"Graças a D. Manuel, Portugal teve em Jorge Afonso um artista com um papel de poder na escolha pública das artes" 

Brunch com o diretor do Museu Nacional de Arte Antiga.

A conversa com Joaquim Caetano é para ser à mesa, mas torna-se irresistível aceitar o convite para uma visita-guiada (e logo pelo diretor do Museu Nacional de Arte Antiga) à exposição temporária Jogos Cruzados - Viagens entre Ocidente e Oriente, que desde o passado dia 15 e até 25 de setembro pode ser visitada aqui, na Rua das Janelas Verdes, uma das mais emblemáticas de Lisboa, onde um palacete, hoje hotel, chegou a ser a casa de Eça de Queiroz.

"Esta é, quase de certeza, a melhor exposição sobre jogos de tabuleiro neste momento no mundo", afirma Joaquim Caetano, depois de me ter mostrado obras fascinantes, como o xadrez em que as peças brancas do exército napoleónico se opõem às tropas imperiais chinesas, também feitas em marfim, mas tingidas de vermelho. Entre as muitas curiosidades, que vão de um dominó chinês a jogos da Glória inspirados em circunstâncias políticas várias, destaque para uma bengala que contém um pequeno tabuleiro, também de xadrez, com 32 peças minúsculas. "Era usado em viagens por aqueles cuja paixão não permitia estarem muito tempo sem esse jogo, como o nosso colega, já falecido, Dagoberto Markl, a quem pertencia. Esta exposição é-lhe dedicada", sublinha o diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), fundado em 1884 com o nome então de Museu Nacional de Bellas Artes e Archeologia.

São tempos animados estes num dos principais e mais antigos museus portugueses, que aloja peças magnas da criação artística nacional, como os Painéis de São Vicente ou a Custódia de Belém (mas igualmente estrangeiras, como As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch, e Santo Agostinho, de Piero della Francesca). É que, além da exposição dedicada aos jogos de mesa, realizada graças a muitos empréstimos de privados mas também de museus de vários países, o MNAA tem neste momento 15 pinturas suas expostas no Louvre.

Enquadrada na Temporada Cultural Cruzada Portugal-França, a exposição com o título L"Âge d"Or de la Renaissance Portugaise irá decorrer até 10 de outubro, na Ala Richelieu do Louvre. Entre as obras expostas no grande museu parisiense está Jorge Afonso, importantíssima figura da primeira metade do século XVI, que sei ter sido o tema do doutoramento de Joaquim Caetano e, portanto, assunto obrigatório nesta nossa conversa com o homem que desde 2019 lidera o MNAA, mas que é da casa há três décadas: "Esta é a minha casa-mãe. Entrei para aqui a 2 de dezembro de 1991, quando se criou o Instituto Português de Museus. Entrei para uma coisa que se chamava inventário do património nacional, foi um concurso nacional, entraram 30 pessoas para os museus, 30 para os arquivos e 30 para as bibliotecas. Para aqui viemos 13, e ainda cá estamos eu, o subdiretor e a conservadora de ourivesaria."

Nascido em 1962 em Beja, Joaquim Caetano começou a interessar-se pelas artes ainda adolescente, graças aos FAOJ, espécie de antepassado do Instituto da Juventude. "Eram uns centros culturais para a juventude com ateliês, comecei por fazer fotografia, depois havia um grupo interessado pelas artes plásticas e comecei a interessar-me pela pintura, sobretudo, pela arte contemporânea." Acaba por vir para Lisboa estudar História da Arte, um curso então recente na Faculdade de Letras. E conta ter tido "aquela sorte de principiante logo no primeiro ano, pois o primeiro trabalho que fiz foi sobre uns quadros do museu de Beja, e descobri um autor/pintor do século XVI que era conhecido por documentos mas não tinha obra. Identifiquei um retábulo com documentação que provava que era de António Nogueira, de Évora, que viveu na segunda metade do século XVI e que tem alguma importância no maneirismo do Alentejo, embora também tivesse trabalhado em Lisboa. Era o antigo retábulo da Misericórdia de Beja."

Estamos agora sentados na esplanada do restaurante do MNAA, num jardim com vista para o Tejo, e, enquanto bebemos um café e uma água com gás e comemos um pastel de nata, o meu anfitrião destaca alguns nomes que foram de grande importância no seu crescimento profissional: Túlio Espanca, Vítor Serrão, Horta Correia, Irisalva Moita e Dagoberto Markl, este último já referido como antigo colega e xadrezista de grande mérito. "Ele trabalhava aqui na biblioteca e, no fundo, servia como tutor. Encaminhava as leituras, discutia os problemas, de forma que desde o início da minha entrada na história da arte, por esta sequência de quase coincidência de ir à procura de um pintor e conseguir descobri-lo, a história da arte ganhou para mim uma dimensão extremamente prática. Não era algo que lesse nos livros e reproduzisse, era algo que, desde o início, teve um caráter de investigação, descoberta e envolvimento no estudo da pintura portuguesa."

Os dois filhos de Joaquim Caetano devem o nome a figuras das artes, o que diz muito sobre o diretor do MNAA. O mais novo, João, ao escultor João Cutileiro, "um grande amigo", o mais velho, Diogo, a um pintor de há 500 anos. "Fiz outra grande descoberta no mestrado, de um dos principais pintores do século XVI, do Renascimento português, que era mal conhecido. Um historiador americano tinha já feito um corpus a que chamou Mestre de S. Quintino, mas que não sabia quem era, e eu consegui identificar esse pintor, que era Diogo de Contreiras. Essa descoberta de uma pregação de S. João Baptista, que está aqui, e de mais uma quantidade de obras importantes contrariou a ideia de que Portugal não tinha tido Renascimento, que se tinha passado do gótico para a arte da Contrarreforma. Contreiras é um pintor que faz um caminho de atualização para a pintura italiana, para os modelos italianos do Renascimento", explica o académico, de certa forma a justificar o título da atual exposição portuguesa no Louvre.

Licenciatura, mestrado, falemos agora do doutoramento, feito na Universidade de Évora, cidade na qual Joaquim Caetano foi igualmente diretor do museu, hoje chamado de Frei Manuel do Cenáculo (para o qual adquiriu um Álvaro Pires, o mais antigo pintor português, e promoveu o restauro do grande retábulo flamengo, que é um dos maiores do mundo, feito para a Sé de Évora).

Nota-se nas palavras a grande admiração por Jorge Afonso, tema da tese. "Ele, tal como Diogo Contreiras, vivia em Lisboa, numa rua que já não existe, que ficava atrás do Convento de S. Domingos, e que era o bairro de pintores. Foi um grande pintor, ao qual D. Manuel dá um cargo que não existiu antes e depois dele, que é o cargo de examinador de todas as obras de pintura do reino. Jorge Afonso tinha a incumbência de escolher os pintores, definir preços, ver se a obra estava bem feita, organizar as empreitadas de todas as obras que o rei subsidiava. Como diz o documento de nomeação: "para que se faça a nós nosso serviço e ao povo seu direito". Ou seja, para que seja bom para o rei e para que não se gaste mal os dinheiros públicos. Jorge Afonso, pelo seu talento e também pelas ligações familiares que tinha, acaba por estar aparentado com 14 dos mais importantes artistas portugueses da primeira metade do século XVI. O cunhado dele era o pintor favorito do rei, um flamengo que tinha vindo para cá, Francisco Henriques. O genro dele é Gregório Lopes, que lhe irá suceder no cargo de pintor régio, como depois o neto, Cristóvão Lopes, vai suceder ao pai até ao final do século XVI. Garcia Fernandes foi aprendiz dele e depois vai casar com a filha de uma irmã. No fundo, Jorge Afonso irá construir uma rede de artistas que vão dominar totalmente a empreitada régia. Uma mistura de família e gente que trabalhava com eles. E mais: vai dominar o comércio de grande parte dos pigmentos. O azul era uma cor importantíssima, que era cara e era feita de lápis-lazúli importado do Afeganistão, e que era mais caro que o ouro. D. Manuel começa a explorar uma alternativa, a azurite, através das minas de cobre de Aljustrel, e é Jorge Afonso que tem o cargo de afinador do azul dessas minas, que permitia ter uma predominância grande. No fundo, ele é o grande organizador deste momento da pintura portuguesa a que chamamos os Primitivos. Ele ainda tinha tempo para pintar, e pintava muito bem. Temos aqui o retábulo da Madre de Deus, que é a sua grande obra-prima, também o retábulo, felizmente, completo, do Convento de Jesus de Setúbal, e que é uma obra maior da arte portuguesa [não resisto a comentar que Setúbal é a minha cidade]. Provavelmente também a Sala dos Brasões do Palácio de Sintra, as grandes empreitadas do Convento de Cristo, em Tomar. Além de que tinha cargos importantes: foi arauto, desenha festas para o rei, tem uma importância diplomática grande na receção aos embaixadores da Etiópia. É um homem profundamente metido na corte."

Na exposição em Paris está uma grande tábua de Jorge Afonso, A Adoração dos Pastores. Explica Joaquim Caetano que "é, curiosamente, a primeira vez que os pastores são representados na pintura portuguesa, de forma rústica, e que é impossível não relacionar com um homem que Jorge Afonso conhecia bem. Há documentos que juntam as duas assinaturas, e falo de Gil Vicente, que pouco tempo antes tinha feito para a rainha D. Leonor o Auto Pastoril Castelhano, em que aparecem os pastores a falar com rusticidade". Comentamos a forte probabilidade de Gil Vicente, o dramaturgo, ser também o ourives que fez a lindíssima Custódia de Belém, com o ouro que foi oferecido a Vasco da Gama em Quíloa, no regresso da sua segunda viagem à Índia.

Pergunto qual a importância artística do reinado de D. Manuel, no fundo aquele que cria o império na Ásia que propicia o tal intercâmbio de jogos que vimos na exposição no MNAA e que com tantos rendimentos financia a arte renascentista portuguesa que nos próximos tempos pode ser vista no Louvre. "Imensa", é a resposta. "A grande novidade do período de D. Manuel foi juntar na corte um conjunto de intelectuais e artistas com uma estrutura de obras muito da intimidade do próprio rei - Bartolomeu de Paiva é o amo do príncipe D. João, futuro D. João III, e vai criar uma estrutura de obras que são pagas diretamente pela Casa da Índia e da Mina e cria uma estrutura que permite a repetição constante. Relembro que há duas coisas muito importantes em D. Manuel: ele sobe ao trono de uma forma que não era expectável ("uma carambola inacreditável de mortes e de não nascimentos", nas palavras do historiador João Paulo Oliveira e Costa, seu biógrafo). É o próprio D. João II que mata o irmão mais velho do futuro rei e que permite que D. Manuel, seu primo, ascenda. Quando D. Manuel assume o trono, por um lado tem uma necessidade de afirmação enorme entre os seus pares e, por outro lado, o Portugal que ele vai herdar é o Portugal que, passados três anos, chega à Índia, é um Portugal à escala global. Ele tem necessidade de afirmação interna e externa também, para mostrar que Portugal é uma potência à escala mundial e não um pequeno país. E ele tem uma habilidade grande para a propaganda - ainda hoje conhecemos o estilo manuelino em todo o lado -, porque tem a experiência direta. D. Manuel tinha vivido em criança e depois já de casar com a viúva do príncipe D. Afonso, em Espanha, onde os Reis Católicos, por razões diferentes, tinham feito uma política com as artes altamente representativa, para demonstrar a unidade nova de Espanha, através do casamento de Fernando com Isabel. Este momento altíssimo da cultura visual portuguesa corresponde a esta estrutura e a um gosto régio. Costumo dizer por brincadeira que foi uma das poucas vezes em Portugal que um artista teve um papel determinante e um papel de poder na escolha pública das artes - e falo de Jorge Afonso. Só volta a acontecer quando o Fernando Calhau foi nomeado presidente do Instituto de Arte Contemporânea, que foi criado nos anos 90, em que voltamos a ter um pintor com responsabilidades efetivas numa política das artes."

Prossegue Joaquim Caetano: "Mas se quisermos ver a questão da forma mesquinha com que gostamos por vezes de ver as coisas, podemos dizer que Jorge Afonso era o chefe de uma pandilha que pôs toda a família e toda a gente da sua corte a trabalhar ali. O que é facto é que foi um momento alto da cultura visual, porque ele sabia o que estava a fazer, tinha poder e sabia fazer a gestão dos melhores pintores pelas obras régias, incluindo ir buscar novos pintores à Flandres quando esta oficina régia precisava de mais gente."

A conversa com o diretor do MNAA já vai longa, mas destaco que nela assumiu também ter uma linha de continuidade com o seu antecessor, António Filipe Pimentel, elogiou o trabalho do Grupo dos Amigos do Museu, essencial na aquisição de obras, e agradeceu aos mecenas, que são três bancos, o La Caixa (grandes exposições), o Millennium BCP (restauro) e o Santander (área da educação e desenvolvimento científico). No momento da despedida, já com as Janelas Verdes à vista, ficou um desejo do diretor: "Que seja possível a expansão do museu, com um acesso novo via Avenida 24 de Julho."

leonidio.ferreira@dn.pt

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