Aldina Duarte: uma fadista não pode representar? Pode, pois.

"Malfadadas" parte de quatro fados de Aldina Duarte com histórias de quatro mulheres. O espetáculo criado pela fadista com a atriz Isabel Abreu, o pianista Filipe Raposo e o dramaturgo e encenador Miguel Loureiro estreia no sábado.

Logo no início do processo, Aldina Duarte tinha deixado bem claro: "Eu sou fadista, não represento." Ela diz que em Malfadadas, o espetáculo que se estreia este sábado no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, fez o que está habituada a fazer quando canta, que é entrar em cada um dos fados e procurar o tom certo para interpretá-lo mas sempre com a sua voz, sem se afastar da sua verdade.

"Não faço grande psicologia e fisicamente também sou muito inepta, mas entrego-me ao trabalho", diz a cantora, como que pedindo desculpa. Não é a primeira vez que dá um "salto artístico" e que dá ao seu fado um corpo e uma encenação, mas é a primeira vez que se atreve a "fazer teatro assim", diz: "O texto dito, a voz falada, foi a parte que me custou mais".

Ouve-se o piano. Em vez de subir, o pano cai. E depois surgem duas mulheres vestidas de preto, de óculos escuros e sapatos de salto alto. Caminham juntas. Como irmãs siamesas. Parecem duas mas são uma só. Duas metades de uma só mulher. De um lado, segura um leque. No outro lado, uma faca ameaçadora. Vontades contraditórias na mesma cabeça. Uma só pessoa que, afinal, são muitas. Elas são Aldina Duarte e Isabel Abreu. São as Malfadadas.

Tudo começou, há mais de dois anos, com a vontade da atriz Isabel Abreu e da fadista Aldina Duarte em trabalharem em conjunto. "Queríamos poder passar tempo e fazer alguma coisa juntas", conta Isabel. Ao início não tinham qualquer ideia do tipo do objeto que poderia surgir dessa vontade. Como ponto de partida, Aldina propôs quatro fados seus, retirados do disco Contos de Fados (de 2011). Três desses fados têm letra de Manuela de Freitas: Ainda mais forte (a partir da personagem de Mary Tyrone em Jornada para a Noite, de Eugene O'Neill), Branca, Branca (inspirado na Blanche Dubois, de Um Elétrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams) e À Espera de Redenção (que nos remete para Medeia, de Eurípides). O quarto é Fado com Dono, de Maria do Rosário Pedreira (inspirado na personagem mitológica Eurídice).

"Tínhamos aqui quatro histórias de mulheres e achámos que podia haver um ponto onde elas se encontrassem e também onde nós nos poderíamos encontrar com elas", explica a atriz. A seguir, Isabel lembrou-se de convidar Miguel Loureiro (dramaturgia e encenação) e Aldina trouxe Filipe Raposo (compositor e pianista). E assim se foi construindo o espetáculo Malfadadas. O título é um achado, que remete, por um lado, para o fado, e, por outro, para o destino destas mulheres: Mary Tyrone torna-se viciada em morfina; Blanche Dubois, aquela que perdeu a fortuna e o marido e depende da "bondade dos estranhos"; Medeia, a que matou os filhos; Eurídice está presa no mundo dos mortos.

O dramaturgo coseu estas histórias como se fosse "um itinerário com um vento doentio, uma vez que as notas musicais são como as condições atmosféricas e há uma degradação". "Não se trata tanto de mulheres que são infelizes ou que são umas desgraçadas", sublinha Miguel Loureiro, "mas antes de mulheres que são atravessadas por um destino trágico". Pegou nos fados mas foi também buscar as histórias originais destas quatro mulheres e de outras narrativas em volta delas ou que lhes poderiam ser associadas, e foi escolhendo os momentos que lhe interessavam mais. Logo no início, por exemplo, existe uma referência aos Sete Pecados Mortais de Bertolt Brecht e Kurt Weill, e no final até aparece Mary Stuart.

Ao mesmo tempo, Filipe Raposo deixou-se levar pela "linha melódica" que o texto lhe deu. Além dos fados trazidos por Aldina e do Kurt Weill inicial, foi buscar a Suite em Sol Menor, de Bach, e ainda peças de sua autoria. "A música nunca acompanha", garante. Neste espetáculo, a música "é mais uma voz, que abre portas" e que desbrava caminhos (usando, novamente, a metáfora do itinerário). E Filipe Raposo não é só um pianista que está em cima do palco, é mais um intérprete - com voz e com corpo - em interação com as outras duas intérpretes.

Como diz o encenador: as histórias são "cantadas", por Aldina Duarte, "sentidas" pela música de Filipe Raposo, e "incorporadas" por Isabel Abreu. Mas depois acontece que todos eles, em algum momento, se colocam "fora de pé", em zonas que não seriam naturalmente as suas. E talvez, até, Aldina tenha que admitir que estão todos a representar.

O resultado não é um recital nem é uma peça de teatro, não é definitivamente um musical, mas é indiscutivelmente belo. Seja o que for que lhe chamemos.

Malfadadas

Criação de Isabel Abreu, Aldina Duarte, Miguel Loureiro e Filipe Raposo
Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
De 20 a 28 de julho

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