François Ozon encena um caso verídico de pedofilia

Chega às nossas salas um dos grandes filmes da produção francesa de 2019: Graças a Deus evoca o caso de um padre pedófilo, da cidade de Lyon, e o trabalho dramático, mas essencial, de reposição da verdade dos factos.

É bem provável que os mais dados ao gosto mediático do "escândalo" vejam no mais recente filme do francês François Ozon, Graças a Deus, um acontecimento para ser celebrado através de enérgicas frases panfletárias e discursos inflamados de denúncia. Poderemos compreender tal agitação em função da incontornável perturbação que o tema abordado envolve: trata-se de evocar um caso verídico de pedofilia, protagonizado por um padre católico da cidade de Lyon, que teve uma enorme repercussão social, jornalística e moral em França.

Nada disso pode ser banalizado, muito menos recalcado. Seja como for, creio que importa também não esquecer que estamos perante um objeto cinematográfico, não um ensaio sobre a pedofilia, muito menos um processo global de acusação da Igreja católica (o que, além do mais, seria pura demagogia). Creio mesmo que a admirável contundência da visão de Ozon começa no facto de a sua narrativa envolver, desde a primeira cena do filme, uma delicada pergunta: como é que a Igreja lida com situações como esta, obviamente estranhas aos seus valores mais radicais?

No plano específico da expressão cinematográfica, o trabalho de Ozon é tanto mais surpreendente quanto ele se reafirma como um cineasta que não se deixa encerrar em rótulos ou estilos. Afinal de contas, conhecemo-lo através de experiências no domínio do drama histórico (Frantz, 2016), do conto erótico (Jovem e Bela, 2013) e até da alegria contagiante do musical (8 Mulheres, 2002). Através de Graças a Deus, Ozon inscreve-se também na nobre tradição do "cinema social" francês.

A história começa quando Alexandre Guérin (Melvil Poupaud, numa das suas composições mais subtis), adulto, católico, casado com cinco filhos, descobre que Bernard Preynat (Bernard Verley), o padre que o abusara quando era escuteiro, continua a trabalhar com crianças. A partir daí, Alexandre desencadeia um doloroso, mas essencial, processo de revisitação das suas memórias, acabando por mobilizar outros homens que, na infância, foram abusados por Preynat e, mais do que isso, gerando um amplo movimento social intitulado "La Parole Libérée" - à letra: "A Palavra Libertada".

Nos muitos debates que o filme suscitou em França (onde foi, aliás, um dos grandes sucessos de 2019), Ozon teve o cuidado de sublinhar sempre um princípio básico da sua aproximação dramatúrgica. A saber: não se trata de promover maniqueísmos fáceis entre "carrascos" e "vítimas", mas de dar conta, antes de tudo o mais, dessa passagem do silêncio acumulado ao longo de muitos anos (os factos ocorreram nas décadas de 1970/80) para o valor radical, libertador, precisamente, da verbalização daquilo que aconteceu.

Daí a importância paradoxal, porque terrível, da expressão "graças a Deus" que dá título ao filme. Não se trata, entenda-se, de uma citação abstrata de um voto piedoso. Nada disso. No contexto desta história, a sua origem está numa frase lamentável, dita pelo Cardeal Barbarin (François Marthouret, grande secundário do cinema francês do último meio século), numa conferência de imprensa em que reconheceu a gravidade do comportamento pedófilo de Preynat: "Estamos perante factos que datam de há muito tempo e, graças a Deus, todos esses factos prescreveram."

O filme de Ozon é, em última instância, sobre a impossibilidade de prescrever a verdade dos factos. Nessa perspetiva, podemos dizer que Graças a Deus, muito mais do que o relato de um complexo processo de tribunais, existe como uma demanda desse valor primordial das palavras, do modo como nelas, e através delas, circula a mais cristalina verdade humana. Se "no princípio era o Verbo", Ozon filma o valor sagrado desse princípio.

* * * * * Excepcional

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