigão, cabia garantir a Calouste Gulbenkian a principal questão que o afligia: não pagar impostos sobre a sua fortuna após a morte. Perdigão não tinha resposta no início porque a legislação portuguesa nunca se confrontara com uma situação de tão grande dimensão financeira, mas quando Radcliffe se apercebe que o solicitador estava em contacto direto com Salazar para encontrarem uma forma de satisfazer os desejos de Gulbenkian já era tarde de mais. Segundo o biógrafo, chega um momento em que Radcliffe se questiona se "as exigências de Perdigão eram realmente dele ou do governo português. Estaria a falar como executor de Gulbenkian ou seria um porta-voz de Salazar?"

Apatia perigosa no momento da grande decisão

A ajudar Portugal esteve uma outra situação, refere o biógrafo: "A apatia de Gulbenkian [por questões de saúde que o tornavam cada vez mais débil] foi boa para Portugal. Sem essa apatia, o país poderia não ter a Fundação." Acrescenta: "A combinação da sua doença e os momentos ocasionais de apatia faziam com que a sua resposta aos que lhe pediam para planear [o legado] fosse a de responder 'Deixem isso com Radcliffe'. Essa pressão para que clarificasse o destino da herança era muito violenta e ele, devido à apatia, comportava-se como se estivesse num carro e desistisse de o guiar e alguém tivesse de pegar no volante." O que aconteceu, continua, "foi que Perdigão foi capaz de convencer Gulbenkian que não seria taxado em Portugal e fê-lo avançar num novo testamento, que ainda era muito vago. Se tivesse vivido mais tempo, provavelmente teria alterado e definido os contornos da Fundação que eram muito pouco exatos."

Jonathan Conlin conclui: "É uma história complexa, mas sabe-se que Perdigão estava a trabalhar com Salazar de modo a cumprir a intenção que o governante queria, a de que a Fundação [e a herança] ficasse em Portugal." Ainda por cima, diz Conlin, "a abertura de um novo oleoduto tinha tornado Gulbenkian tão rico que era imaginável para as pessoas daquela época perceberem a dimensão da fortuna e o próprio nem tinha noção do que seria a dotação que deixaria à Fundação."

Porquê doar uma fortuna inimaginável a Portugal?

Quando se insiste na pergunta do porquê de ter a sede da Fundação em Portugal ao biógrafo Jonathan Conlin, este recorda que "Gulbenkian considerou vários locais a partir de 1937 e, com com sir Radcliffe, até 1953 continuou a debater a questão". Foi então que o último testamento prevaleceu, explica: "Sabemos pela correspondência com os seus vários advogados que Gulbenkian queria evitar um Estado onde fosse penalizado com impostos. Era o caso da Inglaterra, onde tentou negociar a oferta de obras de arte para ter melhores condições ou ser até uma exceção, mas o clima político não lhe era favorável após a II Guerra Mundial". O mesmo se passou em França, diz: "O Código Napoleónico dava aos filhos o direito de reclamar a herança e ele tinha tornado claro a Nubar e a Rita que nunca iriam receber a totalidade da vasta fortuna, apenas a garantia de que viveriam desafogadamente - e eles nunca se opuseram a essa decisão paternal."

Gulbenkian, recorda, "também pensou no Panamá e no Lichtenstein". Uma outra solução seria os Estados Unidos, no entanto não houve nunca uma resposta clara nas "negociações com o governo americano para que o isentassem de impostos em troca da fortuna."

Diga-se que Gulbenkian era um homem com uma perspetiva diferente em relação aos impostos que o queriam fazer pagar, como esclarece o biógrafo: "As suas origens eram de famílias ricas da Arménia e a sua visão era muito próxima dessa elite do império Otomano que tinha privilégios especiais. Ele era contra o pagamento de impostos porque vinha de famílias que não o faziam."

Em relação aos Estados Unidos, Gulbenkian também não se esqueceria de como fora bem recebido em Portugal e suspeito nos Estados Unidos. Afirma o biógrafo que "Gulbenkian tinha algum amor a Lisboa porque quando veio cá pela primeira vez estava a caminho dos EUA, mas soube que a autoridade tributária estava à sua espera para o investigar de forma mais rigorosa". Ao saber pelo seu próprio serviço de espionagem desse facto, Gulbenkian "preferiu não viajar para os EUA e ficou por Lisboa, que era a Casablanca-dois nessa altura e onde estavam exilados milionários como Rothschild, cidade onde a temperatura era amena, não existia racionamento e de onde seria fácil fugir se os alemães avançassem para a ocupação de Portugal. Após a II Guerra Mundial, Gulbenkian regressou à sua vida normal mas nunca construiu ou comprou uma casa em Lisboa como as que possuía em Paris ou Londres".

Segundo Conlin, o apreço de Gulbenkian por Lisboa era grande: "Gostava da cidade, provavelmente apreciava a censura à imprensa que era impedida de publicar notícias sobre a sua vida privada e uma polícia que zelava para o manter livre dentro do Hotel Aviz, impedindo qualquer jornalista de o importunar. Ele gastava muito dinheiro com a polícia portuguesa para manter os jornalistas afastados do hotel, mesmo que muitos se disfarçassem de empregados ou subornassem os criados para saberem pormenores dos seus dias. Mas o ambiente em Lisboa compensava a sua prisão pelos nazis em 1942."

Contudo, diz o biógrafo, Gulbenkian "tinha vários mundos dentro de si e falava várias línguas, daí que tenha tentado dar aos leitores pistas sobre o seu pensamento, como o momento em que está muito doente numa das estadas no Hotel Aviz e em que, apesar de agradecer ao médico português, Dr. Fonseca, pela recuperação manda ao mesmo tempo sacrificar um carneiro em Istambul e distribuir a sua carne aos pobres da paróquia. Este era um homem que não ia a Istambul há 50 anos, mas pensa como os arménios tradicionais de seu tempo. Acredita noutras crenças, não está em contradição."

Para o biógrafo não foi difícil recolher informações sobre a estada em Portugal pois com a sua família dividida entre Londres e Paris nessa época escreviam e falavam todos os dias: "Se quisermos saber o que Gulbenkian fazia ou lia em certo dia no Hotel Aviz é fácil saber. O que pensava ou sentia é diferente, aí temos de confiar nos testemunhos de quem era mais íntimo. No entanto, foi preciso estar muito atento à agenda de interesses pessoais de cada um dos que estavam à sua volta e triangular os relatos para perceber o que é verdade em quem o diz."

Entre os depoimentos presentes no livro sobre o dia-a-dia de Gulbenkian em Lisboa está este, bem curioso: "Todas as manhãs, quando os médicos consentiam, um automóvel levava-o para Montes Claros, em Monsanto, que Salazar transformara em parque. Aí, Gulbenkian dava o seu passeio solitário, após o que se sentava debaixo da 'minha árvore', tendo primeiro descalçado sapatos e meias para poder sentir a relva debaixo dos pés". Também apoiava financeiramente o Jardim Zoológico: "Compraz-me mostrar desta maneira a minha viva simpatia pois os animais que habitam o belo jardim são também, de certa maneira, meus anfitriões."

A "imortalidade" oferecida por Portugal

Para Cyril Radcliffe, o adiar da decisão de Gulbenkian que ia favorecendo o estabelecimento da Fundação em Portugal "tornara-se uma obsessão" porque "isolava [Gulbenkian] definitivamente dos dois países que mais haviam feito no mundo para o formar e para lhe dar as suas oportunidades, a Inglaterra e a França". Portugal era, na opinião de Radcliffe, "um refúgio agradável e atencioso, mas nunca poderia ocupar o lugar das outras nações". O que Radcliffe observava era fácil de entender: "Já vi demasiado de governos para confiar que algum deles deixasse fontes como essa por explorar". Numa espécie de obituário/testemunho publicado no jornal The Sunday Times, Radcliffe considerou que "Gulbenkian só tinha orgulho na 'estrutura intrincada e complexa (...) que erguera como fortaleza e templo da sua riqueza" e, afirma o biógrafo, que "foi através dessa estrutura que Gulbenkian procurou a imortalidade" ao querer deixar uma fundação.

Azeredo Perdigão, seguindo as instruções de Salazar e mantendo este sempre informado das negociações, levou avante o processo e deu corpo ao que estava parcialmente escrito no testamento e que podia ter várias interpretações: "O enunciado do testamento de Gulbenkian deixava igualmente claro que o desejo do fundador fora que Portugal beneficiasse mais do que qualquer outro país". E, ainda não estava concretizada a Fundação, já Radcliffe se queixava de Perdigão "começar a atribuir bolsas de estudo em nome da Fundação." A batalha estava perdida, Salazar concedera a "imortalidade" a Gulbenkian e a Fundação mudou o rosto cultural de um país atrasado.

Apagar os "5%" do título da edição portuguesa

O título da edição portuguesa não corresponde ao original, O Senhor cinco por cento, e foi alterado para O Homem Mais rico do Mundo - As muitas vidas de Calouste Gulbenkian. Jonathan Conlin refere que "foi responsabilidade da editora Objectiva porque, creio, já havia um livro com esse título". Uma situação que não incomodou o editor inglês, pois a anterior 'espécie' de biografia com esse título data de 1957, de autoria de Ralph Hewins. "Como foi traduzido para Portugal em 2009, poderia fazer confusão com este livro, que é fruto de investigação enquanto o de Hewins era uma recolha de histórias que ele teve conhecimento", acrescenta Conlin.

Os cinco anos de investigação da biografia que agora é publicada foi integralmente subsidiada pela Fundação Calouste Gulbenkian que, garante, não interferiu no projeto apresentado por Jonathan Conlin. O próprio assegurou ao DN que "o livro foi publicado de acordo com o seu original e não houve pressão ou sugestão de alterações".

Entre as situações mais delicadas está o capítulo em que se relata o hábito de Gulbenkian ter sexo com mulheres jovens, situação que Conlin desdramatiza: "Não via isso como prazer, antes como um caso de saúde como é habitual na Turquia e que muita gente praticava na época. O seu casamento era apaixonado, mesmo que também fosse uma união empresarial porque casara-se com a filha de uma família ainda mais rica que ele próprio. Era tão bom para o negócio como para o amor e ela nunca esperou que o marido lhe fosse fiel, até brincava com o assunto em cartas enquanto namorados ao dizer que se tivesse de ser assim era melhor acostumar-se. Ela tinha 17 anos, mas é fácil dizer hoje que o mundo oriental é muito sexualizado, só que eram outros tempos e assim deve ser contextualizado".

Quanto ao seu interesse em escrever uma biografia de Calouste Gulbenkian, Jonathan Conlin revela que sentiu curiosidade pela primeira vez no protagonista em 2000 quando trabalhava na história da National Gallery, em Londres, e descobriu a amizade entre Kenneth Clark, o glamoroso diretor da National Gallery na altura, e Gulbenkian: "Com a chegada dos nazis e a ocupação de Paris, Gulbenkian ponderou levar parte da sua coleção de arte para a National Gallery e tive de escrever sobre este assunto. Essa foi a primeira vez em que Gulbenkian me interessou. Depois, ao dar uma conferência sobre a filantropia de Gulbenkian, vim em 2002 a Portugal consultar os arquivos na Fundação e fiquei ainda mais interessado."

A estátua de Diana que comprou a Estaline

Garante que não escreveu a biografia para os leitores portugueses: "O meu leitor ideal é quem lê a revista The Economist. Em Portugal toda a gente sabe quem é Gulbenkian, mas na Inglaterra ou nos EUA o nome é mais ligado ao filho Nubar, porque era um membro da sociedade muito famoso, conhecido pelo monóculo ou pelo táxi adaptado em que se deslocava, sempre rodeado de belas companhias, amante de bom vinho e boa comida - exatamente o contrário do seu pai. Seria um livro diferente se fosse para o leitor português, mas Gulbenkian é uma figura mundial e é necessário pensar na audiência internacional."

Ao perguntar-se se o Gulbenkian colecionador de arte tinha bom gosto, Jonathan Conlin responde assim: "Ele achava que o gosto tem de ser educado e desde cedo rodeou-se de curadores que o ensinaram, comprava revistas especializadas e lia livros de arte. Mesmo sendo um homem muito ocupado, conseguia arranjar tempo para estudar. O seu gosto vai até Degas, Picasso já estava além. Mas nunca disse que a arte contemporânea era lixo, apenas que não a apreciava e precisava de ser educado para gostar dela." Entre os bons exemplos de peças que adquiriu está a estátua de Diana, a Caçadora, que comprou a Estaline: "Essa estátua mostra como Gulbenkian era um caçador de tesouros, mesmo que após os adquirir depositava as peças longe do olhar de todos durante muitos anos. A caça era o que lhe interessava, talvez o relaxasse das tarefas empresariais."

O manuscrito original era muito maior e repleto de detalhes da vida empresarial de Gulbenkian, mas teve de o reduzir aquém das mil páginas repletas de negócios e das suas muitas vidas no livro. Os dois encartes e os mapas completam a informação escrita.

O Homem Mais Rico do Mundo - As muitas vidas de Calouste Gulbenkian

Jonathan Conlin

Editora Objectiva, 495 páginas

Exclusivos

Premium

Crónica de Televisão

Os índices dos níveis da cadência da normalidade

À medida que o primeiro dia da crise energética se aproximava, várias dúvidas assaltavam o espírito de todos os portugueses. Os canais de notícias continuariam a ter meios para fazer directos em estações de serviço semidesertas? Os circuitos de distribuição de vox pop seriam afectados? A língua portuguesa resistiria ao ataque concertado de dezenas de repórteres exaustos - a misturar metáforas, mutilar lugares-comuns ou a começar cada frase com a palavra "efectivamente"?