Para lá da sua riqueza artística, a memória de François Truffaut possui qualquer coisa de lendário. Evocamo-lo, desde logo, através de momentos emblemáticos da Nova Vaga francesa, a começar por Os 400 Golpes (1959), um dos títulos fundadores desse movimento decisivo para a modernidade cinematográfica. Mais ainda: o seu legado envolve uma ideia criativa, partilhada pelos companheiros da crítica e dos filmes (Godard, Rohmer, Rivette, etc.), segundo a qual a universalidade do cinema começa nas singularidades da expressão particular de cada autor.Tudo isto não impede que, para lá dos emblemas clássicos do seu trabalho — incluindo Jules e Jim (1962) e Beijos Roubados (1968) —, uma parte significativa da sua filmografia permaneça, não exatamente esquecida, mas pouco divulgada (incluindo na abundância tantas vezes equívoca das plataformas de streaming). A partir de quinta-feira, o ciclo “François Truffaut – Ao sol da Nouvelle Vague” será uma oportunidade muito especial para redescobrir a beleza dos contrastes dessa filmografia — para já, em Lisboa e Porto, respetivamente nos cinemas Nimas e Trindade. Feito com cópias restauradas, o ciclo prolongar-se-á até dia 15 e inclui uma das curtas-metragens do início da carreira de Truffaut (Os Insolentes, 1957), a par da quase totalidade das suas longas-metragens (ficam de fora Fahrenheit 451 e A Noite Americana, respetivamente de 1966 e 1973). .Correndo o risco de algum esquematismo, talvez possamos resumir a obra de Truffaut através de um triângulo “temático”. O seu primeiro vértice é, obviamente, ocupado por uma relação constante e obsessiva com o mundo da infância — não a infância como tempo irreal, liberto das convulsões do mundo adulto, antes como um paraíso para sempre perdido. O Menino Selvagem (1970) será o símbolo perfeito desse movimento, sendo Os 400 Golpes a sua bandeira inicial. E tanto mais quanto o seu frágil herói, Antoine Doinel, vai ser uma personagem que Truffaut acompanha em sucessivos momentos da sua existência — Beijos Roubados, Domicílio Conjugal (1970), O Amor em Fuga (1979) —, acompanhando também a transformação física e anímica do seu intérprete, Jean-Pierre Léaud. Sem esquecer que a infância está no centro de Na Idade da Inocência (1976), filme muito pouco conhecido em que a iminência da tragédia se combina com o mais desconcertante humor.Depois, será inevitável destacar a “região central” da obra de Truffaut. A saber: a pulsão romântica que tem a sua mais depurada obra-prima em A Sereia do Mississipi (1969). O par interpretado por Catherine Deneuve e Jean-Paul Belmondo vive, afinal, o esplendor de uma radical entrega amorosa que, em qualquer caso, começa num equívoco de identificação (ela não é quem ele aguarda que chegue no paquete Mississipi), equívoco que, em última instância, esconde um ato criminoso. Baseado no romance homónimo de William Irish, o projeto de adaptação acompanhou Truffaut durante alguns anos: o livro surge mesmo em Beijos Roubados como objeto de leitura de Doinel/Léaud. .O romantismo é um assombramento que contamina toda a evolução de Truffaut. Recordemos, sobretudo, o exemplo de La Peau Douce/Angústia (1963), talvez a maior revelação deste ciclo para os espetadores mais jovens (e não só, já que o filme quase desapareceu de circulação...). Com Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve, nele deparamos com uma história de adultério, tingida de amargura e crueldade, em parte rodada na cidade de Lisboa (com António da Cunha Telles como coprodutor do filme) — a par de A Mulher Casada (1964), de Jean-Luc Godard, e A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol, é um dos grandes filmes da Nova Vaga francesa a enfrentar o castelo de cartas do imaginário conjugal.Enfim, nada disto poderá ser separado de uma afirmação vital que se tece através de uma omnipresente pulsão de morte. Bastará recordar que tal afirmação desemboca em O Quarto Verde (1977), adaptação de um conto de Henry James centrada num homem que edifica um memorial para celebrar aqueles que, já mortos, marcaram toda a sua existência. Mais, muito mais, do que um gesto fúnebre, estamos perante um desejo de viver que, através das suas contradições, ajuda a esclarecer a fundamental relação estética e ética de Truffaut com o seu mestre Alfred Hitchcock. Filmes como Disparem sobre o Pianista (1960), com Charles Aznavour, ou A Noiva Estava de Luto (1967), com Jeanne Moreau, são festivos exercícios “hitchcockianos”, o último, aliás, contando com música composta por Bernard Herrmann, autor das bandas sonoras de títulos como Vertigo (1958) ou Psico (1960). Em 1966, convém lembrar, Truffaut lançou Le Cinéma selon Alfred Hitchcock, livro/entrevista cuja “edição definitiva” (Hitchcock/Truffaut) data de 1993. .Tudo isto pode também ser visto e compreendido através dos três filmes finais de Truffaut: O Último Metro (1980), com Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, uma evocação de Paris durante a ocupação nazi, A Mulher do Lado (1981) e Finalmente Domingo! (1982), ambos com Fanny Ardant, o primeiro revisitando a crueldade romântica através daquilo que acontece, literalmente, na “casa do lado”, o segundo apostando na recriação festiva das leis clássicas do policial. Podemos ser tentados a encará-los como uma espécie de testamento cinéfilo e existencial, mas é um facto que o desaparecimento de Truffaut foi um choque impossível de descrever através de qualquer determinismo — atingido por um tumor cerebral, morreu no dia 21 de outubro de 1984, em Paris, contava 52 anos. . Realizador & atorO MENINO SELVAGEM (1970)Em finais do século XVIII, na floresta de Aveyron, no sul de França, foi encontrada uma criança de 11/12 anos que sobreviveu sem contacto com outros humanos. O caso (verídico) foi registado pelo médico Jean Itard numa memória centrada num desafio dramático: como ensinar a um “menino selvagem” as regras e linguagens de uma sociedade? Assumindo o papel de Itard, Truffaut criou o mais austero e comovente dos seus filmes, celebrando a crença num humanismo que pensa através dos seus próprios limites. .AS DUAS INGLESAS E O CONTINENTE (1971)Foi o segundo filme de Truffaut baseado num romance de Henri-Pierre Roché (1879-1959), nove anos depois de Jules e Jim. A história das relações entre duas irmãs inglesas (Kika Markham e Stacey Tendeter) com o jovem francês (Jean-Pierre Léaud) que representa o “continente” possui esse misto de pudor e violência emocional que estão no centro do seu universo. Não sendo, aqui, um ator “físico”, Truffaut empresta a sua voz, enquanto narrador, vital para a discreta sensualidade de todos os instantes. .A HISTÓRIA DE ADÈLE H. (1975)O retrato de Adèle Hugo, segunda filha do escritor Victor Hugo, não contém apenas uma das mais espantosas composições de Isabelle Adjani (valeu-lhe, aliás, uma nomeação para o Óscar de melhor atriz). É também um dos filmes de Truffaut que, a par de A Sereia do Mississipi, expõe de forma mais descarnada o ambíguo esplendor da paixão amorosa. Truffaut aparece de forma muito breve, quando Adèle, vendo-o de costas, o confunde com o seu amado — a simbologia é digna do seu mestre, Alfred Hitchcock. .ENCONTROS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (1977)Não foi um capricho cinéfilo, antes uma brilhante ideia de casting: para representar a personagem de Claude Lacombe, o cientista francês que estuda os "encontros imediatos” dos humanos com extraterrestres, Steven Spielberg convidou Truffaut... e ele aceitou! Para Spielberg, o realizador francês que ele tanto admirava (com especial atenção a partir de O Menino Selvagem), era a presença certa para simbolizar a coexistência do olhar científico com a compaixão humana — obviamente, tinha razão. .O QUARTO VERDE (1977)Na obra de Truffaut, a pulsão romântica, mesmo nos momentos mais luminosos, vive assombrada pelas sombras da morte. Daí que esta adaptação do conto O Altar dos Mortos, de Henry James, não possa deixar de ser encarada como uma peça fundamental no imaginário da sua obra: a história de Julien Davenne, o homem que constrói um memorial dedicado aos defuntos que marcaram a sua existência, possui o fulgor trágico de um genuíno requiem — com o realizador, pela última vez, na condição de ator principal.